Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Livros
O existencialista uruguaio

Em A Vida Breve, de Juan Carlos Onetti,
só a fantasia permite fugir à mediocridade
do cotidiano


Moacyr Scliar

Trechos do livro

O primeiro editor de A Vida Breve (tradução de Josely Vianna Baptista; Planeta; 320 páginas; 45 reais) ficou assustado com o texto que tinha em mãos. Achou melhor dizer aos leitores, na contracapa, que aquele era um livro para ser lido com prazer – e não uma novela experimental. Prazer e experimentalismo ficam ambos por conta do modo como a narrativa do uruguaio Juan Carlos Onetti embaralha a fronteira entre ficção e realidade. Logo no início de A Vida Breve, somos apresentados ao narrador Juan María Brausen, publicitário não muito bem-sucedido que leva uma existência vazia, qualificada por ele mesmo como uma sucessão de "mal-entendidos". Ameaçado de perder o emprego, ele resolve tentar a sorte escrevendo o roteiro de um filme. Começa assim a imaginar o doutor Díaz Grey, personagem que funcionará como seu alter ego. Grey vive na mítica cidade de Santa María, que aparece em outras novelas de Onetti – e para onde o próprio Braunsen será catapultado no decorrer da novela. O crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal, o maior biógrafo do argentino Jorge Luis Borges, chegou a comparar Brausen à Madame Bovary de Flaubert. Os dois personagens buscam a fantasia para escapar de um cotidiano monótono.

Onetti foi um dos primeiros escritores latino-americanos a ganhar a atenção da crítica dos Estados Unidos e da Europa. Mas seu trabalho, ainda que não careça de imaginação – pelo contrário –, pouco tem a ver com o realismo mágico de um Gabriel García Márquez, cuja mensagem política, nos anos das ditaduras latino-americanas, era evidente. Onetti não se considerava um escritor engajado. "O único compromisso que aceito é o dever de escrever bem", dizia. O que não significa que ele vivesse afastado da política: sua militância esquerdista começou na juventude e prosseguiu até o exílio, a partir de 1975, em Madri, onde o escritor morou até morrer, com 84 anos, em 1994.

Antes da consagração literária, Onetti foi porteiro, bilheteiro do Estádio Centenário, em Montevidéu, e vendedor de máquinas de escrever. Em 1939, começou a trabalhar como jornalista no lendário Marcha, em cujas dependências residia. Sob os pseudônimos de Periquito e Groucho Marx, publicava crítica literária e contos policiais. No mesmo ano apareceu sua primeira novela, O Poço, que teve escassa repercussão. A Vida Breve, de 1950, foi a obra que o consagrou. Onetti sempre a consideraria sua novela mais bem realizada. O autor recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Uruguai, o prêmio Cervantes e uma indicação para o Nobel. Seus textos eram sempre escritos a mão, para "sentir cada palavra". "Escrever é ser como Deus", afirmou Onetti. O personagem Brausen parece compartilhar dessa crença no poder divino da palavra escrita, que lhe permite entrar no mundo imaginário de Santa María.

 

O veneno dos mal-entendidos

"Descobrimos que a vida está cheia, e não é de hoje, de mal-entendidos. Gertrudis, meu trabalho, minha amizade com Stein, a sensação que tenho de mim mesmo, mal-entendidos. Fora isso, nada; de vez em quando, algumas oportunidades de esquecimento, alguns prazeres que chegam e passam envenenados. Talvez todo tipo de existência que eu possa imaginar deva transformar-se num mal-entendido. Talvez, pouco importa. Entretanto, sou este homem pequeno e tímido, imutável, casado com a única mulher que seduzi ou que me seduziu, incapaz, não mais de ser outro, mas da própria vontade de ser outro."

Trecho de A Vida Breve

 

 
 
 
 
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