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Esporte
A
onda é das meninas
Brasileiras
brilham no circuito mundial
e transformam o surfe em ganha-pão

André
Fontenelle
Com
a vitória da catarinense Jacqueline Silva na etapa australiana
do circuito internacional de surfe, no mês passado, pela primeira
vez uma brasileira é a número 1 do mundo nesse esporte.
O Brasil tem duas surfistas entre as dezessete que compõem
a nata do circuito feminino. Só a Austrália e os Estados
Unidos superam o país no total de atletas de ponta. Outras
brasileiras são aspirantes a uma vaga nessa elite em 2005.
A
presença feminina em campeonatos de surfe limitava-se, até
algum tempo atrás, a tietes em biquínis sumários.
Às garotas parecia reservado, no máximo, o bodyboarding,
modalidade em que a atleta enfrenta as ondas geralmente deitada
sobre uma prancha mais curta que a de surfe. Contavam-se nos dedos
as que se arriscavam no surfe tradicional. Por essa razão
as brasileiras que agora se destacam nesse esporte começaram
competindo contra meninos. Outro ponto em comum: todas passaram
a infância à beira do mar e têm origem modesta.
Os
pais de Jacqueline, uma telefonista e um fiscal de ônibus,
escondiam da filha os empréstimos que tomavam para bancar
sua carreira. "Se soubesse disso na época, teria desistido",
diz a atleta de 24 anos. A outra brasileira do circuito mundial,
Tita Tavares, cearense de 28 anos, começou surfando sobre
tábuas em Fortaleza. Silvana Lima, de 19 anos, também
cearense e uma das trinta melhores do mundo em 2003, dormia nos
fundos do restaurante onde a mãe cozinhava, em Paracuru.
A família da paulista Suelen Naraísa, também
de 19 anos, tinha um quiosque em frente à praia, em Ubatuba.
Suelen superou um câncer no rim antes de se tornar a terceira
melhor surfista do país.
Daniela Picoral
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| Tita,
Suelen e Silvana: infância à beira-mar e origem familiar modesta
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O que abriu às meninas a perspectiva de fazer carreira internacional
foi o paulatino surgimento de provas profissionais no país,
no fim dos anos 90. Os prêmios ainda são baixos
em torno de 5 000 reais para a campeã de uma competição
importante, total que mal paga o investimento em equipamento e viagens.
Os homens ganham pelo menos o dobro. Mas isso já criou o
estímulo para as melhores se dedicarem integralmente ao esporte.
"Consegui comprar uma casa para minha mãe", conta Silvana
Lima, que acumulou alguns prêmios em dólares fora do
Brasil. Patrocínios, para as moças, são raros
e intermitentes.
Para
continuar a competir neste ano, Tita Tavares teve de vender a perua
Parati que ganhou em 2003 ao vencer o circuito nacional. "Tenho
de me dar bem a qualquer custo", diz. Para participar da próxima
etapa do mundial, na semana que vem, nas Ilhas Fiji, no Pacífico
Sul, Jacqueline vai gastar, só com passagens aéreas,
um terço dos 10 000 dólares que ganhou na Austrália.
Esse tipo de dificuldade nem de longe desanima as novas vocações
femininas do surfe. Um torneio em Ubatuba, na semana passada, reuniu
150 inscritas.
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