Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Brasil
O Mercosul foi parar
na geladeira

Em meio à bagunça que impera no bloco,
o presidente argentino Néstor Kirchner
tenta ganhar mais uma disputa comercial
com o Brasil na base de quem grita mais alto


Chrystiane Silva e Lucila Soares

 
Reuters
Lula e Kirchner na reunião de cúpula em Puerto Iguazú: a dor de cabeça vem desde a criação do Mercosul


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Uma balança desfavorável
Quadro: A evolução dos blocos

Às vésperas da cúpula do Mercosul realizada na semana passada em Puerto Iguazú, o presidente argentino Néstor Kirchner foi, mais uma vez, muy Néstor Kirchner. Como nas negociações com o Fundo Monetário Internacional, mostrou que, sob pressão interna, envereda facilmente pelo caminho do populismo. Desta vez, as bravatas não se dirigiram ao capital internacional, que Kirchner considera inimigo, mas sim contra o Brasil. A tensão da semana passada ficará conhecida como a "guerra das geladeiras", por ter em seu epicentro as exportações brasileiras de produtos para o lar. Atendendo à grita dos industriais de seu país contra a invasão de produtos brasileiros, Kirchner ameaçou criar barreiras para a entrada de TVs, geladeiras, máquinas de lavar roupa e fogões fabricados aqui. Não satisfeito, acenou com novas restrições. A ofensiva argentina desencadeou uma operação panos quentes por parte do governo Lula. O resultado foi o adiamento, para esta semana, da decisão final sobre as restrições às exportações brasileiras. Mas o horizonte das relações comerciais entre os dois países continua tempestuoso.

"O Brasil deve se preparar, porque os impasses só vão aumentar", alerta o economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. Isso acontece porque, por trás da choradeira do vizinho, está a grande ineficiência de sua indústria, que ficou mais uma vez patente com a retomada do crescimento na Argentina. Depois de uma drástica queda em 2001 e 2002, o PIB argentino cresceu 8,7% no ano passado e deve fechar 2004 com aumento de 6,7%. A indústria não está sendo capaz de acompanhar a recuperação da demanda. Não é um problema pontual. Desde a criação do Mercosul, passou-se mais de uma década, tempo suficiente para o país se preparar para a competição livre e direta com o Brasil. Mas muito pouco foi feito. A desvalorização do peso em 2002 beneficiou as exportações agropecuárias, mas não foi nem será suficiente para melhorar a competitividade da indústria. Com produtos de boa qualidade e preços mais baixos que os da indústria local, os fabricantes brasileiros aproveitaram a retomada do consumo na Argentina e conquistaram 62% do mercado de geladeiras e 51% do de máquinas de lavar roupa. Estima-se que, se a ameaça das barreiras tornar-se realidade, os argentinos pagarão entre 20% e 30% mais caro pelos eletrodomésticos.

 
Jorge William/Ag. O Globo
Carros esperam embarque no porto do Rio de Janeiro: a indústria automobilística foi uma das mais beneficiadas pela criação do Mercosul

Para o Brasil, o problema maior criado pela última ameaça de Kirchner não são os 68 milhões de dólares exportados à Argentina pelo setor de eletroeletrônicos, menos de 2% do total das vendas para o país. A questão é a atitude dos hermanos, que não param de criar problemas. Durante os dez anos de governo Menem, com as exportações argentinas inviabilizadas pela paridade entre peso e dólar, houve inúmeros embates, sempre motivados pelo suposto prejuízo causado pela invasão de produtos brasileiros. Os números não dão motivo a queixas. Desde o começo de 1992, os argentinos venderam ao Brasil muito mais do que importaram. Na ponta do lápis, tiveram uma vantagem de cerca de 7 bilhões de dólares (veja quadro).

Se olhado exclusivamente sob o aspecto comercial, o Mercosul é um mau negócio para os brasileiros. Mas, de modo geral, a iniciativa tem sido positiva. Desde que foi lançado, em 1991, o Mercosul resultou em mais benefícios do que problemas para o Brasil. A criação do bloco incentivou a aceleração do processo de internacionalização das empresas brasileiras, como o da AmBev, então apenas Brahma. "Não pensamos mais só no mercado brasileiro. Vemos o conjunto do bloco", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors do Brasil. No plano político, o Mercosul cumpriu o papel de aumentar o poder de barganha do Brasil. Nas discussões sobre a criação do acordo com a União Européia e da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), o Brasil sempre negociou em bloco. "Aumentar o acesso a mercados com regras claras é sempre bom. Nesse sentido, o Mercosul é tão importante quanto a futura Alca ou um acordo com os europeus", diz Roberto Bouzas, professor de economia internacional da Universidade de Buenos Aires. "Não se pode olhar romanticamente as relações Sul-Sul, como se elas fossem por princípio mais amigáveis que as relações com os grandes mercados. Esse é um erro no qual a diplomacia brasileira não pode cair", diz Carlos Langoni. "Mas seria um erro deixar fracassar o Mercosul."

O que, sim, precisa acabar é a impressão de que os empresários argentinos ganham todas as disputas, inclusive as que não merecem. E sempre na base do berro. Uma das decisões mais importantes da cúpula da semana passada foi a de criar o Tribunal de Solução de Controvérsias. Se o prazo for cumprido, estará funcionando em agosto, em Assunção, no Paraguai, com representantes dos quatro membros plenos do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). O Brasil era contra, mas acabou aceitando a criação do tribunal. No entanto, não há certeza sobre o cumprimento das decisões, porque faltam regras claras. "O bloco está uma bagunça. Cada um faz o que quer", diz Pedro da Motta Veiga, consultor em comércio exterior que acompanha as negociações do Mercosul desde sua criação. Nesse clima de vale-tudo, os empresários argentinos deitam e rolam. O governo argentino tem mostrado um padrão de comportamento. Ameaça criar barreiras aos produtos brasileiros e pede que os empresários dos dois lados da fronteira se sentem para chegar a um acordo, o que invariavelmente significa baixar as exportações brasileiras.

 
Bia Parreiras
Fábrica de geladeiras em Joinville: com exportações em alta, o produto brasileiro já representa 62% do mercado argentino

Nas rodadas de negociação com os brasileiros, os empresários argentinos gostam de mostrar que são respaldados pelo governo. "Os argentinos discutem com ou sem razão, muitas vezes sem embasamento técnico, e gostam de endurecer o jogo", diz Paulo Skaf, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. Para definir regras para a venda de denim, tecido usado na fabricação de jeans, a comissão brasileira participou de reuniões que duraram até oito horas. Além de resistir, é preciso ficar atento em alguns casos. No começo deste ano, os argentinos tentaram fazer um gol com a mão. Durante uma reunião, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Elcio Jacometti, disse que a estimativa de exportação para a Argentina em 2004 seria de 13 milhões de pares. Foi o suficiente para que alguns dos argentinos presentes afirmassem que Jacometti aceitava limitar as exportação a 13 milhões de pares anuais.

Como diz o próprio nome, o Mercado Comum do Sul, Mercosul, nasceu com a idéia de ser muito mais que uma área em que os produtos são trocados livres de barreiras comerciais. A meta acordada em meados dos anos 90 era que o Mercosul seria uma união aduaneira, um jargão para descrever um grupo de países que, além de liberar o comércio interno, tem as mesmas tarifas de importação para nações de fora do bloco. Até hoje o Mercosul não conseguiu cumprir esse objetivo plenamente. A confusão é tanta que os europeus resolveram fazer várias exigências antes de assinar o acordo de livre-comércio que ainda negociam com os sul-americanos. Diante desse quadro de balbúrdia, a inclusão de novos membros associados não entusiasma. Na semana passada foi anunciado que a Venezuela se unirá ao Chile e à Bolívia na condição de sócios de segunda categoria do Mercosul. A associação da Venezuela só será oficializada quando o país e o Mercosul protocolarem o acordo de livre-comércio.

 
 
 
 
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