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Crime
Ele matou 41 crianças
Os crimes assumidos pelo mecânico
Francisco Brito o tornam o mais brutal
assassino serial do país

Juliana Linhares, de São Luís
O mecânico maranhense Francisco das Chagas
Rodrigues de Brito deu um depoimento aterrador à polícia
do Pará na madrugada de quarta-feira. Ele contou como mutilou
e matou 41 meninos no Estado e no Maranhão. Brito também
confessou ter atacado três meninos em 1989. Esses sobreviveram.
Hoje, têm cerca de 25 anos, mas levam a marca de todas as
vítimas do mecânico: foram castrados. As revelações
feitas na semana passada são suficientes para classificá-lo
como o maior assassino serial já preso no país. Ele
fez três vezes mais vítimas que Marcelo Costa de Andrade,
o Vampiro de Niterói, que, até agora, encabeçava
a lista por ter trucidado catorze crianças em 1991. Entender
as motivações que teriam levado Brito, o Vampiro de
Niterói ou Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do
Parque, a cometer seus crimes ainda é um desafio para psiquiatras
e psicólogos. O relato do mecânico, que também
contou sua história a VEJA, joga luz sobre o espantoso e
assustador fenômeno do surgimento dos maníacos assassinos.
Francisco Brito é o caçula de
cinco irmãos de uma família miserável de São
Luís. Sua carteira de identidade registra 39 anos, mas ele
diz que tem apenas 35. Abandonado pelo pai, perdeu a mãe
aos 4 anos. Foi criado pela avó, que o chicoteava cada vez
que suas má-criações somavam oito. A família
vivia da venda de bolos, sucos e frutas. Adulto, foi garimpeiro,
encanador e eletricista. Morou com três mulheres. Da última,
teve duas filhas, hoje com 4 e 6 anos. Recentemente, se sustentava
como mecânico de bicicleta. Seus crimes começaram com
os ataques de 1989. Dois anos depois, Brito matou o primeiro menino.
A seqüência de crimes foi interrompida em dezembro do
ano passado. A polícia investigava o desaparecimento de Jonathan
Vieira, de 15 anos. Os vizinhos contaram que Brito e sua casa tinham
mau cheiro. A polícia encontrou três ossadas no barraco
de 20 metros quadrados onde o mecânico morava. O crime foi
logo relacionado ao sumiço de Daniel Ferreira, de 4 anos,
sobrinho de sua mulher. Descobriu-se que ele também estava
entre as vítimas.
Depois que foi preso e os corpos foram desenterrados,
Brito passou a admitir os assassinatos, mas dizia não se
lembrar de nada. Na semana passada, contou como eles aconteceram.
As histórias são chocantes. Quase todos os meninos
foram estrangulados. Um sucumbiu a pedradas. Em seguida, Brito castrou-os
e extirpou um pedaço do corpo deles. De alguns, arrancou
um dedo. De outros, tirou as mãos, os pés, as orelhas
ou os olhos. Ele nega ter mantido relações sexuais
com as crianças, mas a polícia provou que isso aconteceu
em, pelo menos, um caso. Também há suspeitas de que
ele tenha devorado partes amputadas. O comportamento de Brito não
levantou suspeitas em seus irmãos, amigos ou vizinhos. O
único episódio que poderia identificá-lo como
criminoso foi mantido em segredo. Sua última mulher contou
à polícia que, uma vez, deixou Brito tomando conta
de um bebê. Quando voltou, os genitais do menino estavam feridos.
Em conversas com os policiais, ela relatou também que apanhava
do ex-companheiro.
O mecânico contou que ouvia vozes ordenando
que matasse as crianças e, depois, era tomado por uma "força"
exterior. "Essa coisa me mandava apertar o pescoço deles.
Aí, aparecia uma faca na minha mão. Na hora, eu não
sentia nada. Ficava neutro", disse a VEJA. Seu relato é compatível
com o da maioria das confissões de assassinos seriais conhecidos.
"Atribuir os crimes a um comando externo é a maneira que
eles encontram para justificar uma explosão de violência",
diz Ilana Casoy, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria
Forense. É difícil reconhecer o maior assassino do
país em Brito. Com apenas 1,65 metro, ele é gentil,
risonho e querido por seus companheiros de cela, que o apelidaram
de "Celebridade". Ele deve ser julgado em janeiro. Até lá,
uma junta de psiquiatras fará um laudo para avaliar se ele
pode cumprir pena na cadeia ou se deve ser enviado para um manicômio
judiciário. Para eles, Brito é um desafio. Até
hoje, os pesquisadores não tiveram êxito na busca das
causas que dão origem aos assassinos seriais. Sem
sucesso, já investigaram sua formação psicológica,
seus genes e até possíveis deformações
no cérebro. Diz o matador: "Todo mundo quer ser entendido
no meu caso. Mas essa compreensão é para poucos".
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"Assassinam como se fosse uma
tarefa"
AP
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| Helen Morrison: "Você,
eu, todos corremos perigo" |
A psiquiatra americana Helen Morrison é uma das
pesquisadoras de assassinos seriais mais respeitadas
no mundo. Nos últimos trinta anos, entrevistou
oitenta assassinos e seus parentes e amigos. Dois meses
atrás, lançou um livro no qual fala de
seu trabalho e de alguns casos brasileiros.
POR QUE ELES MATAM EM SÉRIE?
Eles não têm motivo. Acordam um dia
e decidem matar. Encaram isso como se fosse uma tarefa,
como escovar os dentes.
COMO ELES ESCOLHEM AS VÍTIMAS?
Os assassinos seriais não fazem uma seleção
nem se programam para matar. Atacam quem está
no lugar errado, na hora errada e tem as características
comuns a suas vítimas. É ele que decide
que características são essas: pode ser
louro, ter certa idade ou morar num bairro específico.
Quem tiver o azar de possuir essa característica
corre perigo.
FRANCISCO BRITO CONFESSOU TER
ASSASSINADO E AMPUTADO O PÊNIS DE 41 MENINOS NO
MARANHÃO E PARA. ELE MATOU POR UM DESVIO SEXUAL?
Não acredito. Esses criminosos gostam de
manusear pedaços do corpo de suas vítimas.
Uns cortam pênis. Outros preferem orelhas ou dedos.
Não dá para relacionar o surgimento de
assassinos seriais ao sexo.
DE ONDE VEM, ENTÃO, O
IMPULSO DE MATAR? Creio que a origem está
em uma mutação do cromossomo sexual masculino.
Por isso, todos os assassinos seriais são homens.
ELES SE SENTEM CULPADOS POR
SEUS CRIMES? Não. Eles não acham que
têm problemas e não entendem por que os
outros ficam tão chocados.
O QUE SE PODE FAZER PARA CONTROLÁ-LOS?
Nada. Se você prender um assassino serial,
ele mata os colegas de prisão. Confinado a um
manicômio, ataca médicos e pacientes. É
só se lembrar de Francisco de Assis Pereira,
o Maníaco do Parque. Ele disse que atacaria de
novo se fosse solto. A única solução
é a pena de morte.
A SENHORA DEFENDE A PENA DE
MORTE TAMBÉM PARA OUTROS CRIMES? Não
sou uma defensora da pena de morte. Outros tipos de
assassino devem ir para a prisão ou para clínicas
psiquiátricas.
QUEM SÃO OS MAIS BRUTAIS
ASSASSINOS SERIAIS DO BRASIL? Já foram catalogados
quarenta. Eu acreditava que o Vampiro de Niterói,
apelido de Marcelo Costa de Andrade, fosse o mais ativo.
Ele matou catorze meninos no início dos anos
90. Francisco Brito pode tê-lo ultrapassado. Nunca
um assassino serial brasileiro matou tanto. Estou impressionada.
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