Edição 1862 . 14 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

EUA
John-John no caminho de Bush

O candidato democrata John Kerry escolhe
a pessoa certa para vice: John Edwards,
otimista e carismático


Diogo Schelp


Reuters
Kerry e Edwards: agora precisam convencer os americanos de que são capazes de tirá-los do atoleiro do Iraque, do marasmo econômico, do isolamento internacional...

EXCLUSIVO ON-LINE
Conheça o país: EUA

As campanhas presidenciais nos Estados Unidos costumam ser divididas em três fases. Na primeira, os eleitores olham para o presidente que pretende se reeleger e se perguntam: "Ele merece mais quatro anos?". Se a resposta for um vacilante "sim", o candidato da oposição tem alguma chance. Na segunda fase, os eleitores voltam sua atenção para o oponente e se perguntam: "Será que ele está preparado para assumir o cargo pela primeira vez?". Se a resposta for "sim", inicia-se a terceira fase, a da disputa propriamente dita pelo voto popular. A primeira fase da campanha eleitoral americana deste ano já passou. As pesquisas mostram que os eleitores não estão muito convencidos de que o presidente George W. Bush merece ser reeleito. Na semana passada, seu oponente, o candidato democrata John Kerry, colocou um pé definitivo na segunda fase das eleições ao anunciar a escolha de seu vice, o senador John Edwards – a chapa John-John, como está sendo chamada.

AP
Teresa, a esposa de Kerry: opiniões próprias, educação na Suíça e 525 milhões de dólares de herança do ex-marido


Por várias razões, a composição aumenta bastante a chance de o candidato democrata ganhar a Casa Branca em novembro. Edwards complementa Kerry em praticamente tudo. Tem carisma e é um orador com apelo popular, enquanto o candidato a presidente impressiona mais pela experiência de dezenove anos como senador do que pela capacidade de inflamar multidões. Edwards é natural da Carolina do Sul, tradicional reduto republicano, e Kerry fez a carreira em Massachusetts, onde os democratas são mais fortes. O candidato a vice, por sua história pessoal como filho de operário e advogado especializado em ações contra as grandes corporações, pode ajudar a conquistar os votos da classe média e dos americanos mais pobres, que acham Kerry um tanto aristocrata. Ainda no primeiro mandato como senador, Edwards é praticamente um novato na política. Tem 51 anos – nove menos que Kerry – e parece ainda mais jovem. Foi eleito o político mais sexy pela revista People, enquanto o candidato a presidente não é exatamente o que se pode chamar de boa-pinta. Kerry foi herói de guerra no Vietnã e tem bom preparo teórico em política externa, enquanto Edwards apresenta mais afinidade com os assuntos domésticos.

O que a dupla John-John tem a oferecer aos eleitores é, por assim dizer, a esperança de uma volta à normalidade perturbada pelos três anos de governo Bush. Ou seja, aos tempos ainda recentes em que os Estados Unidos eram vistos como uma potência benevolente, admirados por sua sensata liderança mundial, pela eficácia de sua democracia e pela igualdade de oportunidades que ofereciam a seus habitantes. O governo de Bush, cuja política econômica privilegia os mais ricos, foi marcado pela queda do nível de emprego e de crescimento econômico – ainda que no último ano a economia tenha dado mostras de recuperação. Com sua política externa, Bush ajudou a espalhar o vírus do antiamericanismo mundo afora de forma sem precedentes. Passou por cima das Nações Unidas e dos aliados europeus para fazer a guerra contra o Iraque, em março do ano passado. E justificou a invasão com a informação – que depois se revelou falsa – de que o ditador Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa. Bush parece ter ido à guerra sem planejar o que faria depois de depor o ditador. A ocupação do Iraque tornou-se um atoleiro e já custou a vida de mais de 1 000 militares americanos e ingleses. Quando estourou o escândalo das torturas cometidas por soldados americanos contra prisioneiros iraquianos, insistiu em dizer que se tratava de atos isolados, pouco antes de se descobrir que a orientação havia partido de seus colaboradores mais próximos.


AFP
Bush e Cheney (ao fundo): nas eleições de 2000, o vice foi escolhido para compensar a falta de experiência de Bush

Seus críticos esperam que um novo presidente possa reverter esse quadro. Apesar de ter votado no Senado a favor da guerra contra o Iraque, Kerry parece ter uma inclinação maior a resolver as questões mundiais com diplomacia em vez de soldados. Sua eleição talvez tenha o poder de tornar as coisas mais fáceis no Iraque. "Os líderes mundiais que se ressentiram com as decisões unilaterais de Bush podem se sentir mais à vontade para trabalhar com Kerry na busca por uma solução no Iraque", disse a VEJA o cientista político Stephen Wayne, professor da Universidade Georgetown, em Washington. Em troca, esses países receberiam o reconhecimento americano como protagonistas de destaque nas decisões mundiais.

A história de menino rico, menino pobre que embala a dupla John-John precisa ser vista sob uma perspectiva mais realista. Kerry e Edward são ambos muito ricos. E nisso se aproximam de George W. Bush, que está entre os dez presidentes mais ricos da história americana. Os dois democratas compartilham outra característica marcante: ambos são casados com mulheres inteligentes e de personalidade forte, donas de carreira própria. Kerry é casado com Teresa Heinz, viúva do senador John Heinz III, de quem herdou uma fortuna avaliada em 525 milhões de dólares. Portuguesa nascida na então colônia de Moçambique, Teresa dirige uma fundação e é militante de causas ecológicas. Filho de um operário, Edwards, que estudou a vida toda em escola pública, acumulou 60 milhões de dólares com seu trabalho. Pela firmeza com que defende o marido, sua mulher, Elizabeth, 55 anos, lembra Nancy Reagan. Por seu sucesso como advogada, está mais próxima de Hillary Clinton.

John Edwards faz parte de uma classe de profissionais que está em alta nos Estados Unidos, os advogados que representam pessoas comuns em ações de danos físicos e morais contra grandes empresas. Em seu primeiro processo desse tipo, um caso de erro médico, Edwards arrancou 3,7 milhões de dólares de um hospital. No último, o caso de uma garota que se feriu gravemente em uma piscina, conseguiu para a cliente 25 milhões de dólares de indenização. Esse perfil – o garoto de família pobre que alcançou o sucesso por conta própria – tem apelo profundo no imaginário da classe média americana. O analista político Thomas Frank, em seu livro O que Há de Errado com o Kansas?, lançado neste ano nos Estados Unidos, escreveu que a classe trabalhadora americana tem fortes motivos econômicos para votar nos democratas, mas que os aspectos culturais acabam fazendo com que dêem o voto ao partido republicano, de Bush.

Os democratas são vistos como os elitistas que nunca vão à igreja e que têm mais afinidade com canções francesas do que com a música country. O casal John e Teresa Kerry se encaixa bem no estereótipo. Kerry é católico, mas só agora, que está sob os holofotes, tem aparecido na igreja. Teresa, que estudou na Suíça e é multimilionária, exibe um constante ar blasé de diva do cinema europeu. Os valores pessoais do casal Edwards têm mais a ver com os eleitores da classe trabalhadora e rural americana. Metodista praticante, ele decidiu entrar para a política depois que um filho de 16 anos morreu em um acidente de carro. Sem jamais ter concorrido a um cargo público, elegeu-se senador em 1998. Já Elizabeth exerce bem o papel de mãe exemplar, e seu tipo físico um tanto pesado, que exige fidelidade à dieta de South Beach, dá a ela um confortante aspecto de pessoa comum. Por fim, Edwards tem um comprovado talento para falar das diferenças de classe dentro do que chama de "os dois Estados Unidos", o dos privilegiados e o dos pobres.

Os estrategistas da campanha de Bush pretendem reforçar a idéia de que Edwards não tem experiência para assumir o posto máximo do país caso aconteça algo com Kerry. É um argumento com pouco fôlego. O próprio Bush foi governador do Texas por cinco anos, apenas, antes de ser eleito presidente. "Como o Texas é um dos Estados americanos em que o governador tem menos poder, é justo dizer que Bush tinha até menos experiência do que Edwards tem hoje, depois de seis anos no Senado", disse a VEJA o cientista político Clyde Wilcox, especialista em governo americano da Universidade Georgetown. O resultado, é verdade, não foi dos melhores.

 


Fotos Reuters
 
 
 
topo voltar