Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Leva cinqüenta anos?

"Produzir tecnologia custa caro, começando
com investimentos em educação
e pesquisa
por várias décadas.
Quando dá certo, o valor
do que foi gasto é ínfimo,
comparado
com
o das vendas geradas"

De onde seria a orquestra tão afinada? Pensamos que só podia ser da cidade de São Paulo, pois do interior não sairiam tantos violinistas. Mas o mestre-de-cerimônias desfez nosso desdém pelo interior. Era de Tatuí, onde em 1951 foi criada uma escola de música para crianças e jovens. Manejada com tenacidade e competência, é hoje a maior da América Latina. Foi merecido o convite da Embraer para tocar na solenidade em que foi apresentado ao presidente da República o seu novo jato, o EMB 190.

Coincidência ou não, havia um paralelismo entre a Embraer e a Orquestra de Tatuí. Ambas foram o fruto de um longo ciclo de maturação. A Embraer começa com o projeto de Casimiro Montenegro, desembocando na criação do ITA, em 1950. Fazer aviões, em vez de importá-los, era o seu sonho. Mais adiante, Ozíres Silva materializa o sonho, criando a Embraer, hoje privatizada e sob a batuta de Maurício Botelho.

Suponhamos que o ITA não houvesse formado tantos líderes da indústria eletrônica, informática e bélica. Seu único impacto teria sido a criação da Embraer. Poderíamos perguntar se as vendas de aviões financiariam o orçamento que a nação nele investiu. Fazendo cálculos aproximados, encontramos que o ITA de hoje poderia ser financiado por 88 anos só com o valor líquido das exportações de 2000.

Ilustração Ale Setti


Lá pela década de 50, as fundações Ford e Rockefeller começaram a enviar aos Estados Unidos brasileiros para pós-graduação em ciências agrárias. Capes e CNPq dão continuidade ao programa. Em 1973, as primeiras levas de graduados permitiram criar a Embrapa, para pesquisar e desenvolver novas sementes e técnicas agropecuárias. Grande parte do sucesso da nossa agricultura não teria sido possível sem a Embrapa. Citemos apenas a pesquisa de tropicalização da soja, antes inviável em baixas latitudes.

Suponhamos que a Embrapa não houvesse revolucionado o agribusiness, ficando apenas na soja. A última colheita valeu 30 bilhões de dólares. Por quanto tempo tal montante financiaria a Embrapa? Como seu orçamento anual é de 278 milhões de dólares, haveria recursos para que operasse por 109 anos.

Mas por que levaram cinqüenta anos para dar frutos? Estamos falando do ciclo produtivo da tecnologia, não da produção. Para abrir uma fábrica de semicondutores na Costa Rica, a Intel não precisou de mais que alguns meses, pois é apenas fabricação. O Brasil e muitos outros países também sabem fabricar.

O ciclo que começa na ciência e tecnologia, acabando na venda do produto, corresponde ao maior desafio de todos. Pouquíssimos países com o nível de renda do Brasil conseguem produzir ciência. Ainda menos países dão a volta por cima da tecnologia. É o mais difícil.

É o patamar de cima do desenvolvimento. É onde se separam os que sabem apenas fazer dos pouquíssimos que sabem inovar e fazer o que ainda não foi feito. Nesse patamar, tudo é árduo. E, como vimos nos exemplos (poderíamos também citar a Petrobras), o ciclo leva cinqüenta anos. Além disso, é caro.

A continuidade é vital, pois basta um só tropeço para morrer na praia, como aconteceu muitas vezes. Por exemplo, na área nuclear, gastamos muito mas houve descontinuidades. É grande o número de empresas e iniciativas que falharam por um tropeço momentâneo ou porque a sociedade não entendeu sua vulnerabilidade. A própria Embraer já esteve por um triz. A Embrapa sofre hoje com incertezas orçamentárias e com a infiltração sindical nos quadros administrativos. Como dizia Zeferino Vaz, quando a política entra pela porta, a ciência sai pela janela.

As lições do sucesso da Embrapa e da Embraer são claras. Produzir tecnologia custa caro, começando com investimentos em educação e pesquisa por várias décadas. A descontinuidade é fatal. Não obstante, é um caminho diferente e melhor do que a repetição da rotina ou a compra da tecnologia desenvolvida alhures. Quando dá certo, o valor do que foi gasto é ínfimo, comparado com o das vendas geradas. A tecnologia separa os melhores do resto da tropa, obrigada a viver com as migalhas deixadas por quem domina a sua geração.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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