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Brasil
O Mercosul foi parar
na geladeira
Em meio à bagunça que impera no
bloco,
o presidente argentino Néstor Kirchner
tenta ganhar mais uma disputa comercial
com o Brasil na base de quem grita mais alto

Chrystiane Silva e Lucila Soares
Reuters
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| Lula e Kirchner na reunião de cúpula em Puerto
Iguazú: a dor de cabeça vem desde a criação do Mercosul |
Às vésperas da cúpula
do Mercosul realizada na semana passada em Puerto Iguazú,
o presidente argentino Néstor Kirchner foi, mais uma vez,
muy Néstor Kirchner. Como nas negociações
com o Fundo Monetário Internacional, mostrou que, sob pressão
interna, envereda facilmente pelo caminho do populismo. Desta vez,
as bravatas não se dirigiram ao capital internacional, que
Kirchner considera inimigo, mas sim contra o Brasil. A tensão
da semana passada ficará conhecida como a "guerra das geladeiras",
por ter em seu epicentro as exportações brasileiras
de produtos para o lar. Atendendo à grita dos industriais
de seu país contra a invasão de produtos brasileiros,
Kirchner ameaçou criar barreiras para a entrada de TVs, geladeiras,
máquinas de lavar roupa e fogões fabricados aqui.
Não satisfeito, acenou com novas restrições.
A ofensiva argentina desencadeou uma operação panos
quentes por parte do governo Lula. O resultado foi o adiamento,
para esta semana, da decisão final sobre as restrições
às exportações brasileiras. Mas o horizonte
das relações comerciais entre os dois países
continua tempestuoso.
"O Brasil deve se preparar, porque os impasses
só vão aumentar", alerta o economista Carlos Langoni,
diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação
Getúlio Vargas. Isso acontece porque, por trás da
choradeira do vizinho, está a grande ineficiência de
sua indústria, que ficou mais uma vez patente com a retomada
do crescimento na Argentina. Depois de uma drástica queda
em 2001 e 2002, o PIB argentino cresceu 8,7% no ano passado e deve
fechar 2004 com aumento de 6,7%. A indústria não está
sendo capaz de acompanhar a recuperação da demanda.
Não é um problema pontual. Desde a criação
do Mercosul, passou-se mais de uma década, tempo suficiente
para o país se preparar para a competição livre
e direta com o Brasil. Mas muito pouco foi feito. A desvalorização
do peso em 2002 beneficiou as exportações agropecuárias,
mas não foi nem será suficiente para melhorar a competitividade
da indústria. Com produtos de boa qualidade e preços
mais baixos que os da indústria local, os fabricantes brasileiros
aproveitaram a retomada do consumo na Argentina e conquistaram 62%
do mercado de geladeiras e 51% do de máquinas de lavar roupa.
Estima-se que, se a ameaça das barreiras tornar-se realidade,
os argentinos pagarão entre 20% e 30% mais caro pelos eletrodomésticos.
Jorge William/Ag. O Globo
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| Carros esperam embarque no porto do Rio de
Janeiro: a indústria automobilística foi uma das mais beneficiadas
pela criação do Mercosul |
Para o Brasil, o problema maior criado pela
última ameaça de Kirchner não são os
68 milhões de dólares exportados à Argentina
pelo setor de eletroeletrônicos, menos de 2% do total das
vendas para o país. A questão é a atitude dos
hermanos, que não param de criar problemas. Durante os dez
anos de governo Menem, com as exportações argentinas
inviabilizadas pela paridade entre peso e dólar, houve inúmeros
embates, sempre motivados pelo suposto prejuízo causado pela
invasão de produtos brasileiros. Os números não
dão motivo a queixas. Desde o começo de 1992, os argentinos
venderam ao Brasil muito mais do que importaram. Na ponta do lápis,
tiveram uma vantagem de cerca de 7 bilhões de dólares
(veja
quadro).
Se olhado exclusivamente sob o aspecto comercial,
o Mercosul é um mau negócio para os brasileiros. Mas,
de modo geral, a iniciativa tem sido positiva. Desde que foi lançado,
em 1991, o Mercosul resultou em mais benefícios do que problemas
para o Brasil. A criação do bloco incentivou a aceleração
do processo de internacionalização das empresas brasileiras,
como o da AmBev, então apenas Brahma. "Não pensamos
mais só no mercado brasileiro. Vemos o conjunto do bloco",
diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General
Motors do Brasil. No plano político, o Mercosul cumpriu o
papel de aumentar o poder de barganha do Brasil. Nas discussões
sobre a criação do acordo com a União Européia
e da Área de Livre Comércio das Américas (Alca),
o Brasil sempre negociou em bloco. "Aumentar o acesso a mercados
com regras claras é sempre bom. Nesse sentido, o Mercosul
é tão importante quanto a futura Alca ou um acordo
com os europeus", diz Roberto Bouzas, professor de economia internacional
da Universidade de Buenos Aires. "Não se pode olhar romanticamente
as relações Sul-Sul, como se elas fossem por princípio
mais amigáveis que as relações com os grandes
mercados. Esse é um erro no qual a diplomacia brasileira
não pode cair", diz Carlos Langoni. "Mas seria um erro deixar
fracassar o Mercosul."
O que, sim, precisa acabar é a impressão
de que os empresários argentinos ganham todas as disputas,
inclusive as que não merecem. E sempre na base do berro.
Uma das decisões mais importantes da cúpula da semana
passada foi a de criar o Tribunal de Solução de Controvérsias.
Se o prazo for cumprido, estará funcionando em agosto, em
Assunção, no Paraguai, com representantes dos quatro
membros plenos do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai).
O Brasil era contra, mas acabou aceitando a criação
do tribunal. No entanto, não há certeza sobre o cumprimento
das decisões, porque faltam regras claras. "O bloco está
uma bagunça. Cada um faz o que quer", diz Pedro da Motta
Veiga, consultor em comércio exterior que acompanha as negociações
do Mercosul desde sua criação. Nesse clima de vale-tudo,
os empresários argentinos deitam e rolam. O governo argentino
tem mostrado um padrão de comportamento. Ameaça criar
barreiras aos produtos brasileiros e pede que os empresários
dos dois lados da fronteira se sentem para chegar a um acordo, o
que invariavelmente significa baixar as exportações
brasileiras.
Bia Parreiras
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| Fábrica de geladeiras em Joinville: com exportações
em alta, o produto brasileiro já representa 62% do mercado argentino
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Nas rodadas de negociação com
os brasileiros, os empresários argentinos gostam de mostrar
que são respaldados pelo governo. "Os argentinos discutem
com ou sem razão, muitas vezes sem embasamento técnico,
e gostam de endurecer o jogo", diz Paulo Skaf, presidente da Associação
Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção.
Para definir regras para a venda de denim, tecido usado na fabricação
de jeans, a comissão brasileira participou de reuniões
que duraram até oito horas. Além de resistir, é
preciso ficar atento em alguns casos. No começo deste ano,
os argentinos tentaram fazer um gol com a mão. Durante uma
reunião, o presidente da Associação Brasileira
das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Elcio
Jacometti, disse que a estimativa de exportação para
a Argentina em 2004 seria de 13 milhões de pares. Foi o suficiente
para que alguns dos argentinos presentes afirmassem que Jacometti
aceitava limitar as exportação a 13 milhões
de pares anuais.
Como
diz o próprio nome, o Mercado Comum do Sul, Mercosul, nasceu
com a idéia de ser muito mais que uma área em que
os produtos são trocados livres de barreiras comerciais.
A meta acordada em meados dos anos 90 era que o Mercosul seria uma
união aduaneira, um jargão para descrever um grupo
de países que, além de liberar o comércio interno,
tem as mesmas tarifas de importação para nações
de fora do bloco. Até hoje o Mercosul não conseguiu
cumprir esse objetivo plenamente. A confusão é tanta
que os europeus resolveram fazer várias exigências
antes de assinar o acordo de livre-comércio que ainda negociam
com os sul-americanos. Diante desse quadro de balbúrdia,
a inclusão de novos membros associados não entusiasma.
Na semana passada foi anunciado que a Venezuela se unirá
ao Chile e à Bolívia na condição de
sócios de segunda categoria do Mercosul. A associação
da Venezuela só será oficializada quando o país
e o Mercosul protocolarem o acordo de livre-comércio.
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