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E
todos esses enganos
terminaram em um
grande atoleiro
Reuters
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A
REBELIÃO NAS RUAS
Manifestante comemora, com cartaz do clérigo xiita Moqtada Sadr,
a destruição de veículo do Exército americano num bairro xiita
de Bagdá |
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A situação no Iraque atingiu na semana passada um
ponto de ebulição alto o suficiente para desmanchar
quase todas as conquistas obtidas com a deposição
de Saddam Hussein, há um ano. Durante toda a semana, os soldados
americanos e seus aliados lutaram ao mesmo tempo contra insurgentes
pertencentes às duas grandes correntes muçulmanas
do país, os sunitas e os xiitas. Em alguns pontos do Iraque,
houve sinais de que sunitas e xiitas, eternos inimigos, haviam se
unido contra o invasor ocidental. Caso essa união se confirme
e ela se aprofunde, simplesmente o jogo estará perdido para
os americanos. Até agora os Estados Unidos tinham a apresentar
ao mundo o fato de a maioria xiita ser relativamente neutra quanto
à presença ocidental no país. Quanto aos sunitas,
eles estavam sendo conquistados aos poucos pela força das
armas e do convencimento. Agora os americanos estão se perguntando,
afinal, quem são seus amigos no Iraque. A resposta na semana
passada era simples: ninguém. Essa situação
os deixou na embaraçosa posição de ter de pensar
em um plano B para a ocupação sem nunca ter tido sequer
um plano A.
O
presidente George W. Bush anunciou publicamente pela primeira vez
sua intenção de derrubar o ditador Saddam Hussein
em fevereiro de 2002, cinco meses depois do ataque terrorista de
11 de setembro. Os Estados Unidos já tinham acabado com o
regime talibã e destruído as bases de Osama bin Laden
no Afeganistão. O plano de destituir o ditador iraquiano
tinha lá sua lógica. O regime de Saddam era decrépito,
cruel e vingativo. Havia informações de que o ditador
mantinha intatos seus programas de produção de armas
de destruição em massa. Se continuasse no poder, é
bem possível que cedesse à tentação
de usar esse arsenal em algum megatentado terrorista contra o Ocidente.
Vista sob a perspectiva do que se descobriu no Iraque, a ameaça
representada por Saddam nunca passou de uma hipótese. Dois
dias após os atentados de 11 de setembro, o presidente americano
encomendou ao Pentágono estudos profundos para a invasão
do Iraque. O que intriga agora é como não se previram
as dificuldades que começariam a surgir depois da tomada
de Bagdá e não se planejou com antecedência
cada passo da aventura, de modo a evitar que ela desembocasse no
pesadelo da semana passada.
Bush
procurou vender ao mundo um grande plano de paz e prosperidade para
o Oriente Médio. Livre da tirania de Saddam, o Iraque em
poucos anos se tornaria um modelo de democracia e das vantagens
da economia de mercado. Uma região inteira seria, então,
atraída para esse estilo luminoso de civilização.
O perigo agora é que essa teoria dos dominós realmente
funcione, mas com os sinais trocados. Que, em lugar de democracia,
tolerância e desenvolvimento, se veja o fortalecimento do
fundamentalismo islâmico, do terrorismo e do antiamericanismo.
Antes da invasão, temia-se a eclosão de uma guerra
civil entre xiitas e sunitas. Muitos especialistas acreditavam que
só a mão pesada de Saddam impedia que as comunidades
antagônicas pulassem uma no pescoço da outra. Nesse
aspecto, o governo Bush pode ter ajudado a unir essas duas facções
iraquianas na luta contra um inimigo comum, os Estados Unidos. O
fato de as tropas americanas estarem sob o ataque simultâneo
de muçulmanos xiitas e sunitas, com a ajuda de árabes
vindos de outros países, é ironicamente o mais próximo
que se chegou da concretização da guerra santa islâmica
pregada por Osama bin Laden.
A
pendenga com Saddam vinha da Guerra do Golfo, em 1991. O ditador
invadiu o Kuwait numa tentativa de se apossar de suas reservas de
petróleo, das maiores que existem. O mundo mergulhou numa
nova crise do petróleo e os emires e reis do Golfo Pérsico
pediram socorro aos Estados Unidos. George Bush, pai do atual presidente
americano, liderou uma coalizão internacional que expulsou
do Kuwait as tropas de Saddam. Uma das razões para não
avançar até Bagdá e depor o ditador foi exatamente
o temor de que uma rebelião entre a maioria xiita levasse
à criação de um clone da teocracia xiita existente
no vizinho Irã. Figurões no governo Bush pai e de
volta ao poder com Bush filho, o vice-presidente Dick Cheney, o
secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o subsecretário
de Defesa, Paul Wolfowitz, continuavam obcecados pela idéia
de acertar contas com Saddam.
O
Iraque tornou-se a cristalização da doutrina de ataque
preventivo elaborada no governo Bush. O pretexto foi fornecido pelo
comportamento ambíguo de Saddam. Se impedia o trabalho dos
inspetores da ONU, cuja missão era conferir se o Iraque havia
realmente destruído seu arsenal proibido, podia-se concluir
que tinha o que esconder. É de esperar que o governo da superpotência
americana seja mais bem informado e tenha capacidade de análise
superior à dos outros países. Ao que parece, a Casa
Branca deu menos importância aos dados existentes e preferiu
acreditar mais nos conselhos duvidosos de gente dominada por aquilo
que a esquerda brasileira chama de "vontade política", contra
a qual de pouco valor são os fatos reais. Sabe-se agora que
os relatórios sobre a existência do arsenal iraquiano
eram baseados em informações desatualizadas e de segunda
mão. O primeiro escalão cuidava de privilegiar os
informes mais alarmistas para reforçar o argumento de que
Saddam representava um perigo para o mundo. Opiniões contrárias
levantadas por agentes da CIA, o serviço secreto americano,
foram ignoradas.
Nesse
universo caolho tem lugar de destaque a figura nebulosa de Ahmad
Chalabi, chefe de um movimento iraquiano no exílio. Condenado
à revelia na Jordânia por fraude bancária, Chalabi
ficou 45 anos sem pisar no Iraque e não tem vínculos
com as lideranças que surgiram no país durante esse
tempo. Na década passada, a CIA tentou usá-lo num
plano para derrubar Saddam. Desistiu por considerá-lo incontrolável.
Atualmente, com a lavagem de roupa suja dentro do governo Bush e
cada um empurrando para o outro a responsabilidade pela aventura
iraquiana, Chalabi é acusado de ter abastecido o Pentágono
com relatórios exagerados ou falsificados de desertores sobre
as armas de destruição em massa de Saddam.
Reuters
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REPRESÁLIAS
E SEQÜESTROS
Corpos de iraquianos mortos em ofensiva americana são levados
para mesquita em Falluja (ao lado) e vídeo mostra civis
japoneses seqüestrados e ameaçados de morte por insurgentes
iraquianos (abaixo) |
AP
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É
ocioso discutir se o governo Bush acreditou nas informações
de Chalabi ou se apenas as usou para cimentar sua decisão
de invadir o Iraque. O certo é que, como numa quadrilha de
festa junina, Chalabi convenceu Rumsfeld, este convenceu Cheney,
que vendeu a idéia a Bush. Uns poucos países se deixaram
convencer a aderir. Exceto pela Inglaterra de Tony Blair, os demais
contribuíram com tropas simbólicas. Por bastante tempo
Chalabi foi o iraquiano de estimação de Rumsfeld.
Pode-se dizer que era o único que a turma pró-guerra
dispunha para demonstrar que os Estados Unidos tinham aliados iraquianos.
De certa forma, isso continua valendo. Ele é um membro proeminente
do governo provisório instalado pelos americanos em Bagdá,
apesar de nitidamente impopular no país. É provável
que neste momento a maioria dos iraquianos esteja apenas tentando
salvar a própria pele e sobreviver ao caos. Mas, como escreveu
o jornal New York Times em editorial, "não há
desculpas para a passividade do conselho de governo do Iraque, a
começar por seu membro mais influente, Ahmad Chalabi, o antigo
exilado que deve aos Estados Unidos sua vida política no
novo Iraque". O argumento do mais influente jornal americano não
é o de que o banqueiro não tem influência alguma
sobre sunitas ou xiitas, mas, sim, o que sua impotência sinaliza:
Washington não deve esperar muito do governo iraquiano depois
de lhe entregar o controle do Iraque, transferência prevista
para ocorrer em 30 de junho. A princípio, os iraquianos devem
eleger um Parlamento em janeiro, com o objetivo de escrever uma
nova Constituição.
Na
semana passada, o senador Ted Kennedy, líder da oposição
democrata, verbalizou o maior temor dos americanos: "O Iraque é
o Vietnã de Bush". O colunista americano Thomas Friedman,
do New York Times, num artigo em que analisa em profundidade
a hipótese de se estar reeditando no Oriente Médio
um conflito com as feições da guerra perdida no Sudeste
Asiático, diz que a analogia não é correta.
A principal diferença, no seu entender, é a falta
de um equivalente do Vietcong, a guerrilha comunista vietnamita.
Não há ainda no Iraque um grupo de insurgentes que
possa ser considerado a expressão autêntica do povo
iraquiano. O principal foco de resistência ocorre na comunidade
sunita, que quer restaurar os privilégios que usufruía
no regime de Saddam. Outros inimigos dos americanos são os
grupos ultraconservadores que detestam qualquer perspectiva de modernidade,
pluralismo e secularização no Iraque. Mais complicado
é entender por que os xiitas estão em guerra aberta
contra uma força militar estrangeira que, em última
análise, está lá para libertá-los da
opressão centenária.
Moqtada
Sadr, o líder nominal da rebelião, é figura
do escalão inferior da hierarquia xiita, mas que herdou o
prestígio do pai, um famoso aiatolá assassinado por
Saddam. Desde o primeiro momento ele se opõe à presença
americana e se propõe a criar uma república islâmica
nos moldes do vizinho Irã, de onde recebe apoio e dinheiro.
A chave da paz ainda está nas mãos do poderoso clero
xiita, o que mais se beneficiou da invasão e não vê
com bons olhos as ousadias de Sadr. O grande aiatolá Ali
Sistani, a mais respeitada autoridade religiosa do xiismo iraquiano,
parece disposto a esperar para ver no que vai dar o confronto nas
ruas. A Casa Branca reluta em admitir que está diante de
uma insurreição generalizada no Iraque. Insiste que
enfrenta apenas alguns grupos de descontentes e que as pesquisas
de opinião pública mostram que a maioria dos iraquianos
considera viver melhor agora que no regime de Saddam. "Pesquisas
de opinião pública não vencem guerras", escreveu
Thomas Friedman, "e sim aqueles dispostos a lutar e morrer por sua
causa".
Em
sua análise, o colunista observa que os americanos enfrentam
uma guerra urbana, daquelas em que é preciso lutar de casa
em casa, o tipo de confronto que só os iraquianos podem vencer.
Se usar seu imensurável poder de fogo dentro de uma cidade
como Falluja, que durante toda a semana resistiu ao assédio
dos fuzileiros navais, o Exército americano iria matar uma
quantidade tão grande de pessoas inocentes que mais iraquianos
iriam se unir à insurreição. "Nós temos
de destruir a aldeia para salvá-la" é uma frase ouvida
pelo jornalista neozelandês Peter Arnett de um militar americano
no Vietnã, durante a ofensiva do Tet, em 1968. Transformada
num bordão contra a guerra, essa doutrina ajudou a destruir
o moral americano no Sudeste Asiático. O Pentágono
não pode se dar ao luxo de repetir tal paradoxo no Iraque.
Não há saída fácil. Se forem embora,
deixando para trás um país mergulhado na confusão,
o efeito desestabilizador será sentido em todo o Oriente
Médio. Friedman aconselha os Estados Unidos a buscar o apoio
internacional (que Bush menosprezou ao invadir praticamente sozinho
o Iraque) e cimentar uma aliança com os iraquianos dispostos
a enfrentar seus radicais e a reconstruir o país. Talvez
seja tarde demais.
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