Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Rio de Janeiro
Câmeras, ação!

O show de novas versões para assassinato
no Rio expõe trapalhadas da polícia fluminense

O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, inaugurou em sua gestão uma nova modalidade de espetáculo televisivo: o reality show da segurança pública. Nele, as cenas de investigação de um crime são exibidas quase em tempo real. A cada pista, um capítulo. A cada passo, uma manchete. O episódio de maior audiência deu-se há duas semanas. Foi no caso Zera Todd e Michelle Staheli, o casal americano morto a pancadas enquanto dormia, em novembro passado, em sua casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A captura do suposto culpado, o caseiro Jossiel Conceição dos Santos, 20 anos, ganhou ares de superprodução. Garotinho e sua equipe providenciaram uma entrevista coletiva com Jossiel, que confessara o crime. O secretário, sob os holofotes, interrogou-o pessoalmente e obteve nova confissão, desta vez pública. A prisão foi executada pelos seguranças do condomínio quando Jossiel tentava pular o muro de uma das casas. O que de mais complexo a polícia do Rio de Janeiro fez foi providenciar o helicóptero para que Jossiel fosse apresentado à imprensa sem atrasos. Na semana passada, o caseiro promoveu um constrangedor festival de novas versões, deixando a polícia fluminense aturdida e sem ação.

A entrada em cena de Jossiel trouxera alívio à angústia de uma investigação que se arrastava desde novembro do ano passado. A demora foi especialmente constrangedora porque cada nova pista era anunciada como a ante-sala da elucidação do caso. Quando não se tinha mais esperança de esclarecê-lo, Jossiel apareceu. Câmeras nele! Não fica bem para um ex-governador, que se prepara para sua segunda candidatura à Presidência da República, ver posta em xeque sua eficiência no cargo de secretário estadual de Segurança. Quando, há um ano, ele se empenhou na tarefa de resolver a violência que se instalou no Rio de Janeiro e assumiu a secretaria, viu-se em sua atitude uma lição de ousadia política. Aguarda-se o resultado da empreitada. De concreto, até agora, só a lição de que o exibicionismo é filho da simulação de competência.

 

Os erros do Sherlock Garotinho

Sob o comando do secretário de Segurança Anthony Garotinho, em quase cinco meses a polícia fluminense andou às cegas no caso. Chegou a divulgar dezesseis diferentes linhas de investigação para o assassinato. Veja algumas das mancadas.

Praticamente todas as pessoas que mantinham relações com o casal morto foram apontadas pela polícia como suspeitas, da empregada e do motorista que trabalhavam na casa à filha mais velha, de apenas 13 anos. Nada ficou provado contra nenhuma delas.

A hipótese de motivação profissional, também levantada por Garotinho, nunca levou a uma pista confiável.

As casas vizinhas à residência do casal Staheli nunca foram revistadas. O caseiro Jossiel Conceição dos Santos trabalhava em uma delas.

A polícia também não fez buscas de vestígios de sangue no lado externo da casa do executivo assassinado. Jossiel disse ter lavado as mãos, após o crime, em um tanque localizado nesta área.

Garotinho apresentou o suposto assassino confesso como se estivesse em um show para as câmeras de televisão, com direito a perguntas ao caseiro. No dia seguinte, Jossiel disse que tinha sido apenas um cúmplice. E Garotinho culpou a polícia pelo vexame.

 

 
 
 
 
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