Edição 1862 . 14 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Crime
Ele matou 41 crianças

Os crimes assumidos pelo mecânico
Francisco Brito o tornam o mais brutal
assassino serial do país


Juliana Linhares, de São Luís

O mecânico maranhense Francisco das Chagas Rodrigues de Brito deu um depoimento aterrador à polícia do Pará na madrugada de quarta-feira. Ele contou como mutilou e matou 41 meninos no Estado e no Maranhão. Brito também confessou ter atacado três meninos em 1989. Esses sobreviveram. Hoje, têm cerca de 25 anos, mas levam a marca de todas as vítimas do mecânico: foram castrados. As revelações feitas na semana passada são suficientes para classificá-lo como o maior assassino serial já preso no país. Ele fez três vezes mais vítimas que Marcelo Costa de Andrade, o Vampiro de Niterói, que, até agora, encabeçava a lista por ter trucidado catorze crianças em 1991. Entender as motivações que teriam levado Brito, o Vampiro de Niterói ou Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, a cometer seus crimes ainda é um desafio para psiquiatras e psicólogos. O relato do mecânico, que também contou sua história a VEJA, joga luz sobre o espantoso e assustador fenômeno do surgimento dos maníacos assassinos.

Francisco Brito é o caçula de cinco irmãos de uma família miserável de São Luís. Sua carteira de identidade registra 39 anos, mas ele diz que tem apenas 35. Abandonado pelo pai, perdeu a mãe aos 4 anos. Foi criado pela avó, que o chicoteava cada vez que suas má-criações somavam oito. A família vivia da venda de bolos, sucos e frutas. Adulto, foi garimpeiro, encanador e eletricista. Morou com três mulheres. Da última, teve duas filhas, hoje com 4 e 6 anos. Recentemente, se sustentava como mecânico de bicicleta. Seus crimes começaram com os ataques de 1989. Dois anos depois, Brito matou o primeiro menino. A seqüência de crimes foi interrompida em dezembro do ano passado. A polícia investigava o desaparecimento de Jonathan Vieira, de 15 anos. Os vizinhos contaram que Brito e sua casa tinham mau cheiro. A polícia encontrou três ossadas no barraco de 20 metros quadrados onde o mecânico morava. O crime foi logo relacionado ao sumiço de Daniel Ferreira, de 4 anos, sobrinho de sua mulher. Descobriu-se que ele também estava entre as vítimas.

Depois que foi preso e os corpos foram desenterrados, Brito passou a admitir os assassinatos, mas dizia não se lembrar de nada. Na semana passada, contou como eles aconteceram. As histórias são chocantes. Quase todos os meninos foram estrangulados. Um sucumbiu a pedradas. Em seguida, Brito castrou-os e extirpou um pedaço do corpo deles. De alguns, arrancou um dedo. De outros, tirou as mãos, os pés, as orelhas ou os olhos. Ele nega ter mantido relações sexuais com as crianças, mas a polícia provou que isso aconteceu em, pelo menos, um caso. Também há suspeitas de que ele tenha devorado partes amputadas. O comportamento de Brito não levantou suspeitas em seus irmãos, amigos ou vizinhos. O único episódio que poderia identificá-lo como criminoso foi mantido em segredo. Sua última mulher contou à polícia que, uma vez, deixou Brito tomando conta de um bebê. Quando voltou, os genitais do menino estavam feridos. Em conversas com os policiais, ela relatou também que apanhava do ex-companheiro.

O mecânico contou que ouvia vozes ordenando que matasse as crianças e, depois, era tomado por uma "força" exterior. "Essa coisa me mandava apertar o pescoço deles. Aí, aparecia uma faca na minha mão. Na hora, eu não sentia nada. Ficava neutro", disse a VEJA. Seu relato é compatível com o da maioria das confissões de assassinos seriais conhecidos. "Atribuir os crimes a um comando externo é a maneira que eles encontram para justificar uma explosão de violência", diz Ilana Casoy, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense. É difícil reconhecer o maior assassino do país em Brito. Com apenas 1,65 metro, ele é gentil, risonho e querido por seus companheiros de cela, que o apelidaram de "Celebridade". Ele deve ser julgado em janeiro. Até lá, uma junta de psiquiatras fará um laudo para avaliar se ele pode cumprir pena na cadeia ou se deve ser enviado para um manicômio judiciário. Para eles, Brito é um desafio. Até hoje, os pesquisadores não tiveram êxito na busca das causas que dão origem aos assassinos seriais. Sem sucesso, já investigaram sua formação psicológica, seus genes e até possíveis deformações no cérebro. Diz o matador: "Todo mundo quer ser entendido no meu caso. Mas essa compreensão é para poucos".

 

"Assassinam como se fosse uma tarefa"


AP
Helen Morrison: "Você, eu, todos corremos perigo"


A psiquiatra americana Helen Morrison é uma das pesquisadoras de assassinos seriais mais respeitadas no mundo. Nos últimos trinta anos, entrevistou oitenta assassinos e seus parentes e amigos. Dois meses atrás, lançou um livro no qual fala de seu trabalho e de alguns casos brasileiros.

POR QUE ELES MATAM EM SÉRIE? Eles não têm motivo. Acordam um dia e decidem matar. Encaram isso como se fosse uma tarefa, como escovar os dentes.

COMO ELES ESCOLHEM AS VÍTIMAS? Os assassinos seriais não fazem uma seleção nem se programam para matar. Atacam quem está no lugar errado, na hora errada e tem as características comuns a suas vítimas. É ele que decide que características são essas: pode ser louro, ter certa idade ou morar num bairro específico. Quem tiver o azar de possuir essa característica corre perigo.

FRANCISCO BRITO CONFESSOU TER ASSASSINADO E AMPUTADO O PÊNIS DE 41 MENINOS NO MARANHÃO E PARA. ELE MATOU POR UM DESVIO SEXUAL? Não acredito. Esses criminosos gostam de manusear pedaços do corpo de suas vítimas. Uns cortam pênis. Outros preferem orelhas ou dedos. Não dá para relacionar o surgimento de assassinos seriais ao sexo.

DE ONDE VEM, ENTÃO, O IMPULSO DE MATAR? Creio que a origem está em uma mutação do cromossomo sexual masculino. Por isso, todos os assassinos seriais são homens.

ELES SE SENTEM CULPADOS POR SEUS CRIMES? Não. Eles não acham que têm problemas e não entendem por que os outros ficam tão chocados.

O QUE SE PODE FAZER PARA CONTROLÁ-LOS? Nada. Se você prender um assassino serial, ele mata os colegas de prisão. Confinado a um manicômio, ataca médicos e pacientes. É só se lembrar de Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque. Ele disse que atacaria de novo se fosse solto. A única solução é a pena de morte.

A SENHORA DEFENDE A PENA DE MORTE TAMBÉM PARA OUTROS CRIMES? Não sou uma defensora da pena de morte. Outros tipos de assassino devem ir para a prisão ou para clínicas psiquiátricas.

QUEM SÃO OS MAIS BRUTAIS ASSASSINOS SERIAIS DO BRASIL? Já foram catalogados quarenta. Eu acreditava que o Vampiro de Niterói, apelido de Marcelo Costa de Andrade, fosse o mais ativo. Ele matou catorze meninos no início dos anos 90. Francisco Brito pode tê-lo ultrapassado. Nunca um assassino serial brasileiro matou tanto. Estou impressionada.

 

 
 
 
 
topo voltar