Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Esporte
A onda é das meninas

Brasileiras brilham no circuito mundial
e transformam o surfe em ganha-pão


André Fontenelle

Com a vitória da catarinense Jacqueline Silva na etapa australiana do circuito internacional de surfe, no mês passado, pela primeira vez uma brasileira é a número 1 do mundo nesse esporte. O Brasil tem duas surfistas entre as dezessete que compõem a nata do circuito feminino. Só a Austrália e os Estados Unidos superam o país no total de atletas de ponta. Outras brasileiras são aspirantes a uma vaga nessa elite em 2005.

A presença feminina em campeonatos de surfe limitava-se, até algum tempo atrás, a tietes em biquínis sumários. Às garotas parecia reservado, no máximo, o bodyboarding, modalidade em que a atleta enfrenta as ondas geralmente deitada sobre uma prancha mais curta que a de surfe. Contavam-se nos dedos as que se arriscavam no surfe tradicional. Por essa razão as brasileiras que agora se destacam nesse esporte começaram competindo contra meninos. Outro ponto em comum: todas passaram a infância à beira do mar e têm origem modesta.

Os pais de Jacqueline, uma telefonista e um fiscal de ônibus, escondiam da filha os empréstimos que tomavam para bancar sua carreira. "Se soubesse disso na época, teria desistido", diz a atleta de 24 anos. A outra brasileira do circuito mundial, Tita Tavares, cearense de 28 anos, começou surfando sobre tábuas em Fortaleza. Silvana Lima, de 19 anos, também cearense e uma das trinta melhores do mundo em 2003, dormia nos fundos do restaurante onde a mãe cozinhava, em Paracuru. A família da paulista Suelen Naraísa, também de 19 anos, tinha um quiosque em frente à praia, em Ubatuba. Suelen superou um câncer no rim antes de se tornar a terceira melhor surfista do país.

Daniela Picoral
Tita, Suelen e Silvana: infância à beira-mar e origem familiar modesta


O que abriu às meninas a perspectiva de fazer carreira internacional foi o paulatino surgimento de provas profissionais no país, no fim dos anos 90. Os prêmios ainda são baixos – em torno de 5 000 reais para a campeã de uma competição importante, total que mal paga o investimento em equipamento e viagens. Os homens ganham pelo menos o dobro. Mas isso já criou o estímulo para as melhores se dedicarem integralmente ao esporte. "Consegui comprar uma casa para minha mãe", conta Silvana Lima, que acumulou alguns prêmios em dólares fora do Brasil. Patrocínios, para as moças, são raros e intermitentes.

Para continuar a competir neste ano, Tita Tavares teve de vender a perua Parati que ganhou em 2003 ao vencer o circuito nacional. "Tenho de me dar bem a qualquer custo", diz. Para participar da próxima etapa do mundial, na semana que vem, nas Ilhas Fiji, no Pacífico Sul, Jacqueline vai gastar, só com passagens aéreas, um terço dos 10 000 dólares que ganhou na Austrália. Esse tipo de dificuldade nem de longe desanima as novas vocações femininas do surfe. Um torneio em Ubatuba, na semana passada, reuniu 150 inscritas.

 
 
 
 
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