Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Iraque
Fotos AFP, Reuters, WhiteHouse/SusanSterner, AP
Chalab enganou...
...Rumsfeld, que enganou...
...Cheney, que enganou...
...Bush, que enganou o mundo.

E todos esses enganos
terminaram em um
grande atoleiro


Reuters
A REBELIÃO NAS RUAS
Manifestante comemora, com cartaz do clérigo xiita Moqtada Sadr, a destruição de veículo do Exército americano num bairro xiita de Bagdá
Notícias diárias sobre Iraque


A situação no Iraque atingiu na semana passada um ponto de ebulição alto o suficiente para desmanchar quase todas as conquistas obtidas com a deposição de Saddam Hussein, há um ano. Durante toda a semana, os soldados americanos e seus aliados lutaram ao mesmo tempo contra insurgentes pertencentes às duas grandes correntes muçulmanas do país, os sunitas e os xiitas. Em alguns pontos do Iraque, houve sinais de que sunitas e xiitas, eternos inimigos, haviam se unido contra o invasor ocidental. Caso essa união se confirme e ela se aprofunde, simplesmente o jogo estará perdido para os americanos. Até agora os Estados Unidos tinham a apresentar ao mundo o fato de a maioria xiita ser relativamente neutra quanto à presença ocidental no país. Quanto aos sunitas, eles estavam sendo conquistados aos poucos pela força das armas e do convencimento. Agora os americanos estão se perguntando, afinal, quem são seus amigos no Iraque. A resposta na semana passada era simples: ninguém. Essa situação os deixou na embaraçosa posição de ter de pensar em um plano B para a ocupação sem nunca ter tido sequer um plano A.

O presidente George W. Bush anunciou publicamente pela primeira vez sua intenção de derrubar o ditador Saddam Hussein em fevereiro de 2002, cinco meses depois do ataque terrorista de 11 de setembro. Os Estados Unidos já tinham acabado com o regime talibã e destruído as bases de Osama bin Laden no Afeganistão. O plano de destituir o ditador iraquiano tinha lá sua lógica. O regime de Saddam era decrépito, cruel e vingativo. Havia informações de que o ditador mantinha intatos seus programas de produção de armas de destruição em massa. Se continuasse no poder, é bem possível que cedesse à tentação de usar esse arsenal em algum megatentado terrorista contra o Ocidente. Vista sob a perspectiva do que se descobriu no Iraque, a ameaça representada por Saddam nunca passou de uma hipótese. Dois dias após os atentados de 11 de setembro, o presidente americano encomendou ao Pentágono estudos profundos para a invasão do Iraque. O que intriga agora é como não se previram as dificuldades que começariam a surgir depois da tomada de Bagdá e não se planejou com antecedência cada passo da aventura, de modo a evitar que ela desembocasse no pesadelo da semana passada.

Bush procurou vender ao mundo um grande plano de paz e prosperidade para o Oriente Médio. Livre da tirania de Saddam, o Iraque em poucos anos se tornaria um modelo de democracia e das vantagens da economia de mercado. Uma região inteira seria, então, atraída para esse estilo luminoso de civilização. O perigo agora é que essa teoria dos dominós realmente funcione, mas com os sinais trocados. Que, em lugar de democracia, tolerância e desenvolvimento, se veja o fortalecimento do fundamentalismo islâmico, do terrorismo e do antiamericanismo. Antes da invasão, temia-se a eclosão de uma guerra civil entre xiitas e sunitas. Muitos especialistas acreditavam que só a mão pesada de Saddam impedia que as comunidades antagônicas pulassem uma no pescoço da outra. Nesse aspecto, o governo Bush pode ter ajudado a unir essas duas facções iraquianas na luta contra um inimigo comum, os Estados Unidos. O fato de as tropas americanas estarem sob o ataque simultâneo de muçulmanos xiitas e sunitas, com a ajuda de árabes vindos de outros países, é ironicamente o mais próximo que se chegou da concretização da guerra santa islâmica pregada por Osama bin Laden.

A pendenga com Saddam vinha da Guerra do Golfo, em 1991. O ditador invadiu o Kuwait numa tentativa de se apossar de suas reservas de petróleo, das maiores que existem. O mundo mergulhou numa nova crise do petróleo e os emires e reis do Golfo Pérsico pediram socorro aos Estados Unidos. George Bush, pai do atual presidente americano, liderou uma coalizão internacional que expulsou do Kuwait as tropas de Saddam. Uma das razões para não avançar até Bagdá e depor o ditador foi exatamente o temor de que uma rebelião entre a maioria xiita levasse à criação de um clone da teocracia xiita existente no vizinho Irã. Figurões no governo Bush pai e de volta ao poder com Bush filho, o vice-presidente Dick Cheney, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz, continuavam obcecados pela idéia de acertar contas com Saddam.

O Iraque tornou-se a cristalização da doutrina de ataque preventivo elaborada no governo Bush. O pretexto foi fornecido pelo comportamento ambíguo de Saddam. Se impedia o trabalho dos inspetores da ONU, cuja missão era conferir se o Iraque havia realmente destruído seu arsenal proibido, podia-se concluir que tinha o que esconder. É de esperar que o governo da superpotência americana seja mais bem informado e tenha capacidade de análise superior à dos outros países. Ao que parece, a Casa Branca deu menos importância aos dados existentes e preferiu acreditar mais nos conselhos duvidosos de gente dominada por aquilo que a esquerda brasileira chama de "vontade política", contra a qual de pouco valor são os fatos reais. Sabe-se agora que os relatórios sobre a existência do arsenal iraquiano eram baseados em informações desatualizadas e de segunda mão. O primeiro escalão cuidava de privilegiar os informes mais alarmistas para reforçar o argumento de que Saddam representava um perigo para o mundo. Opiniões contrárias levantadas por agentes da CIA, o serviço secreto americano, foram ignoradas.

Nesse universo caolho tem lugar de destaque a figura nebulosa de Ahmad Chalabi, chefe de um movimento iraquiano no exílio. Condenado à revelia na Jordânia por fraude bancária, Chalabi ficou 45 anos sem pisar no Iraque e não tem vínculos com as lideranças que surgiram no país durante esse tempo. Na década passada, a CIA tentou usá-lo num plano para derrubar Saddam. Desistiu por considerá-lo incontrolável. Atualmente, com a lavagem de roupa suja dentro do governo Bush e cada um empurrando para o outro a responsabilidade pela aventura iraquiana, Chalabi é acusado de ter abastecido o Pentágono com relatórios exagerados ou falsificados de desertores sobre as armas de destruição em massa de Saddam.

 
Reuters
REPRESÁLIAS E SEQÜESTROS
Corpos de iraquianos mortos em ofensiva americana são levados para mesquita em Falluja (ao lado) e vídeo mostra civis japoneses seqüestrados e ameaçados de morte por insurgentes iraquianos (abaixo)
AP

É ocioso discutir se o governo Bush acreditou nas informações de Chalabi ou se apenas as usou para cimentar sua decisão de invadir o Iraque. O certo é que, como numa quadrilha de festa junina, Chalabi convenceu Rumsfeld, este convenceu Cheney, que vendeu a idéia a Bush. Uns poucos países se deixaram convencer a aderir. Exceto pela Inglaterra de Tony Blair, os demais contribuíram com tropas simbólicas. Por bastante tempo Chalabi foi o iraquiano de estimação de Rumsfeld. Pode-se dizer que era o único que a turma pró-guerra dispunha para demonstrar que os Estados Unidos tinham aliados iraquianos. De certa forma, isso continua valendo. Ele é um membro proeminente do governo provisório instalado pelos americanos em Bagdá, apesar de nitidamente impopular no país. É provável que neste momento a maioria dos iraquianos esteja apenas tentando salvar a própria pele e sobreviver ao caos. Mas, como escreveu o jornal New York Times em editorial, "não há desculpas para a passividade do conselho de governo do Iraque, a começar por seu membro mais influente, Ahmad Chalabi, o antigo exilado que deve aos Estados Unidos sua vida política no novo Iraque". O argumento do mais influente jornal americano não é o de que o banqueiro não tem influência alguma sobre sunitas ou xiitas, mas, sim, o que sua impotência sinaliza: Washington não deve esperar muito do governo iraquiano depois de lhe entregar o controle do Iraque, transferência prevista para ocorrer em 30 de junho. A princípio, os iraquianos devem eleger um Parlamento em janeiro, com o objetivo de escrever uma nova Constituição.

Na semana passada, o senador Ted Kennedy, líder da oposição democrata, verbalizou o maior temor dos americanos: "O Iraque é o Vietnã de Bush". O colunista americano Thomas Friedman, do New York Times, num artigo em que analisa em profundidade a hipótese de se estar reeditando no Oriente Médio um conflito com as feições da guerra perdida no Sudeste Asiático, diz que a analogia não é correta. A principal diferença, no seu entender, é a falta de um equivalente do Vietcong, a guerrilha comunista vietnamita. Não há ainda no Iraque um grupo de insurgentes que possa ser considerado a expressão autêntica do povo iraquiano. O principal foco de resistência ocorre na comunidade sunita, que quer restaurar os privilégios que usufruía no regime de Saddam. Outros inimigos dos americanos são os grupos ultraconservadores que detestam qualquer perspectiva de modernidade, pluralismo e secularização no Iraque. Mais complicado é entender por que os xiitas estão em guerra aberta contra uma força militar estrangeira que, em última análise, está lá para libertá-los da opressão centenária.

Moqtada Sadr, o líder nominal da rebelião, é figura do escalão inferior da hierarquia xiita, mas que herdou o prestígio do pai, um famoso aiatolá assassinado por Saddam. Desde o primeiro momento ele se opõe à presença americana e se propõe a criar uma república islâmica nos moldes do vizinho Irã, de onde recebe apoio e dinheiro. A chave da paz ainda está nas mãos do poderoso clero xiita, o que mais se beneficiou da invasão e não vê com bons olhos as ousadias de Sadr. O grande aiatolá Ali Sistani, a mais respeitada autoridade religiosa do xiismo iraquiano, parece disposto a esperar para ver no que vai dar o confronto nas ruas. A Casa Branca reluta em admitir que está diante de uma insurreição generalizada no Iraque. Insiste que enfrenta apenas alguns grupos de descontentes e que as pesquisas de opinião pública mostram que a maioria dos iraquianos considera viver melhor agora que no regime de Saddam. "Pesquisas de opinião pública não vencem guerras", escreveu Thomas Friedman, "e sim aqueles dispostos a lutar e morrer por sua causa".

Em sua análise, o colunista observa que os americanos enfrentam uma guerra urbana, daquelas em que é preciso lutar de casa em casa, o tipo de confronto que só os iraquianos podem vencer. Se usar seu imensurável poder de fogo dentro de uma cidade como Falluja, que durante toda a semana resistiu ao assédio dos fuzileiros navais, o Exército americano iria matar uma quantidade tão grande de pessoas inocentes que mais iraquianos iriam se unir à insurreição. "Nós temos de destruir a aldeia para salvá-la" é uma frase ouvida pelo jornalista neozelandês Peter Arnett de um militar americano no Vietnã, durante a ofensiva do Tet, em 1968. Transformada num bordão contra a guerra, essa doutrina ajudou a destruir o moral americano no Sudeste Asiático. O Pentágono não pode se dar ao luxo de repetir tal paradoxo no Iraque. Não há saída fácil. Se forem embora, deixando para trás um país mergulhado na confusão, o efeito desestabilizador será sentido em todo o Oriente Médio. Friedman aconselha os Estados Unidos a buscar o apoio internacional (que Bush menosprezou ao invadir praticamente sozinho o Iraque) e cimentar uma aliança com os iraquianos dispostos a enfrentar seus radicais e a reconstruir o país. Talvez seja tarde demais.

 
 
 
 
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