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Eleições
Aos amigos, tudo...
...e, aos inimigos, um acordinho sigiloso
pelo
qual eles passam a receber 40% da verba que
pedirem ao governo e não se fala mais nisso

Otávio Cabral
Às vésperas do prazo final para
a liberação de verbas aos governos estaduais e municipais,
o Palácio do Planalto promoveu um festival de doações
para os amigos. Deu a canetada decisiva para liberar 800
milhões de reais: 700 milhões para contemplar emendas
apresentadas pelos parlamentares aliados e 100 milhões de
reais para emendas dos políticos de oposição.
A desproporção gerou revolta. "A grande conclusão
é que esse pessoal não estava preparado para o poder.
Não sabe usar o poder de forma generosa", atacou o senador
Tasso Jereissati, tucano do Ceará. "Isso é uma desfaçatez.
O Brasil não é propriedade de um grupo político",
reagiu o senador Jefferson Peres, do PDT. "Lula não dá
o valor devido ao Congresso porque era acostumado a dirigir sindicatos",
atirou o senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano.
Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas, fiel a seu histrionismo,
anunciou que recorrerá aos tribunais contra o presidente
da República por crime de responsabilidade. As manifestações
de repúdio carregam a aura de dignidade própria dos
injustiçados mas tudo não passou de jogo de
cena para impressionar a platéia.
Em maio passado, a oposição
fez um acordo pelo qual o governo liberaria pelo menos 30% do valor
das emendas dos parlamentares oposicionistas. O governo vinha cumprindo
à risca o acordo, mas líderes da oposição,
sabendo que a base governista é amadora e gelatinosa, deram-se
conta de que podiam arrancar mais dinheiro e começaram a
gritaria e os protestos da semana passada, cheios de pretensa
indignação, fazem parte desse teatro. Gritaram e levaram.
Em novo acordo, o governo, representado por um emissário
do ministro Aldo Rebelo, comprometeu-se a liberar 40% do valor das
emendas da oposição, representada na negociação
por um tucano com gabinete no prédio anexo à Câmara
dos Deputados. Os envolvidos na negociação, tanto
do governo quanto da oposição, relataram a mesma história
a VEJA, em conversas separadas. Eles pedem, no entanto, para não
ter sua identidade revelada, por razões óbvias
o acordo não pega bem nem para oposicionistas, que não
querem perder o discurso, nem para petistas, desejosos de manter
a aura de políticos eticamente inflexíveis.
A oposição concordou em receber
30% e depois 40%, e nunca reivindicou atendimento integral a suas
emendas, porque sabe que em todo governo a coisa funciona assim
mesmo: as emendas parlamentares são o combustível
do fisiologismo brasileiro e, dentro dele, os aliados são
premiados com mais dinheiro do que os oposicionistas. Foi assim,
inclusive, quando a atual oposição era governo. Em
2000, ano também de eleições municipais, o
grosso do dinheiro liberado para atender a emendas parlamentares
beneficiou políticos do PSDB e do PFL. Na época, os
tucanos levaram 72% de todo o dinheiro que pediram. Os pefelistas,
67%. A oposição, porém, recebeu muito menos.
Os parlamentares do PT ficaram com 35% do que queriam. A bancada
do PC do B levou 37%. Agora, a situação é parecida,
invertendo-se apenas os personagens. Entre os partidos que são
governo, não importando qual governo, como o PTB, o porcentual
de dinheiro liberado ficou praticamente inalterado. No governo tucano,
em 2000, o PTB levou 64% do valor pedido em suas emendas. Agora,
ficou com 67%. É mais um sinal do perfeito equilíbrio
da balança do fisiologismo.
Analisando os números mais de perto,
percebe-se certa mudança de estilo, talvez proporcionada
pelo tremendo esforço fiscal do governo atual, cujas liberações
são sempre menos fartas que as da gestão anterior.
A administração petista, por exemplo, tem estrangulado
os oposicionistas, mantendo-os a pão e água em termos
de dinheiro para seus currais eleitorais, mas nunca promove uma
farra de recursos para os aliados. Tem-lhes dado mais dinheiro,
é claro, mas não à farta. No governo tucano,
porém, as proporções eram diferentes. Os tucanos
mostravam-se mais generosos com a oposição, atendendo
a uma parte até razoável de seus pleitos, e eram os
campeões de generosidade quando se tratava de acariciar os
aliados. Aí, despachavam rios de dinheiro. "PSDB e PFL precisam
se conformar com o fato de que perderam as eleições.
Agora, quem cuida de emendas são o PT e seus aliados. O país
mudou de administração", afirma o deputado baiano
Walter Pinheiro, vice-líder do PT, chancelando a prática.
"Não entro nessa discussão farisaica. O dinheiro vai
para aliado do governo, sempre foi assim", admite o deputado oposicionista
José Thomaz Nonô, do PFL de Alagoas.
Há quem justifique o privilégio
dos aliados porque a distribuição de dinheiro das
emendas parlamentares é uma prerrogativa presidencial. Assim,
o presidente da República libera verba para quem julgar mais
adequado. Além disso, a população não
sofre prejuízos com o jogo fisiológico. "Antes, o
governo mandava dinheiro para São Paulo para ajudar Maluf.
Agora, manda para ajudar Marta. E os paulistas seguem recebendo
dinheiro", diz um assessor do Planalto, do alto de seu pragmatismo
político. É verdade, mas há outros aspectos
a considerar. Ainda que a distribuição do dinheiro
seja prerrogativa do presidente, o privilégio aos aliados,
ou a quem quer que seja, fere um princípio republicano segundo
o qual os bens públicos não podem ser manipulados
partidariamente e nada é mais bem público do
que o Orçamento da União. Além disso, ao prestigiar
o aliado do momento em São Paulo, para prosseguir no exemplo
do funcionário palaciano, o governo privilegia critérios
partidários em detrimento de critérios técnicos.
Ou seja: em vez de premiar o bom projeto, premia o bom afilhado
político.
Fotos Ana Araújo
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| Professor Luizinho: do baixo clero às alturas
orçamentárias |
VEJA teve acesso a um relatório com
todas as emendas prestes a ser atendidas pelo governo em 2004. Ali
se constata a perfeição com que a gangorra se movimenta
em favor do afilhado político. O deputado Professor Luizinho,
por exemplo, atual líder do governo na Câmara, conseguiu
a promessa de liberação de 1,3 milhão de reais
de suas emendas ao Orçamento, a maioria delas beneficiando
a região do ABC paulista, seu reduto eleitoral. Quatro anos
atrás, quando era apenas um parlamentar de oposição
e sem cargos relevantes, suas emendas receberam zero real. Na época,
o líder do PSDB na Câmara era Jutahy Magalhães
Junior, da Bahia, que conseguiu a liberação de 1,1
milhão de reais para suas bases eleitorais. Agora, com o
governo petista, de volta à condição de parlamentar
comum e de oposição, Jutahy Junior obteve apenas 278.000
reais. O mesmo acontece com as cidades. Denunciou-se que a cearense
Sobral, cujo prefeito é irmão do ministro Ciro Gomes,
recebeu 6,5 milhões de reais do Ministério da Integração
Nacional, casualmente comandado por Ciro Gomes ao passo que
o Rio de Janeiro, do prefeito oposicionista Cesar Maia, ficou com
apenas 2 milhões. No governo anterior, a cidade de Arapiraca
recebeu 15 milhões de reais quando o ministro da Integração
Nacional era Luciano Barbosa, cuja esposa, casualmente, era prefeita
de Arapiraca ao passo que o Recife, então nas mãos
do PT, ganhou zero real do mesmo ministério.
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| Poderoso na gestão tucana, agora o ex-líder
Jutahy Junior vive apenas com trocados |
O governo petista, logo que tomou posse, até
tentou mudar a velha prática de manipulação
partidária do Orçamento. O presidente Lula chegou
a prometer que liberaria dinheiro às emendas de acordo com
a relevância dos projetos que financiavam, independentemente
de seu padrinho. Houve, porém, uma rebelião silenciosa
de governistas que chegou ao ápice na votação
da reforma da Previdência Social, ocorrida em agosto do ano
passado. Os governistas alegaram que votavam a favor de projetos
impopulares, como a reforma previdenciária, e não
recebiam nenhum prêmio por isso. Aí, sepultou-se o
critério técnico e voltou-se ao critério político.
O fato é que nem o governo nem a oposição,
hoje ou antes, têm demonstrado vontade de mudar a natureza
desse balcão. Não se pode alterar o fisiologismo com
o Orçamento sem adotar medidas que fortaleçam os partidos
e os programas. "Sem isso, não há saída: se
o governo não fizer da forma clássica, não
consegue governar", atesta Carlos Pereira, cientista político
da Universidade de São Paulo, estudioso das relações
entre o Executivo e o Legislativo.
Além da grita teatral da oposição,
há outro fator que ajudou a dar a impressão de que
o PT estava indo com fome excepcional ao cofre o esdrúxulo
parecer da Advocacia-Geral da União. O documento, emitido
em maio, reinterpretou a lei eleitoral que proíbe o repasse
de verba federal para obras que não estejam em andamento
nos três meses anteriores à eleição.
A AGU entendeu que obras que já estivessem "regularmente
acertadas", ainda que não tivessem saído do papel,
também poderiam receber recursos. Como é difícil
saber quando uma obra foi "regularmente acertada", ficou a suspeita
de que o governo poderia manipular o conceito com facilidade. Na
semana passada, o Tribunal Superior Eleitoral, numa decisão
saudável, revogou o parecer da AGU e manteve o entendimento
anterior. Pelo menos nessa matéria, o balcão não
vai aumentar.
Wellington Macedo
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SOBRAL
Agora, na eleição de 2004, durante o governo
petista, Sobral, no interior do Ceará, ganhará 6,5 milhões de
reais. O prefeito de Sobral vem a ser irmão de Ciro Gomes, ministro
da Integração |
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