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Gastronomia
Arriba
España
Com
Ferran Adrià, o celebrado gênio
das panelas, no comando, espanhóis
passam à frente dos franceses
e todo mundo vai atrás

Daniela
Pinheiro
Comida
francesa ou espanhola? Até pouco tempo atrás ninguém
sério sequer pensaria em levantar a dúvida. Com todas
as suas excelências e seus magníficos produtos da terra,
a segunda não se comparava em técnica, aprimoramento
e sofisticação à primeira. A atual revolução
no mundo das panelas mudou tudo e a virada é dada
por consumada. Recentemente, três das maiores publicações
de gastronomia do mundo, a Wine Spectator, a Saveurs du
Monde e a Restaurant Magazine, e também o jornal
The New York Times, reservaram dezenas de páginas
para explicar como a Espanha se tornou a nova meca da culinária
mundial, desbancando a tradicionalíssima França. Especialistas
e chefs de renome internacional reconhecem estar em curso uma revolução
conceitual que está transformando as cozinhas em todo o planeta.
É um fenômeno incandescente, novíssimo e, segundo
os entendidos, irreversível. O ideólogo e comandante
disso tudo é o catalão Ferran Adrià, proprietário
do restaurante El Bulli, localizado numa cidadezinha perto da fronteira
com a França, que só abre suas portas seis meses por
ano. Foi ele quem colocou os espanhóis no circuito da alta
gastronomia mundial. Hoje, há quatro restaurantes com a cotação
máxima de três estrelas do Guia Michelin (só
perde para França e Alemanha). Suas invenções
são copiadas nas cozinhas de centenas de restaurantes em
Paris, Milão, Nova York. O fenômeno também reverberou
no Brasil, onde uma onda de espumas, gelatinas e outros experimentalismos
varre as casas mais antenadas.
Adrià
se tornou o chef mais copiado no mundo porque inventou uma nova
visão da culinária. Quando o mundo todo se dava por
satisfeito com um bom filé à béarnaise ou,
no máximo, um salmão com molho de maracujá,
ele virou a mesa, literalmente, e optou sempre pelos caminhos mais
radicais. Nenhuma verdade é absoluta, nada é suficientemente
consagrado na cozinha do catalão. Sua manipulação
dos ingredientes chega a assustar os não-iniciados. Chocolate,
por exemplo por que não adicionar textura e um outro
gosto? Foi assim que ele o fundiu com raiz-forte. Pão
por que não fazê-lo explodir na boca? Depois de assada
a massa, ele injetou azeite de oliva e água do mar no miolo.
Quando se morde, ela "arrebenta" numa rara miríade de sabores.
Adrià também é o primeiro chef do mundo a trabalhar
com uma equipe de químicos na hora de elaborar suas receitas.
São eles que descobrem o ponto ideal de precipitação
de proteínas, de emulsificação de amidos, para
que o cozinheiro tenha quase um novo produto em mãos. Dessa
forma, alteram-se a textura, a cor e a aparência, sem perder
o gosto original do ingrediente.
Na
esteira do fenômeno Adrià, outros espanhóis,
como Juan Mari Arzak, Santi Santamaria, Sergi Arola e Carme Ruscalleda,
passaram a ser considerados estrelas da culinária mundial.
"Eles são mais criativos, mais originais e, definitivamente,
deliciosos.
A
comida é mais leve e mais bonita, diferente do que estava
sendo servido no resto do mundo", diz a chef Ana Cristina Zambelli,
do restaurante paulistano Cantaloup, que estagiou sete meses com
Adrià. Seu cardápio é recheado de técnicas
desenvolvidas por ele. Principalmente com o uso da gelatina, um
ingrediente clássico na cozinha "bulliana". Ali, ela serve
salmão com crosta de caipirinha e cordeiro com crosta de
gelatina de maçã.
Mesmo
que os chefs não admitam a influência, é possível
identificar o chamado "estilo bulliano" tanto na essência
quanto na apresentação dos pratos. Adrià abriu
mão de travessas e bandejas para servir sua comida em copos,
colheres, sacos plásticos e até provetas. O tamanho
das porções é do tipo snack, como os tradicionais
tapas espanhóis, para serem devoradas em uma única
mordida. O total de "pratos" pode chegar a trinta. "A gente percebe
claramente como o cliente hoje prefere provar um pouco de várias
coisas do que ficar com um pratão de uma coisa só
à frente dele", diz a jovem chef paulistana Bel Coelho. A
arrumação da comida lembra também a da culinária
japonesa. Antes, a tendência era de empilhar os alimentos
na vertical. Com Adrià, a disposição é
horizontalizada. "Ele passou a dar uma importância imensa
à apresentação: com mais cores, mais formas,
mais texturas. Fica até sem graça fazer diferente",
afirma Bel Coelho.
Fotos Oscar Cabral
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| O
carioca Felipe Bronze e sua combinação "bulliana": foie gras
com merengue de shoyo, ouriço-do-mar e rabada |
Outra
característica singular é o radicalismo nas combinações
dos alimentos. Adrià serve tutano com caviar, purê
de batata com baunilha e outras misturas que soam bizarras. Esta
é mais uma tendência que se propaga rapidamente no
mundo dos restaurantes voltados para a alta gastronomia, tanto para
o bem quanto para o mal todo mundo já intui como acabam
os excessos de modismos. No Rio de Janeiro, o jovem chef Felipe
Bronze, do recém-inaugurado Z Contemporâneo, oferece
um prato capaz de intimidar até espíritos mais aventureiros:
foie gras com merengue de shoyo, ouriço-do-mar e molho reduzido
de rabada. "Não me interesso pela parte química da
cozinha de Adrià, mas sou fascinado pelo princípio
de fazer combinações aparentemente esquisitas ficar
muito boas", diz.
A
mais disseminada técnica inventada pelo espanhol é
a tal da espuma, presente hoje em boa parte dos restaurantes estrelados
brasileiros. Em vez de preparar um creme, Adrià põe
num sifão o líquido desejado (suco de fruta ou de
legumes) e mistura com gelatina. O resultado é uma espuma
levíssima de gosto concentrado. "Antes, eu demorava um tempo
razoável para fazer um creme de caramelo para acompanhar
a bavaroise de pêra. Hoje, só coloco o caramelo com
gelatina no sifão. É outra coisa. É o gosto
puro e muito mais leve", elogia a chef carioca Flávia Quaresma,
dona do Carême. Outro hit "bulliano" é a esferificação,
um neologismo criado por Adrià. É uma descoberta tão
interessante para a culinária quanto foi a invenção
do suflê na França no fim do século XVIII. Adrià
inventou uma espécie de película finíssima,
como a que cobre uma gema de ovo, e passou a criar "gemas esferificadas"
de tudo o que se possa imaginar. Sua sopa de ervilha, por exemplo,
tem aparência de uma gema verde que, em contato com a boca,
libera o líquido quente, de sabor apurado. A descoberta é
resultado da mistura do líquido com alginato, substância
viscosa usada como goma em adesivos, cosméticos e alimentos,
e cloreto de cálcio. "Um dos preceitos da cozinha de Adrià
é fazer com que a pessoa viva a comida, engane o senso comum,
seja surpreendida a cada minuto", declama Alex Atala, chef dono
do restaurante paulista D.O.M., um dos melhores do país,
considerado o mais fervoroso divulgador das técnicas do espanhol.
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| Troisgros,
com
sorvete de
gazpacho e queijo de cabra, que lembra Adrià: "Comida
mesmo, de
encher a
boca d'água, ele não faz" |
Os
maiores críticos de Adrià são, previsivelmente,
os franceses. Foram eles que ficaram com a pecha de superados, parados
no tempo. É uma injustiça: os grandes chefs sempre
buscam criar coisas novas e a alta gastronomia francesa continua
a atingir níveis sublimes. A diferença é que
o ritmo da revolução espanhola pegou todo mundo de
surpresa. "Eles têm o melhor público, mas não
têm chefs que querem mudar o mundo", compara o maior crítico
gastronômico da Espanha, Rafael García Santos. Os franceses
defendem a tese, bastante sensata, de que a cozinha "bulliana" não
é para o cotidiano. É algo para provar esporadicamente
devido ao excesso de novidades. Quem gosta de vinhos, por exemplo,
fica órfão à mesa. Com tantos pratos não
há como harmonizar a bebida. O próprio Adrià
costuma dizer que suas receitas devem ser degustadas com champanhe,
mas água seria melhor ainda. A maioria dos grandes chefs
franceses, como Joël Robuchon (que, curiosamente, acabou de
abrir um restaurante de tapas em Paris), Pierre Gagnaire e Marc
Veyrat, não poupa elogios à "originalidade" e "inventividade"
de Adrià, mas insiste que a cozinha espanhola está
muito científica e distante da realidade. "Comida, comida
mesmo, aquela que você sonha, que faz a sua boca encher d'água,
isso o Adrià não faz", diz o chef Claude Troisgros,
radicado no Rio, que vem de uma família com mais de setenta
anos de tradição na cozinha. Ainda assim, ele adaptou
a seu menu uma inspiração "bulliana": sorvete de gazpacho
com legumes e queijo de cabra. Troisgros conta as impressões
de seu pai, o legendário Pierre, e Paul Bocuse, outro monstro
sagrado, depois de comerem no El Bulli. "Acharam tudo lindo, tudo
legal, mas disseram que, dos 27 pratos que comeram, só entenderam
sete. O resto era uma coisa só para se divertir", diz.
Por
enquanto, nada abala o prestígio do espanhol. Com uma demanda
de 400.000 reservas, Adrià só consegue atender 8.000
pessoas por ano. Exceções de última hora, só
em casos raríssimos. Uma vez, Adrià recebeu em seu
fax uma sucinta mensagem em inglês: "I'm hungry" (Estou
com fome). Dois dias depois, tomou o avião para cozinhar
num jantar seletíssimo para os amigos do banqueiro aposentado
Antonio Carlos de Almeida Braga, ex-presidente do Bradesco e dono
do banco Icatu.
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