Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Cinema
Enfim um astro

Johnny Depp é o mesmo ator inusitado
de sempre. Mas agora o público
aprendeu a gostar do que ele faz


Isabela Boscov

 
Divulgação
Depp, como o escritor Mort, e Turturro: como um herói de Hitchcock


Trailer do filme

Metido num robe velho sobre as roupas amarrotadas, com os cabelos desgrenhados e o olhar confuso de quem foi pego dormindo fora de hora, o escritor de mistério Mort Rainey é a imagem do homem cuja vida entrou em suspensão após um casamento desfeito. Nesse seu estado vulnerável, Mort é uma presa fácil para John Shooter, um caipira que bate à sua porta com uma acusação de plágio. Shooter é um tipo esquisito e ameaçador, que promete arruinar a vida de Mort se este não lhe restaurar a autoria de um conto roubado e corrigir seu final. O escritor sabe que não plagiou o conto – e poderia prová-lo, não fosse a prova estar na casa de sua ex-mulher, com quem o escritor está em péssimos termos. O dilema de Mort em A Janela Secreta (Secret Window, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, é o dilema clássico dos heróis hitchcockianos: ser um inocente cuja culpa é dada como certa, e que tem de se ver com forças que ele mal entende para desfazer o equívoco, antes que este lhe custe a vida.

Nessa situação, um típico protagonista de Alfred Hitchcock, como James Stewart ou Cary Grant, jogaria o jogo dos adversários até saber que cartas eles têm nas mãos, cuidando de não dar pistas sobre as suas próprias. Johnny Depp, ao contrário, não oculta nada no papel de Mort. Sua exasperação e ansiedade ficam evidentes numa série de tiques que se agravam, com grande comicidade, na mesma medida em que as represálias de Shooter (John Turturro) escalam em violência. As reações tensas e desajeitadas de Mort são, claro, as que se esperam de um sujeito comum em tal sinuca. Mas Depp, um ator dos mais habilidosos, as calcula de forma a atingir o efeito contrário. Ninguém pode ser tão comum quanto Mort parece ser, o que termina por constituí-lo no verdadeiro enigma da história.

Dirigido com estilo e firmeza por David Koepp, o roteirista de Quarto do Pânico, com base num original de Stephen King, A Janela Secreta não tem outra pretensão que a de ser um mistério bem urdido. Mas, para um ator, é um exercício dos mais exigentes. A diferença é que agora os maneirismos de Depp finalmente deixaram de ser compreendidos apenas por uns tantos diretores, como Tim Burton, que apreciam seu talento para o inusitado e o arriscado. Desde Piratas do Caribe, seu estilo caiu em cheio no gosto do público – e, portanto, dos chefes de estúdio também. Aos 40 anos, Depp está na posição da qual sempre procurou escapar: a de chamariz de bilheteria. O curioso é que, afora o tipo de veículo, não há nada de essencialmente diferente – leia-se mais fácil – em seu trabalho em Piratas do Caribe ou A Janela Secreta do que ele vinha fazendo em Ed Wood ou Antes do Anoitecer. Depp, enfim, é mesmo um excêntrico para os padrões de Hollywood. Em vez de ir até o público, esperou que este chegasse até ele.

 
 
 
 
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