Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Arte
Golpe em família

O artista plástico Siron Franco acusa
irmão e sobrinho de roubo e falsificação


Sérgio Martins

Fernando Lemos/Strana
Siron: quadros que valem
até 200 000 reais


Personagem constante dos cadernos culturais dos jornais, o artista plástico Siron Franco migrou, à sua revelia, para as páginas policiais. Na semana passada, a Delegacia Estadual de Investigações Criminais de Goiás prendeu Darci França Franco e Darci França Franco Júnior, respectivamente irmão e sobrinho de Siron, sob a acusação de furto e falsificação. A polícia goiana está atrás de outros dois suspeitos, mas seus nomes são mantidos em sigilo – um deles seria outro sobrinho do artista. Estima-se que eles tenham furtado mais de 200 peças de dois ateliês do artista, em Goiânia e numa cidade vizinha, entre quadros a óleo, guaches e cerâmicas. "Levaram até um quadro chamado Figura no Pátio com Parte do Meu Corpo, que havia dado de presente à minha filha", diz Siron, um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Seus quadros custam entre 50.000 e 200.000 reais e atraem colecionadores inclusive do exterior. Ele também é respeitado pelas obras de cunho social. Entre as mais famosas estão a série Césio, inspirada no acidente com a cápsula radioativa de césio 137 (ocorrido em Goiás, em 1987), e o Monumento às Nações Indígenas, que se tornou símbolo da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil.

Desde dezembro de 2002 Siron desconfiava que seu ateliê vinha sendo saqueado pelo irmão Darci, com quem não mantinha um relacionamento amistoso. "Meu irmão responde a dezesseis processos criminais em São Paulo e sua vida criminosa matou a nossa mãe de desgosto", diz o artista. Apesar das desavenças, Siron empregou o sobrinho como chofer, porque ele passava por dificuldades financeiras. Darci e seu filho montaram, então, um esquema para roubar obras e as repassar a colecionadores. Uma pintura, A Carta, chegou a ser posta à venda numa galeria de arte em Belo Horizonte. "O Siron me avisou que a pintura era roubada e eu a devolvi a quem me ofereceu", diz o marchand mineiro Errol Flynn. Segundo Flynn, a pessoa que se diz proprietária do quadro é um professor da Universidade de Brasília que mostrou um recibo da compra. A falsificação era uma parte importante do esquema. Em junho do ano passado, Siron deparou com imitações grosseiras de obras suas, assinadas com seu nome. Elas estavam no consultório de uma dentista, filha de uma ex-procuradora da República. Na ocasião, ele acusou o irmão de ser o autor do crime, o que levou a polícia goiana a investigar o caso. "Apuramos que muitas cópias eram feitas por Darci e seu filho e vendidas a pessoas que não tinham como perceber o golpe, pelo pouco conhecimento de artes plásticas", diz o delegado Jerônimo Borges. As cerâmicas, sobretudo, eram feitas com material de péssima qualidade e com técnica primária. Darci França Franco e o filho estão presos no Centro de Detenção Provisória, em Goiás.

 
Ateliê saqueado

Siron Franco estima que mais de 200 de suas obras tenham sido roubadas, entre óleos, guaches e cerâmicas. A polícia também descobriu falsificações, mas ainda não tem números desse crime

 
IMITAÇÃO GROSSEIRA
Inquérito policial com duas versões da cerâmica Madona: a falsificação foi feita em material de má qualidade e com técnica primária
TELA RECUPERADA
Figura no Pátio com Parte do Meu Corpo: quadro foi presente para a filha

 
 
 
 
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