Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Música
Ela canta, e isso basta

A americana Norah Jones desafia as
regras do mercado pop e
torna-se
um fenômeno de vendas


Divulgação
Norah Jones: apelo entre os trintões
Ouça Norah Jones


Em apenas dois anos de carreira, a americana Norah Jones, de 25 anos, tornou-se um dos maiores fenômenos da música mundial – e isso sem recorrer a nenhum dos estratagemas que outras estrelas consagraram. Norah não muda de imagem a cada duas fotografias. Norah nunca produz factóides. Norah não faz clipes ultraproduzidos. Nem mesmo os shows são seu forte: ela não dança, e reconhece que sua presença de palco é sofrível. Alguns detratores da moça a apelidaram de Snorah – um trocadilho com "snore", roncar de sono em inglês. A única coisa que Norah Jones faz é cantar. Ponto final. Isso bastou para que vendesse 20 milhões de cópias dos dois discos que gravou até agora, Come Away With Me e Feels Like Home (no Brasil, foram 200 000 cópias). Para efeito de comparação, a princesinha do pop Britney Spears vendeu 26 milhões de discos ao redor do mundo – em cinco anos de estrada, com quatro CDs na bagagem. Uma cantora que só canta, e ainda assim faz um sucesso enorme, é algo intrigante no showbiz atual. Mas há explicações.

Antes de mais nada, Norah tem uma voz bastante peculiar, rouca e aspirada, que usa para dar vida a baladas com forte influência do country e alguns elementos do jazz. Suas músicas são suaves, jamais agridem. Além disso, ela tem uma característica que a distingue de praticamente todas as outras musas do pop. Enquanto essas cantoras projetam em geral a imagem de uma mulher liberada, pronta para experimentar no sexo e mais afeita àquilo que os adolescentes chamariam de "ficar", as músicas de Norah exploram a intimidade – seja nas letras, seja nas melodias. Como disse a crítica Sasha Frere-Jones, num artigo para a revista New Yorker, as canções de Come Away With Me poderiam ser descritas como catorze representações do romantismo de um primeiro encontro, enquanto Feels Like Home é a trilha sonora daqueles que vão morar juntos. Graças a esse estilo cálido, Norah Jones conquistou o grosso de seu contingente de fãs não entre os adolescentes, mas entre ouvintes que vão dos 25 aos 45 anos. Ela é, essencialmente, uma cantora para trintões. E aí vem outra parte da explicação de seu sucesso. Gente nessa faixa etária não está muito inclinada a buscar suas músicas na internet. Esse público continua fiel ao CD – daí os números de vendagem elevados.

Norah Jones é filha de um relacionamento passageiro do citarista Ravi Shankar – e não gosta de falar sobre o pai. Nascida em Nova York, ela passou a infância no Texas, capital do country. Sua educação musical é acima da média, e inclui a MPB (sua mãe morou no Brasil nos anos 70). "Lembro muito de ouvir na infância o vozeirão de Maria Creuza", diz Norah, que completa cantando (com sotaque, é claro): "Eo sei que vô tchi amarrr...". Em 1999, a cantora retornou a Nova York. Apresentou-se em bares e espalhou fitas demo pelas gravadoras até ser descoberta por Arif Mardin, produtor que já trabalhou com divas como Aretha Franklin e Dusty Springfield. Com o sucesso, Norah começa a ter de driblar o escrutínio sobre a sua vida privada. Recentemente, um tablóide americano estampou na capa o apartamento (alugado) onde a cantora vive em Nova York. Isso, afirma ela, a incomoda bem mais do que as críticas sobre sua música. "Até minha mãe me chama de Snorah. É claro que isso não me atinge", diz ela.

 
 
 
 
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