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Aviação
A
febre do vôo barato
na Europa
Passagens
aéreas com preços
abaixo
de 30 dólares provocam uma
revolução no turismo no continente

Ruth
Costas
Reuters
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| Embarque
da Ryanair:
lanche cobrado
à parte |
Será
mesmo possível voar de Milão a Londres por menos de
2 dólares? É esse o preço anunciado pela companhia
aérea irlandesa Ryanair, que promete passagens de avião
mais baratas que um lanche nas grandes capitais européias.
Quando a esmola é muita, faz bem quem desconfia. Acrescentadas
as taxas pelo uso do aeroporto e do espaço aéreo,
o preço da viagem sobe para 17 dólares, mais de oito
vezes o anunciado. É, de qualquer forma, uma pechincha. O
mesmo trecho em uma grande companhia tradicional, como a British
Airways, não sai por menos de 80 dólares. Se até
pouco tempo atrás o trem era o meio de transporte preferido
de viajantes e mochileiros com pouco dinheiro no bolso, hoje viajar
de avião se tornou a opção mais atraente na
Europa.
Desde
que a União Européia desregulamentou os vôos
comerciais dentro de suas fronteiras, em 1997, quase sessenta pequenas
companhias aéreas, como a Ryanair e a inglesa easyJet, levaram
a guerra de preços a limites cada vez mais baixos. Para não
ficarem sem passageiros, as grandes empresas nacionais se viram
forçadas a seguir no mesmo trilho, com corte nos custos e
descontos no preço dos bilhetes. Mas, ainda assim, continuam
bem mais caras que suas concorrentes. Chamadas de companhias de
baixo custo, essas empresas oferecem um grande número de
vôos dentro da Europa por não mais de 30 dólares.
Existem, é claro, certas desvantagens. O que a Ryanair chama
de Milão, trata-se, na verdade, de Bergamo, cidade a quarenta
minutos de carro do centro de Milão. Também é
preciso fazer reserva com antecedência, pois, quanto mais
próximo o dia do embarque, maiores os preços. "Por
isso, num mesmo avião há pessoas que pagaram 15 dólares
pelo trajeto e outras que pagaram 150", explica o brasileiro Alexandre
Doria, que trabalha numa empresa aérea tradicional em Dublin,
na Irlanda, e viaja em companhia de baixo custo. "Pago menos do
que pagaria comprando a passagem com desconto a que tenho direito
como funcionário", diz.
O
que permite passagens baratas é a obsessão por corte
de custos. As companhias operam com um único modelo de avião,
o que barateia a manutenção e o treinamento da tripulação.
Utilizam aeroportos secundários, distantes das cidades principais,
que cobram taxas menores. O serviço de bordo é praticamente
inexistente. Se um passageiro quiser um café ou um sanduíche,
terá de pagar à parte. As reservas são feitas
pela internet, o que simplifica o processo de venda e dispensa o
pagamento de comissão aos representantes e agentes de viagem.
A Ryanair, a maior do ranking das barateiras, tem atualmente uma
frota de 74 aeronaves com capacidade média para 150 passageiros
e deve receber outra centena de Boeing 737 até 2009. A companhia
opera em dezesseis países e transportou 21 milhões
de passageiros no ano passado. Disposta a cortar os custos cada
vez mais fundo, a empresa já anunciou o fim dos assentos
reclináveis. Em breve poderá começar a cobrar
dos passageiros que despacharem as bagagens.
O
sucesso dessas companhias é enorme no mês passado,
o número desse tipo de vôo foi 56% maior em relação
a março de 2003. Graças aos preços baixos,
os europeus estão viajando com maior freqüência.
A presença de turistas ingleses no continente triplicou nos
últimos três anos e se espera uma avalanche de viajantes
americanos, que só agora estão se dando conta de que
podem voar barato pela Europa.
No
Brasil, a implantação do modelo low-cost esbarrou
nas especificidades do mercado nacional. Apesar de a criação
da Gol, que hoje detém 24% do volume de passageiros em vôos
nacionais, ter sido inspirada em companhias de baixo custo da Europa
e dos Estados Unidos, a empresa cobra preços próximos
aos de companhias tradicionais, como a Varig. "Aqui, a demanda fora
dos grandes centros é menor que nos Estados Unidos e na Europa
e os aeroportos secundários não têm volume de
tráfego para sustentar a presença de aviões
com 150 passageiros", explica Tarcísio Gargioni, vice-presidente
de marketing da Gol. "Além disso, devido à disposição
geográfica das grandes capitais brasileiras, os vôos
acabam fazendo muitas conexões, o que encarece o sistema."
Por aqui, os preços menores ficam por conta dos corujões,
como são chamados os vôos noturnos (leia no quadro
abaixo), e das promoções eventuais das companhias
aéreas.
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Nas
asas dos corujões
Renata Ursaia
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| Embarque
na madrugada, em São Paulo: pode ser mais
barato do que ônibus |
Em
dezembro do ano passado, a Gol lançou os "corujões",
vôos noturnos feitos em geral de madrugada, com
tarifas muito reduzidas. A iniciativa se revelou um
sucesso, com o índice de ocupação
dos aviões batendo em 95%, contra 60% dos vôos
regulares. A TAM e a Varig entraram nesse mercado no
mês passado. As tarifas dos corujões são
semelhantes às praticadas por empresas de ônibus,
ou até mais baixas. Uma viagem entre São
Paulo e Rio de Janeiro, num vôo desses, chega
a custar 50 reais. O mesmo trecho, num ônibus
executivo, sai por 60 reais, em média. Os passageiros
dos corujões são, em sua maioria, pessoas
de baixo poder aquisitivo, que viajam por motivos estritamente
particulares ou seja, têm um perfil bem
diferente do de quem utiliza com regularidade os serviços
das companhias aéreas. Por esse motivo, dificilmente
ocorreria uma migração maciça dos
vôos regulares para os noturnos. Mas uma ameaça
paira sobre os corujões, desde que a Vasp, que
tenta sobreviver a todo custo, diminuiu em 80% os preços
de 22 trechos diurnos. Com isso, é possível
que muitos usuários dos corujões passem
a viajar durante o dia, inviabilizando o mercado da
madrugada. Como é possível pagar tão
pouco por um bilhete de corujão? É simples:
um avião tem custos fixos que continuam a existir
mesmo quando ele não está no ar. São
os gastos com manutenção, seguro e leasing.
O que uma companhia cobra num vôo da madrugada
serve para cobrir basicamente os custos variáveis
da operação tais como o combustível,
a manutenção adicional e as horas extras
com pessoal. Lucro só quando a companhia obtém
um índice de ocupação acima de
70%. É isso que está ocorrendo.
Heloisa
Joly
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