Edição 1849 . 14 de abril de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
A matriz do riso

No ar há 29 anos, o programa
Saturday Night Live é o
maior celeiro
de comediantes americanos – e inspira
muita gente fora dos Estados Unidos


Marcelo Marthe, de Nova York

Pense no nome de um comediante que fez sucesso no cinema nas últimas três décadas. Quem quer que seja, há uma chance imensa de que ele já tenha integrado o elenco do humorístico Saturday Night Live, uma das atrações de maior longevidade da TV americana – no ar há nada menos que 29 anos. Bill Murray, Eddie Murphy, Billy Crystal, Dan Aykroyd, Martin Short, Mike Myers, Chris Rock, Adam Sandler – todos figuram entre os mais de cem humoristas que passaram pelo programa. Um dos poucos que não integram a lista é Jim Carrey. Mas ele tentou ser incluído nela – e foi reprovado num teste. Saturday Night Live não é apenas um celeiro de comediantes. Quando surgiu, o programa representou um sopro de renovação no humor feito na TV, ao introduzir no gênero doses cavalares de anarquia e incorreção política. Não é pequena sua influência sobre o brasileiro Casseta & Planeta, por exemplo. Com o tempo, ele passou a ser, mais que um mero humorístico, uma referência cultural. Da vinheta de abertura ao deboche com que trata a sociedade de seu país, o Saturday Night Live é a cara de Nova York. Tão identificado com a cidade quanto comer cachorro-quente no Central Park ou patinar no gelo no Rockefeller Center – onde, aliás, ficam os estúdios da rede NBC em que a atração é filmada.

A maior marca do Saturday Night Live é o fato de que se trata, como diz seu nome, de uma atração ao vivo. Isso requer dos atores, evidentemente, muita técnica e talento para o improviso. No último dia 3, VEJA acompanhou a filmagem do programa. É um evento complexo, tocado por uma equipe de 200 profissionais, que precisam promover trocas de cenário e figurino em questão de segundos. Cada gravação conta com uma platéia de cerca de 300 pessoas. Não é fácil obter um convite: os da temporada de 2004 já estão praticamente esgotados. No ar a partir das 23h30, o Saturday Night Live é uma maratona com uma hora e meia de duração (no Brasil, o programa só está disponível numa versão compacta, exibida pelo canal pago Sony).

O humorístico segue uma fórmula imutável desde que foi criado, em 1975. A cada semana, uma celebridade é convidada a participar do programa. Entre os que lá estiveram encontram-se os astros Ben Affleck e Tom Hanks, o ex-prefeito nova-iorquino Rudolph Giuliani e o empresário Donald Trump. Outro atrativo são as apresentações musicais, que só incluem medalhões – de Paul McCartney a Britney Spears. Os esquetes giram em torno dos convidados e das notícias do momento. Tornou-se célebre o programa em que Eddie Murphy ensinou o cantor Stevie Wonder a fazer uma imitação perfeita de... Stevie Wonder. Ou então aquele em que, no auge do escândalo sexual envolvendo Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, o ator Darrell Hammond interpretou o ex-presidente num sonho – e Monica em pessoa contracenou com ele.

Por ser uma vitrine para o estrelato, a guerra de egos dentro do Saturday Night Live pode ser feroz. O programa foi descrito como o pior ambiente de trabalho do mundo, no livro Live From New York, lançado em 2002. Bill Murray era visto como um mal-humorado e protagonizou brigas que descambaram para a baixaria. Murphy é lembrado como uma das piores prima-donas que passaram pelo elenco. Os humoristas Mike Myers e Dana Carvey eram ótimos companheiros de elenco, até que, em 1992, um quadro protagonizado pela dupla deu origem ao filme O Mundo de Wayne. O sucesso subiu à cabeça – e azedou a amizade. A história de Saturday Night Live ainda tem seu componente de morbidez. Em 1982, o comediante John Belushi teve uma overdose, aos 33 anos. Quinze anos depois, Chris Farley morreu pela mesma causa.

Divulgação NBC
Tina Fey: primeira mulher como roteirista-chefe do Saturday Night Live


Embora contasse com uma estrela do porte de Gilda Radner, que viraria uma espécie de "namoradinha da América", o Saturday Night Live dos primeiros tempos era tido como a fina flor da misoginia – só os homens podiam brilhar. Hoje, é diferente. Ao lado do humorista Jimmy Fallon, quem se destaca é a atriz Tina Fey. Dona de uma verve chamuscante, ela se tornou a primeira mulher a ocupar o posto de roteirista-chefe do programa. Em dupla com Fallon, Tina comanda o impagável Weekend Update, um noticiário de mentira. Nesse papel, ela dispara farpas do tipo: "A cantora Madonna anunciou que em sua próxima turnê fará uma coreografia com cenas de batalha, para ilustrar a tragédia da guerra. Madonna também anunciou que aparecerá no palco de biquíni, para ilustrar a tragédia da passagem do tempo". A maldade é a argamassa do Saturday Night Live.

 

Eles passaram por lá

O Saturday Night Live teve em seu elenco mais de 100 humoristas, dos quais muitos se tornaram estrelas do cinema

 
Paramount Pictures
Eddie Murphy: astro que mais lucrou depois de sair do humorístico
Divulgação/Universal Studios
Bill Murray: sua participação no programa, nos anos 70, lhe rendeu fama de mal-humorado
Luiz Claudio Ribeiro/AP
Billy Crystal: nos anos 80, mesmo já consagrado, ele topou participar de uma temporada

 

 
 
 
 
topo voltar