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Cinema
Enfim
um astro
Johnny
Depp é o mesmo ator inusitado
de sempre. Mas agora o público
aprendeu a gostar do que ele faz

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Depp,
como o escritor Mort, e Turturro: como um herói de Hitchcock
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Metido
num robe velho sobre as roupas amarrotadas, com os cabelos desgrenhados
e o olhar confuso de quem foi pego dormindo fora de hora, o escritor
de mistério Mort Rainey é a imagem do homem cuja vida
entrou em suspensão após um casamento desfeito. Nesse
seu estado vulnerável, Mort é uma presa fácil
para John Shooter, um caipira que bate à sua porta com uma
acusação de plágio. Shooter é um tipo
esquisito e ameaçador, que promete arruinar a vida de Mort
se este não lhe restaurar a autoria de um conto roubado e
corrigir seu final. O escritor sabe que não plagiou o conto
e poderia prová-lo, não fosse a prova estar
na casa de sua ex-mulher, com quem o escritor está em péssimos
termos. O dilema de Mort em A Janela Secreta (Secret Window,
Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
é o dilema clássico dos heróis hitchcockianos:
ser um inocente cuja culpa é dada como certa, e que tem de
se ver com forças que ele mal entende para desfazer o equívoco,
antes que este lhe custe a vida.
Nessa
situação, um típico protagonista de Alfred
Hitchcock, como James Stewart ou Cary Grant, jogaria o jogo dos
adversários até saber que cartas eles têm nas
mãos, cuidando de não dar pistas sobre as suas próprias.
Johnny Depp, ao contrário, não oculta nada no papel
de Mort. Sua exasperação e ansiedade ficam evidentes
numa série de tiques que se agravam, com grande comicidade,
na mesma medida em que as represálias de Shooter (John Turturro)
escalam em violência. As reações tensas e desajeitadas
de Mort são, claro, as que se esperam de um sujeito comum
em tal sinuca. Mas Depp, um ator dos mais habilidosos, as calcula
de forma a atingir o efeito contrário. Ninguém pode
ser tão comum quanto Mort parece ser, o que termina por constituí-lo
no verdadeiro enigma da história.
Dirigido
com estilo e firmeza por David Koepp, o roteirista de Quarto
do Pânico, com base num original de Stephen King, A
Janela Secreta não tem outra pretensão que a de
ser um mistério bem urdido. Mas, para um ator, é um
exercício dos mais exigentes. A diferença é
que agora os maneirismos de Depp finalmente deixaram de ser compreendidos
apenas por uns tantos diretores, como Tim Burton, que apreciam seu
talento para o inusitado e o arriscado. Desde Piratas do Caribe,
seu estilo caiu em cheio no gosto do público e, portanto,
dos chefes de estúdio também. Aos 40 anos, Depp está
na posição da qual sempre procurou escapar: a de chamariz
de bilheteria. O curioso é que, afora o tipo de veículo,
não há nada de essencialmente diferente leia-se
mais fácil em seu trabalho em Piratas do Caribe
ou A Janela Secreta do que ele vinha fazendo em Ed Wood
ou Antes do Anoitecer. Depp, enfim, é mesmo um excêntrico
para os padrões de Hollywood. Em vez de ir até o público,
esperou que este chegasse até ele.
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