Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Idéias
O paradoxo do progresso

A classe média dos Estados Unidos e da
Europa nunca viveu tão bem. Por que
a maioria não se sente mais feliz?

A população dos países mais ricos passa por uma crise existencial: a sensação de que no passado se vivia melhor. A história e as estatísticas, no entanto, mostram que a média dos moradores dos Estados Unidos e da Europa Ocidental nunca teve uma vida tão próspera. As pessoas vivem mais, têm mais acesso à educação e, descontados os desejos mais extravagantes, realizam como nunca os sonhos de consumo. Cinqüenta anos atrás, os objetivos de uma família americana eram a casa própria, o carro na garagem e pelo menos um dos filhos na universidade. Hoje, seu estilo de vida excede essas expectativas, graças a um aumento de 50% na renda da classe média nos últimos 25 anos. O que hoje é comum – uma frota de carros na garagem, assistência médica de primeira e férias no exterior – no início do século XX era privilégio de uns poucos milionários. Há muito mais: algumas doenças letais que nos anos 50 não poupavam nem sequer os muito ricos, como a poliomielite, foram praticamente erradicadas. Apesar de todos esses avanços, os psicólogos identificam um fenômeno que tem sido chamado de "hipocondria social" ou "paradoxo do progresso": a sensação crescente de que tudo o que se conquistou com as melhorias sociais é mera ilusão.

A idéia de que um bom padrão de vida não é garantia para a realização pessoal é antiga. Há mais de 2.000 anos, o filósofo grego Aristóteles já afirmava que a felicidade se atinge pelo exercício da virtude, e não da posse. Uma pesquisa recente realizada pelo sociólogo holandês Ruut Veenhoven, da Universidade Erasmus de Roterdã, concluiu que com uma renda anual de 10.000 dólares o indivíduo tem o suficiente para uma vida confortável em qualquer país industrializado. A partir daí, como na propaganda de cartão de crédito, existem coisas – um sentido para a vida, uma paixão e amizades – que o dinheiro não pode comprar. A melancolia que contamina as sociedades ricas do século XXI é mais complexa do que a velha frase "Dinheiro não compra felicidade". O jornalista americano Gregg Easterbrook, pesquisador do Instituto Brookings, no livro O Paradoxo do Progresso: Como a Vida Melhora Enquanto as Pessoas se Sentem Pior, lançado no fim do ano passado, faz uma análise profunda do fenômeno. Para Easterbrook, se a classe média americana não está se sentindo bem, isso é culpa de uma mistura indigesta que inclui decepção com o progresso, consumismo exacerbado, falta de novos objetivos para a vida e excesso de opções. "Uma pessoa de classe média não dispõe de serviçais, mas, de modo geral, preferiria morar num subúrbio americano de hoje a viver no Palácio de Buckingham há 500 anos", disse Easterbrook a VEJA.

Por definição, o progresso pressupõe crescimento gradual do bem-estar, em direção a um objetivo idealizado. Se uma pessoa já realizou todos os seus objetivos, isso significa que atingiu a felicidade? Não, é a resposta de um estudo realizado pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Segundo ele, as pessoas julgam seu bem-estar não pela situação atual, mas pela perspectiva de melhorar de vida no futuro. Ou seja, nada como uma boa esperança para dar a sensação de felicidade. A classe média americana vive na fartura, mas não percebe que melhorou. Uma explicação pode ser encontrada num antigo ditado americano segundo o qual a maré alta levanta todos os barcos. Ou seja, quando um sobe, todos sobem juntos, e por isso perde-se a perspectiva de como era a realidade antes de a maré subir.

Insatisfeitos com o que já têm, os americanos tentam se realizar através do consumo desenfreado. Easterbrook chama isso de "síndrome dos dez martelos". Ou seja, as pessoas compram tantas coisas supérfluas que, quando precisam fincar um prego na parede, não conseguem encontrar nenhum dos nove martelos que possuem e acabam adquirindo mais um. O consumismo cria uma espécie de ansiedade pelo enriquecimento, criticada num livro recente do sociólogo americano David Callahan. Em A Cultura da Trapaça, lançado dois meses atrás nos EUA, Callahan discute a distorção ética que passou a vigorar no país nos últimos anos. "Vivemos uma cultura que privilegia a vitória acima de tudo e encoraja a desonestidade desde a escolinha infantil até a cúpula das grandes empresas. Isso piora a vida de todo o mundo", escreveu ele.

O progresso dos países desenvolvidos criou novos problemas no lugar daqueles que o avanço tecnológico ajudou a resolver. A disponibilidade de comida, por exemplo, aumentou tanto nas últimas décadas que o maior problema de saúde nos Estados Unidos é a obesidade, que atinge 65% da população. Outros problemas são mais prosaicos, mas não menos angustiantes: o telefone celular revolucionou a comunicação. Por outro lado, tornou constantes as ligações do chefe nos momentos mais impróprios. Até a liberdade, uma das maiores conquistas modernas, tem sido causa de infelicidade. Liberdade de escolher com quem se casar, onde morar e qual profissão seguir: há cinqüenta anos, tudo isso era muito mais limitado. Hoje, o excesso de caminhos a seguir é motivo de ansiedade e sessões redobradas no psicanalista.

No início do século passado, o filósofo alemão Oswald Spengler imprimiu um tom pessimista à teoria do progresso. Para ele, o progresso, como um ser vivo, passa por fases de crescimento, maturidade, decadência e morte. Impregnada pela crença nessa idéia, a população dos países ricos convive com o medo de que todo o seu belo mundo entre em colapso através de crises econômicas, calamidades naturais ou terrorismo. Esse medo é anterior até aos atentados de 11 de setembro de 2001. A queda das torres gêmeas apenas tornou esse medo mais tangível. O pessimismo que se abateu sobre a sociedade americana também pode ser percebido na preferência da população por más notícias. A explicação para isso está em Darwin e na teoria da seleção natural. Ou seja, desde os primórdios, a suspeita e o descontentamento ajudaram o ser humano a sobreviver a todo o tipo de ameaça. Contra o hábito de reclamar de barriga cheia, Easterbrook propõe um exercício coletivo a seus conterrâneos: que sejam mais gratos pelo que possuem, mais generosos com o próximo e mais otimistas com o futuro.

 
 
 
 
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