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Livros
O
existencialista uruguaio
Em
A Vida Breve, de Juan
Carlos Onetti,
só
a fantasia permite fugir
à mediocridade
do
cotidiano

Moacyr
Scliar
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O
primeiro editor de A Vida Breve (tradução
de Josely Vianna Baptista; Planeta; 320 páginas; 45 reais)
ficou assustado com o texto que tinha em mãos. Achou melhor
dizer aos leitores, na contracapa, que aquele era um livro para
ser lido com prazer e não uma novela experimental.
Prazer e experimentalismo ficam ambos por conta do modo como a narrativa
do uruguaio Juan Carlos Onetti embaralha a fronteira entre ficção
e realidade. Logo no início de A Vida Breve, somos
apresentados ao narrador Juan María Brausen, publicitário
não muito bem-sucedido que leva uma existência vazia,
qualificada por ele mesmo como uma sucessão de "mal-entendidos".
Ameaçado de perder o emprego, ele resolve tentar a sorte
escrevendo o roteiro de um filme. Começa assim a imaginar
o doutor Díaz Grey, personagem que funcionará como
seu alter ego. Grey vive na mítica cidade de Santa María,
que aparece em outras novelas de Onetti e para onde o próprio
Braunsen será catapultado no decorrer da novela. O crítico
uruguaio Emir Rodríguez Monegal, o maior biógrafo
do argentino Jorge Luis Borges, chegou a comparar Brausen à
Madame Bovary de Flaubert. Os dois personagens buscam a fantasia
para escapar de um cotidiano monótono.
Onetti
foi um dos primeiros escritores latino-americanos a ganhar a atenção
da crítica dos Estados Unidos e da Europa. Mas seu trabalho,
ainda que não careça de imaginação
pelo contrário , pouco tem a ver com o realismo mágico
de um Gabriel García Márquez, cuja mensagem política,
nos anos das ditaduras latino-americanas, era evidente. Onetti não
se considerava um escritor engajado. "O único compromisso
que aceito é o dever de escrever bem", dizia. O que não
significa que ele vivesse afastado da política: sua militância
esquerdista começou na juventude e prosseguiu até
o exílio, a partir de 1975, em Madri, onde o escritor morou
até morrer, com 84 anos, em 1994.
Antes
da consagração literária, Onetti foi porteiro,
bilheteiro do Estádio Centenário, em Montevidéu,
e vendedor de máquinas de escrever. Em 1939, começou
a trabalhar como jornalista no lendário Marcha, em
cujas dependências residia. Sob os pseudônimos de Periquito
e Groucho Marx, publicava crítica literária e contos
policiais. No mesmo ano apareceu sua primeira novela, O Poço,
que teve escassa repercussão. A Vida Breve, de 1950,
foi a obra que o consagrou. Onetti sempre a consideraria sua novela
mais bem realizada. O autor recebeu o Prêmio Nacional de Literatura
do Uruguai, o prêmio Cervantes e uma indicação
para o Nobel. Seus textos eram sempre escritos a mão, para
"sentir cada palavra". "Escrever é ser como Deus", afirmou
Onetti. O personagem Brausen parece compartilhar dessa crença
no poder divino da palavra escrita, que lhe permite entrar no mundo
imaginário de Santa María.
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O
veneno dos mal-entendidos
"Descobrimos
que a vida está cheia, e não é
de hoje, de mal-entendidos. Gertrudis, meu trabalho,
minha amizade com Stein, a sensação que
tenho de mim mesmo, mal-entendidos. Fora isso, nada;
de vez em quando, algumas oportunidades de esquecimento,
alguns prazeres que chegam e passam envenenados. Talvez
todo tipo de existência que eu possa imaginar
deva transformar-se num mal-entendido. Talvez, pouco
importa. Entretanto, sou este homem pequeno e tímido,
imutável, casado com a única mulher que
seduzi ou que me seduziu, incapaz, não mais de
ser outro, mas da própria vontade de ser outro."
Trecho
de A Vida Breve
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