Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Conjuntura
A esperança externa

Empresas apostam mais nas exportações
do que no mercado interno


Bia Parreiras
Gerdau na fábrica do Rio de Janeiro: a recuperação será lenta


Notícias diárias sobre economia

O freio de mão ainda não foi puxado pelos industriais do país, mas há um sinal de alerta no horizonte. Os indícios de cautela são claros. Uma pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) feita com 72 sindicatos patronais de todo o país mostrou que de dezembro de 2003 até março passado as expectativas de crescimento se deterioraram. Cinco meses atrás, 57% dos empresários ouvidos pela pesquisa se diziam incertos quanto à evolução da demanda doméstica por seus produtos. Na pesquisa de março, esse número subiu para 75%. Outro sintoma vem da inapetência dos empresários por fazer grandes investimentos. Sinal disso é o fato de as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não estarem despertando tanto interesse.

A avaliação entre os empresários é que o banco conseguirá emprestar os 47 bilhões de reais que programou para o orçamento deste ano. Mas nada de novo. Os recursos deverão ser consumidos pelos empreendimentos que já saíram da gaveta há um ou dois anos. Também existe a percepção de que o dinheiro irá preferencialmente para o financiamento de reposição de equipamentos sem grandes saltos tecnológicos ou ampliações. No orçamento, o BNDES prevê que o setor de energia, a indústria de papel e celulose e a agroindústria serão alguns dos potenciais tomadores de recursos em 2004. A política industrial recém-anunciada pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, também não arrancou muitos elogios. "Não há explicação sofisticada para o momento atual. Simplesmente, não há demanda no mercado local. Isso impede investimentos de empresas que vendem seus produtos só no Brasil", diz Boris Tabacof, presidente do Conselho Superior de Economia da Fiesp e vice-presidente do conselho de administração do grupo Suzano, fabricante de papel.


Divulgação
Embarque de carros em Santos: cresce a exportação

A indústria automotiva é um exemplo de como a busca do mercado externo é vital no atual momento da economia brasileira. As montadoras tiveram no mês passado seu melhor março da história, com crescimento de 35% em vendas em relação ao mês anterior. O bom resultado se explica pela conjunção de diversos motivos. Primeiro, os pátios estavam cheios de veículos ainda com preço antigo e imposto mais baixo, resultado do último acordo de redução do IPI, que deixou de existir. Além disso, as concessionárias fizeram promoções agressivas. As montadoras projetam para dezembro uma produção 8% maior que o 1,8 milhão de unidades produzidas em 2003. O mercado externo terá um forte papel nesse crescimento, se ele vier mesmo a ocorrer. Os fabricantes mandaram para fora do país 1,6 bilhão de dólares em veículos, motores e máquinas agrícolas no primeiro trimestre deste ano. Isso significou um aumento de 60% em relação ao desempenho do mesmo período de 2003. Para o setor, a ampliação dos negócios com outros países é fruto de esforço e de acordos que reduzem impostos. Tanto que 17% de todo o parque instalado no Brasil, que é de 3,2 milhões de veículos, está atrelado às vendas externas. Sem isso, a ociosidade nas linhas de montagem seria maior que os atuais 42%.

A diminuição do poder de compra do brasileiro é uma dor sentida por quase todo o segmento empresarial. Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau, diagnostica que o mercado interno "está travado e que a recuperação leva tempo". Tanto que os investimentos futuros de sua companhia estão sendo feitos com o objetivo mais premente de atender às exportações diretas ou indiretas. Dos 2 bilhões de dólares programados para o período 2004-2007, metade será usada para aumentar a capacidade produtiva dos vários tipos de aço exportados. O outro bilhão de dólares seguirá para reforçar a fabricação de materiais usados em tratores e caminhões, por exemplo, setores que estão aquecidos pelo bom desempenho da agricultura fora do país. "Hoje, só investe quem tem atividade exportadora", disse Gerdau a VEJA.

Para tentar entender um pouco do pensamento dos donos de companhias brasileiras, a Fiesp ouviu 405 deles entre fevereiro e março deste ano. Constatou que o otimismo ainda é forte e manteve-se acima dos 60%, mesmo com o crescimento do time dos pessimistas, que pulou de 10% para 14%. Os muito confiantes dão sinais de que já não confiam tanto assim em suas expectativas para 2004. Há sessenta dias, eram 12% e, agora, somam 8%. Edward Amadeo, sócio da consultoria Tendências e ex-ministro do Trabalho no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, afirma que a política econômica aplicada em 2003 foi crucial para o país recuperar a credibilidade. Ele ressalta que agora os empresários não estão investindo pesado porque aguardam decisões do governo Lula.

Além de uma certa desconfiança institucional, muitos empresários estão atrasando investimentos simplesmente porque suas fábricas se encontram hiperdimensionadas para o mercado brasileiro. A ociosidade média é de 30% no parque produtivo. A indústria farmacêutica tem uma sobra de produção de pelo menos 40%. O empresariado vive uma expectativa de aquecimento do mercado local há pelo menos três anos. Para Claudio Vaz, diretor do departamento de economia da entidade e candidato à presidência da Fiesp, a solução está nas mãos do governo. Depende dele colocar em prática uma política que promova a geração de empregos, melhore a renda da população e derrube os juros. Mesmo com a queda de 0,25 ponto porcentual em março, o que diminuiu a taxa básica para 16,25%, o Brasil ainda ostenta a liderança global do custo do dinheiro.


 
 
 
 
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