Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Moda
Rainhas por um dia

Em fase nostálgica do passado imperial,
estilistas mostram em Paris que a realeza
passa, mas o sonho da alta-costura continua


Bel Moherdaui

 
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Vestidas para reinar: Maria Antonieta rediviva por Lacroix (à esq.) e a mistura de Jessica Rabbit e Elizabeth I na delirante criação de Galliano

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A temporada da alta-costura em Paris encolheu. Pelo mais prosaico dos motivos – falta de dinheiro –, Versace, Ungaro e Givenchy cancelaram suas participações, engrossando um cordão em que já se alinhavam nomes legendários como Yves Saint Laurent, Lanvin, Thierry Mugler, Balmain, Nina Ricci, Paco Rabanne e Louis Féraud. Antes prolongando-se por quase uma semana, os desfiles foram reduzidos a apenas dois dias e meio. Decadência? Fim de uma era? A crise faz suas vítimas, sim, mas a alta-costura, o mais refinado exercício da moda pelo prazer da moda, mostrou que tem boas reservas de fôlego. Unidos por uma curiosa temática comum – o mundo da alta aristocracia, reavivado pela recente seqüência de casamentos nas famílias reais européias –, criadores como John Galliano, da maison Dior, Karl Lagerfeld na Chanel e Christian Lacroix produziram incríveis momentos de beleza. O mais arrebatado deles, Galliano, o introdutor do desfile como espetáculo artístico-circense, desta vez viajou pelo Império Austro-Húngaro, indo de Sissi, a imperatriz, ao expressionista Egon Schiele, famoso pelo erotismo. Com coroas e tiaras ebriamente equilibradas em perucas emaranhadas, tremendo sobre sapatos plataforma de 15 centímetros, as modelos desfilaram diante de uma platéia embevecida trajes dignos, literalmente, de rainhas, com uma profusão de peles, drapeados, bordados preciosos e até pinturas à maneira dos afrescos do século XVII, com motivos de pássaros ou reproduzindo detalhes dos tetos e tapetes de palácios imperiais. Seguranças ajudavam as modelos a descer do salto e de preciosidades como a desfilada por Michelle Alves – um fabuloso tomara-que-caia branco em formato de flor que a transformou numa espécie de mistura de Jessica Rabbit com Elizabeth I. Outra modelo brasileira, a bela Ana Beatriz Barros, fez pose de dona do mundo, de vermelho-imperial, cetro e orbe em punho.

 
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A majestosa Ana Beatriz Barros, de cetro, coroa e vermelho-imperial na extravagância da maison Dior, e o modelo rainha-viúva da Chanel: donas do mundo

No mesmo tom de extravagância, Christian Lacroix demonstrou seu domínio sobre cada um dos fabulosos detalhes que tornam a alta-costura um espetáculo único. "Quis manter a energia e a simplicidade dos primeiros rascunhos, do primeiro desenho de um vestido, que é inicialmente muito gráfico", disse. O resultado não teve nada de simples: justíssimos corseletes, saias e laços sobrepostos, mangas bufantes e caudas pregueadas que pareciam saídas de uma cerimônia de coroação. Na cabeça, as modelos levavam perucas que lembravam nuvens de algodão-doce, do tipo que Maria Antonieta certamente aprovaria. Até o normalmente ajuizado Karl Lagerfeld, em sua eterna recriação dos ícones da Chanel, teve arroubos imperiais adequados a seu apelido – Kaiser –, como no vestido de rainha-viúva de renda negra. Roupas feitas para fazer sonhar – e ir direto para o museu.

 
 
 
 
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