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Conjuntura
A
esperança externa
Empresas
apostam mais nas exportações
do que no mercado interno
Bia Parreiras
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| Gerdau
na fábrica do Rio de Janeiro: a recuperação
será lenta |
O freio
de mão ainda não foi puxado pelos industriais do país,
mas há um sinal de alerta no horizonte. Os indícios
de cautela são claros. Uma pesquisa da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) feita
com 72 sindicatos patronais de todo o país mostrou que de
dezembro de 2003 até março passado as expectativas
de crescimento se deterioraram. Cinco meses atrás, 57% dos
empresários ouvidos pela pesquisa se diziam incertos quanto
à evolução da demanda doméstica por
seus produtos. Na pesquisa de março, esse número subiu
para 75%. Outro sintoma vem da inapetência dos empresários
por fazer grandes investimentos. Sinal disso é o fato de
as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) não estarem despertando
tanto interesse.
A
avaliação entre os empresários é que
o banco conseguirá emprestar os 47 bilhões de reais
que programou para o orçamento deste ano. Mas nada de novo.
Os recursos deverão ser consumidos pelos empreendimentos
que já saíram da gaveta há um ou dois anos.
Também existe a percepção de que o dinheiro
irá preferencialmente para o financiamento de reposição
de equipamentos sem grandes saltos tecnológicos ou ampliações.
No orçamento, o BNDES prevê que o setor de energia,
a indústria de papel e celulose e a agroindústria
serão alguns dos potenciais tomadores de recursos em 2004.
A política industrial recém-anunciada pelo ministro
do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, também não
arrancou muitos elogios. "Não há explicação
sofisticada para o momento atual. Simplesmente, não há
demanda no mercado local. Isso impede investimentos de empresas
que vendem seus produtos só no Brasil", diz Boris Tabacof,
presidente do Conselho Superior de Economia da Fiesp e vice-presidente
do conselho de administração do grupo Suzano, fabricante
de papel.
Divulgação
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| Embarque
de carros em Santos: cresce a exportação
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A indústria
automotiva é um exemplo de como a busca do mercado externo
é vital no atual momento da economia brasileira. As montadoras
tiveram no mês passado seu melhor março da história,
com crescimento de 35% em vendas em relação ao mês
anterior. O bom resultado se explica pela conjunção
de diversos motivos. Primeiro, os pátios estavam cheios de
veículos ainda com preço antigo e imposto mais baixo,
resultado do último acordo de redução do IPI,
que deixou de existir. Além disso, as concessionárias
fizeram promoções agressivas. As montadoras projetam
para dezembro uma produção 8% maior que o 1,8 milhão
de unidades produzidas em 2003. O mercado externo terá um
forte papel nesse crescimento, se ele vier mesmo a ocorrer. Os fabricantes
mandaram para fora do país 1,6 bilhão de dólares
em veículos, motores e máquinas agrícolas no
primeiro trimestre deste ano. Isso significou um aumento de 60%
em relação ao desempenho do mesmo período de
2003. Para o setor, a ampliação dos negócios
com outros países é fruto de esforço e de acordos
que reduzem impostos. Tanto que 17% de todo o parque instalado no
Brasil, que é de 3,2 milhões de veículos, está
atrelado às vendas externas. Sem isso, a ociosidade nas linhas
de montagem seria maior que os atuais 42%.
A
diminuição do poder de compra do brasileiro é
uma dor sentida por quase todo o segmento empresarial. Jorge Gerdau
Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau, diagnostica que o mercado
interno "está travado e que a recuperação leva
tempo". Tanto que os investimentos futuros de sua companhia estão
sendo feitos com o objetivo mais premente de atender às exportações
diretas ou indiretas. Dos 2 bilhões de dólares programados
para o período 2004-2007, metade será usada para aumentar
a capacidade produtiva dos vários tipos de aço exportados.
O outro bilhão de dólares seguirá para reforçar
a fabricação de materiais usados em tratores e caminhões,
por exemplo, setores que estão aquecidos pelo bom desempenho
da agricultura fora do país. "Hoje, só investe quem
tem atividade exportadora", disse Gerdau a VEJA.
Para
tentar entender um pouco do pensamento dos donos de companhias brasileiras,
a Fiesp ouviu 405 deles entre fevereiro e março deste ano.
Constatou que o otimismo ainda é forte e manteve-se acima
dos 60%, mesmo com o crescimento do time dos pessimistas, que pulou
de 10% para 14%. Os muito confiantes dão sinais de que já
não confiam tanto assim em suas expectativas para 2004. Há
sessenta dias, eram 12% e, agora, somam 8%. Edward Amadeo, sócio
da consultoria Tendências e ex-ministro do Trabalho no segundo
mandato de Fernando Henrique Cardoso, afirma que a política
econômica aplicada em 2003 foi crucial para o país
recuperar a credibilidade. Ele ressalta que agora os empresários
não estão investindo pesado porque aguardam decisões
do governo Lula.
Além
de uma certa desconfiança institucional, muitos empresários
estão atrasando investimentos simplesmente porque suas fábricas
se encontram hiperdimensionadas para o mercado brasileiro. A ociosidade
média é de 30% no parque produtivo. A indústria
farmacêutica tem uma sobra de produção de pelo
menos 40%. O empresariado vive uma expectativa de aquecimento do
mercado local há pelo menos três anos. Para Claudio
Vaz, diretor do departamento de economia da entidade e candidato
à presidência da Fiesp, a solução está
nas mãos do governo. Depende dele colocar em prática
uma política que promova a geração de empregos,
melhore a renda da população e derrube os juros. Mesmo
com a queda de 0,25 ponto porcentual em março, o que diminuiu
a taxa básica para 16,25%, o Brasil ainda ostenta a liderança
global do custo do dinheiro.
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