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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Leva
cinqüenta anos?
"Produzir
tecnologia custa caro,
começando
com investimentos em educação e
pesquisa
por várias décadas. Quando
dá certo, o valor
do que foi gasto é ínfimo, comparado
com o
das vendas geradas"
De
onde seria a orquestra tão afinada? Pensamos que só
podia ser da cidade de São Paulo, pois do interior não
sairiam tantos violinistas. Mas o mestre-de-cerimônias desfez
nosso desdém pelo interior. Era de Tatuí, onde em
1951 foi criada uma escola de música para crianças
e jovens. Manejada com tenacidade e competência, é
hoje a maior da América Latina. Foi merecido o convite da
Embraer para tocar na solenidade em que foi apresentado ao presidente
da República o seu novo jato, o EMB 190.
Coincidência
ou não, havia um paralelismo entre a Embraer e a Orquestra
de Tatuí. Ambas foram o fruto de um longo ciclo de maturação.
A Embraer começa com o projeto de Casimiro Montenegro, desembocando
na criação do ITA, em 1950. Fazer aviões, em
vez de importá-los, era o seu sonho. Mais adiante, Ozíres
Silva materializa o sonho, criando a Embraer, hoje privatizada e
sob a batuta de Maurício Botelho.
Suponhamos
que o ITA não houvesse formado tantos líderes da indústria
eletrônica, informática e bélica. Seu único
impacto teria sido a criação da Embraer. Poderíamos
perguntar se as vendas de aviões financiariam o orçamento
que a nação nele investiu. Fazendo cálculos
aproximados, encontramos que o ITA de hoje poderia ser financiado
por 88 anos só com o valor líquido das exportações
de 2000.
Ilustração Ale Setti
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Lá pela década de 50, as fundações Ford
e Rockefeller começaram a enviar aos Estados Unidos brasileiros
para pós-graduação em ciências agrárias.
Capes e CNPq dão continuidade ao programa. Em 1973, as primeiras
levas de graduados permitiram criar a Embrapa, para pesquisar e
desenvolver novas sementes e técnicas agropecuárias.
Grande parte do sucesso da nossa agricultura não teria sido
possível sem a Embrapa. Citemos apenas a pesquisa de tropicalização
da soja, antes inviável em baixas latitudes.
Suponhamos
que a Embrapa não houvesse revolucionado o agribusiness,
ficando apenas na soja. A última colheita valeu 30 bilhões
de dólares. Por quanto tempo tal montante financiaria a Embrapa?
Como seu orçamento anual é de 278 milhões de
dólares, haveria recursos para que operasse por 109 anos.
Mas
por que levaram cinqüenta anos para dar frutos? Estamos falando
do ciclo produtivo da tecnologia, não da produção.
Para abrir uma fábrica de semicondutores na Costa Rica, a
Intel não precisou de mais que alguns meses, pois é
apenas fabricação. O Brasil e muitos outros países
também sabem fabricar.
O
ciclo que começa na ciência e tecnologia, acabando
na venda do produto, corresponde ao maior desafio de todos. Pouquíssimos
países com o nível de renda do Brasil conseguem produzir
ciência. Ainda menos países dão a volta por
cima da tecnologia. É o mais difícil.
É
o patamar de cima do desenvolvimento. É onde se separam os
que sabem apenas fazer dos pouquíssimos que sabem inovar
e fazer o que ainda não foi feito. Nesse patamar, tudo é
árduo. E, como vimos nos exemplos (poderíamos também
citar a Petrobras), o ciclo leva cinqüenta anos. Além
disso, é caro.
A
continuidade é vital, pois basta um só tropeço
para morrer na praia, como aconteceu muitas vezes. Por exemplo,
na área nuclear, gastamos muito mas houve descontinuidades.
É grande o número de empresas e iniciativas que falharam
por um tropeço momentâneo ou porque a sociedade não
entendeu sua vulnerabilidade. A própria Embraer já
esteve por um triz. A Embrapa sofre hoje com incertezas orçamentárias
e com a infiltração sindical nos quadros administrativos.
Como dizia Zeferino Vaz, quando a política entra pela porta,
a ciência sai pela janela.
As
lições do sucesso da Embrapa e da Embraer são
claras. Produzir tecnologia custa caro, começando com investimentos
em educação e pesquisa por várias décadas.
A descontinuidade é fatal. Não obstante, é
um caminho diferente e melhor do que a repetição da
rotina ou a compra da tecnologia desenvolvida alhures. Quando dá
certo, o valor do que foi gasto é ínfimo, comparado
com o das vendas geradas. A tecnologia separa os melhores do resto
da tropa, obrigada a viver com as migalhas deixadas por quem domina
a sua geração.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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