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EUA
John-John no caminho de Bush
O candidato democrata John Kerry escolhe
a pessoa certa para vice: John Edwards,
otimista e carismático

Diogo Schelp
Reuters
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| Kerry e Edwards: agora precisam convencer
os americanos de que são capazes de tirá-los do
atoleiro do Iraque, do marasmo econômico, do isolamento
internacional... |
As campanhas presidenciais nos Estados Unidos
costumam ser divididas em três fases. Na primeira, os eleitores
olham para o presidente que pretende se reeleger e se perguntam:
"Ele merece mais quatro anos?". Se a resposta for um vacilante "sim",
o candidato da oposição tem alguma chance. Na segunda
fase, os eleitores voltam sua atenção para o oponente
e se perguntam: "Será que ele está preparado para
assumir o cargo pela primeira vez?". Se a resposta for "sim", inicia-se
a terceira fase, a da disputa propriamente dita pelo voto popular.
A primeira fase da campanha eleitoral americana deste ano já
passou. As pesquisas mostram que os eleitores não estão
muito convencidos de que o presidente George W. Bush merece ser
reeleito. Na semana passada, seu oponente, o candidato democrata
John Kerry, colocou um pé definitivo na segunda fase das
eleições ao anunciar a escolha de seu vice, o senador
John Edwards a chapa John-John, como está sendo chamada.
AP
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| Teresa, a esposa de Kerry: opiniões
próprias, educação na Suíça
e 525 milhões de dólares de herança do
ex-marido |
Por várias razões, a composição aumenta
bastante a chance de o candidato democrata ganhar a Casa Branca
em novembro. Edwards complementa Kerry em praticamente tudo. Tem
carisma e é um orador com apelo popular, enquanto o candidato
a presidente impressiona mais pela experiência de dezenove
anos como senador do que pela capacidade de inflamar multidões.
Edwards é natural da Carolina do Sul, tradicional reduto
republicano, e Kerry fez a carreira em Massachusetts, onde os democratas
são mais fortes. O candidato a vice, por sua história
pessoal como filho de operário e advogado especializado em
ações contra as grandes corporações,
pode ajudar a conquistar os votos da classe média e dos americanos
mais pobres, que acham Kerry um tanto aristocrata. Ainda no primeiro
mandato como senador, Edwards é praticamente um novato na
política. Tem 51 anos nove menos que Kerry
e parece ainda mais jovem. Foi eleito o político mais sexy
pela revista People, enquanto o candidato a presidente não
é exatamente o que se pode chamar de boa-pinta. Kerry foi
herói de guerra no Vietnã e tem bom preparo teórico
em política externa, enquanto Edwards apresenta mais afinidade
com os assuntos domésticos.
O que a dupla John-John tem a oferecer aos
eleitores é, por assim dizer, a esperança de uma volta
à normalidade perturbada pelos três anos de governo
Bush. Ou seja, aos tempos ainda recentes em que os Estados Unidos
eram vistos como uma potência benevolente, admirados por sua
sensata liderança mundial, pela eficácia de sua democracia
e pela igualdade de oportunidades que ofereciam a seus habitantes.
O governo de Bush, cuja política econômica privilegia
os mais ricos, foi marcado pela queda do nível de emprego
e de crescimento econômico ainda que no último
ano a economia tenha dado mostras de recuperação.
Com sua política externa, Bush ajudou a espalhar o vírus
do antiamericanismo mundo afora de forma sem precedentes. Passou
por cima das Nações Unidas e dos aliados europeus
para fazer a guerra contra o Iraque, em março do ano passado.
E justificou a invasão com a informação
que depois se revelou falsa de que o ditador Saddam Hussein
tinha armas de destruição em massa. Bush parece ter
ido à guerra sem planejar o que faria depois de depor o ditador.
A ocupação do Iraque tornou-se um atoleiro e já
custou a vida de mais de 1 000 militares americanos e ingleses.
Quando estourou o escândalo das torturas cometidas por soldados
americanos contra prisioneiros iraquianos, insistiu em dizer que
se tratava de atos isolados, pouco antes de se descobrir que a orientação
havia partido de seus colaboradores mais próximos.
AFP
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| Bush e Cheney (ao fundo): nas eleições
de 2000, o vice foi escolhido para compensar a falta de experiência
de Bush |
Seus críticos esperam que um novo presidente
possa reverter esse quadro. Apesar de ter votado no Senado a favor
da guerra contra o Iraque, Kerry parece ter uma inclinação
maior a resolver as questões mundiais com diplomacia em vez
de soldados. Sua eleição talvez tenha o poder de tornar
as coisas mais fáceis no Iraque. "Os líderes mundiais
que se ressentiram com as decisões unilaterais de Bush podem
se sentir mais à vontade para trabalhar com Kerry na busca
por uma solução no Iraque", disse a VEJA o cientista
político Stephen Wayne, professor da Universidade Georgetown,
em Washington. Em troca, esses países receberiam o reconhecimento
americano como protagonistas de destaque nas decisões mundiais.
A história de menino rico, menino pobre
que embala a dupla John-John precisa ser vista sob uma perspectiva
mais realista. Kerry e Edward são ambos muito ricos. E nisso
se aproximam de George W. Bush, que está entre os dez presidentes
mais ricos da história americana. Os dois democratas compartilham
outra característica marcante: ambos são casados com
mulheres inteligentes e de personalidade forte, donas de carreira
própria. Kerry é casado com Teresa Heinz, viúva
do senador John Heinz III, de quem herdou uma fortuna avaliada em
525 milhões de dólares. Portuguesa nascida na então
colônia de Moçambique, Teresa dirige uma fundação
e é militante de causas ecológicas. Filho de um operário,
Edwards, que estudou a vida toda em escola pública, acumulou
60 milhões de dólares com seu trabalho. Pela firmeza
com que defende o marido, sua mulher, Elizabeth, 55 anos, lembra
Nancy Reagan. Por seu sucesso como advogada, está mais próxima
de Hillary Clinton.
John Edwards faz parte de uma classe de profissionais
que está em alta nos Estados Unidos, os advogados que representam
pessoas comuns em ações de danos físicos e
morais contra grandes empresas. Em seu primeiro processo desse tipo,
um caso de erro médico, Edwards arrancou 3,7 milhões
de dólares de um hospital. No último, o caso de uma
garota que se feriu gravemente em uma piscina, conseguiu para a
cliente 25 milhões de dólares de indenização.
Esse perfil o garoto de família pobre que alcançou
o sucesso por conta própria tem apelo profundo no
imaginário da classe média americana. O analista político
Thomas Frank, em seu livro O que Há de Errado com o Kansas?,
lançado neste ano nos Estados Unidos, escreveu que a classe
trabalhadora americana tem fortes motivos econômicos para
votar nos democratas, mas que os aspectos culturais acabam fazendo
com que dêem o voto ao partido republicano, de Bush.
Os democratas são vistos como os elitistas
que nunca vão à igreja e que têm mais afinidade
com canções francesas do que com a música country.
O casal John e Teresa Kerry se encaixa bem no estereótipo.
Kerry é católico, mas só agora, que está
sob os holofotes, tem aparecido na igreja. Teresa, que estudou na
Suíça e é multimilionária, exibe um
constante ar blasé de diva do cinema europeu. Os valores
pessoais do casal Edwards têm mais a ver com os eleitores
da classe trabalhadora e rural americana. Metodista praticante,
ele decidiu entrar para a política depois que um filho de
16 anos morreu em um acidente de carro. Sem jamais ter concorrido
a um cargo público, elegeu-se senador em 1998. Já
Elizabeth exerce bem o papel de mãe exemplar, e seu tipo
físico um tanto pesado, que exige fidelidade à dieta
de South Beach, dá a ela um confortante aspecto de pessoa
comum. Por fim, Edwards tem um comprovado talento para falar das
diferenças de classe dentro do que chama de "os dois Estados
Unidos", o dos privilegiados e o dos pobres.
Os estrategistas da campanha de Bush pretendem
reforçar a idéia de que Edwards não tem experiência
para assumir o posto máximo do país caso aconteça
algo com Kerry. É um argumento com pouco fôlego. O
próprio Bush foi governador do Texas por cinco anos, apenas,
antes de ser eleito presidente. "Como o Texas é um dos Estados
americanos em que o governador tem menos poder, é justo dizer
que Bush tinha até menos experiência do que Edwards
tem hoje, depois de seis anos no Senado", disse a VEJA o cientista
político Clyde Wilcox, especialista em governo americano
da Universidade Georgetown. O resultado, é verdade, não
foi dos melhores.
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