Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Tecnologia
O ruído fica do lado de fora

Um novo tipo de fone de ouvido é capaz de
bloquear
sons externos, como os do trânsito

 
Fotos divulgação

O fone da Philips (à esq.) será vendido no Brasil por 200 reais. O modelo da Sony sela o ouvido com um plugue e silicone. Custa 150 dólares



Como funciona o fone supressor de ruídos externos

Afinal inventaram o que faltava nestes tempos barulhentos: o fone de ouvido que bloqueia os ruídos externos. Pode ser usado para ouvir música com boa qualidade de som em meio à confusão do trânsito ou para facilitar a noite de sono de quem vive nas grandes cidades. Note-se que não se trata de garantir o silêncio absoluto. Em potência máxima é capaz de reduzir em 10 decibéis a barulheira externa. É o suficiente para que a sensação auditiva seja a de que a intensidade do ruído cai à metade. O aparelho foi projetado para filtrar os ruídos contínuos e de baixa freqüência, como o do motor de aviões, carros, trens e o burburinho do escritório ou do trânsito. Não bloqueia os sons de alta freqüência, como a voz humana, campainhas ou latidos de cachorro. É uma vantagem, pois livra o usuário dos ruídos mais irritantes sem confiná-lo num isolamento acústico.

Os primeiros modelos foram produzidos há quinze anos para ser usados por pilotos de avião. O objetivo era amenizar o desconforto sonoro dentro da cabine sem impedir que os pilotos ouvissem com clareza as instruções dos controladores de vôo. Custavam 1 000 dólares cada um. Os primeiros modelos comerciais chegaram às lojas americanas e européias no fim da década de 90. Hoje só nos Estados Unidos estão à venda 44 modelos produzidos por dezoito empresas. Custam entre 30 e 500 reais. No Brasil, um modelo da marca Coby custa 120 reais. A Philips pretende trazer o modelo HN050, atualmente vendido na Europa e nos Estados Unidos, mas ainda não decidiu quando isso será feito. Deverá custar por volta de 200 reais. Praticamente todos os fabricantes de equipamentos de som – como Aiwa, Panasonic e JVC – têm modelos cujos preços raramente ultrapassam 100 dólares.

Quase todos têm design similar ao dos fones convencionais. A Sony foi um pouco além. Deu a seus fones um formato anatômico parecido com o dos tampões de espuma usados para abafar o som em ambientes ruidosos. Feitos de silicone, os fones MDR-NC11 são produzidos em três tamanhos e se adaptam ao canal do ouvido, vedando-o completamente. O resultado é um bloqueio ainda maior do ruído externo. Custa 150 dólares. O mais caro é o modelo E5c, da americana Shure, que também oferece reprodução sonora de altíssima fidelidade. O preço: 500 dólares. O mecanismo de bloqueio do som segue um princípio da física: o de que uma onda pode ser anulada por outra igual, emitida em sentido contrário. O microfone instalado no fone capta o ruído externo e transmite as informações para um microprocessador. Depois de identificar sua intensidade, ele envia por meio de um alto-falante uma onda sonora idêntica. Os fabricantes aconselham cuidado ao usar o aparelho ao volante, andando de bicicleta ou mesmo caminhando. Nesses casos, o bloqueio dos sons externos pode desviar a atenção e provocar acidentes. Em algumas situações, há barulhos que vêm para o bem.

Na maioria das situações, é saudável livrar-se da cacofonia estridente da vida moderna. Os estragos no aparelho auditivo não são provocados apenas pela exposição a sons intensos, como o de trios elétricos ou bandas de rock. O ouvido humano tolera bem sons de até 50 decibéis, o equivalente ao ruído de fundo em um escritório tranqüilo, no qual as pessoas conversem em voz baixa. A partir dessa intensidade o barulho incomoda. A exposição contínua a ruídos com mais de 65 decibéis pode causar stress e até depressão. Acima de 75 decibéis eles podem provocar hipertensão. É um nível de barulho que faz parte do nosso dia-a-dia. Uma campainha de telefone ou um aspirador de pó pode chegar a 80 decibéis, um secador de cabelo a 90. O ruído interno dentro de um trem de metrô é de 95 decibéis. Sons a partir de 130 decibéis – equivalentes ao de uma turbina de avião a 100 metros de distância – podem causar danos permanentes à audição. Os médicos recomendam que as exposições a ruídos acima de 115 decibéis nunca ultrapassem sete minutos por dia.

Pesquisas feitas no Brasil mostram que 10% a 20% das pessoas que trabalham por mais de dez anos em ambientes com ruídos acima de 85 decibéis têm perda auditiva. Os trabalhadores que mais sofrem de distúrbios auditivos são os metalúrgicos e os operários do setor de embalagem das fábricas, áreas em que as máquinas estão em operação contínua. Músicos também costumam sofrer de perda de audição. Cerca de 30% dos que se apresentam em bandas de rock ou trios elétricos têm sinais evidentes de alteração auditiva após as apresentações. Normalmente esse tipo de alteração regride com o tempo. No caso de exposição contínua, o problema torna-se irreversível. Até os que tocam em orquestra estão sujeitos a problemas. Um levantamento realizado entre os músicos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo revelou que 15% têm sinais de alteração auditiva. Para todos eles, o fone de ouvido com supressão de ruídos externos é uma novidade bem-vinda.

 
 
 
 
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