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Diplomacia
Uma
questão de transparência
A
recusa brasileira em autorizar inspeção
de fábrica de urânio no Rio gera desconfiança
e
lança novas suspeitas de heterodoxia na
condução da política nuclear nacional

Marcelo
Carneiro e Ronaldo França
Não
se trata de nacionalismo exacerbado, proteção da soberania
nem defesa de segredos tecnológicos. O governo brasileiro
tem motivos bem menos sublimes para evitar assinar um documento
que autoriza a inspeção plena de suas instalações
nucleares por técnicos da Agência Internacional de
Energia Atômica (Aiea), órgão das Nações
Unidas. O documento, que se intitula Protocolo Adicional de Salvaguardas
da Aiea, permite aos técnicos examinar o maquinário
utilizado na produção de urânio enriquecido,
material que serve de combustível para as usinas nucleares
e, quando purificado a 95%, para a produção de bombas
atômicas. O motivo principal para barrar o acesso dos técnicos
estrangeiros às instalações nucleares brasileiras
é o fato de os responsáveis pelos projetos no Brasil
terem, em diversas oportunidades, recorrido a expedientes pouco
ortodoxos para obter equipamentos no mercado externo. Um ex-integrante
do primeiro escalão do governo federal que teve sob seu comando
o programa nuclear brasileiro revelou a VEJA que parte do equipamento
da construção das centrífugas de purificação
do urânio, objeto específico da inspeção
da Aiea, foi conseguida de maneira não totalmente transparente.
Revelar agora a existência desses equipamentos em operação
no Brasil e esclarecer para que fins estão sendo utilizados
traria constrangimento aos fornecedores estrangeiros e cortaria
o acesso do Brasil a peças de reposição. Por
essa razão, decidiu-se manter os técnicos da Aiea
longe das centrífugas brasileiras.
É
certo que o Brasil desenvolveu uma tecnologia própria de
enriquecimento de urânio. No mundo inteiro, apenas onze países
dominam o processo de enriquecimento do metal, que é feito
a partir de dois tipos de tecnologia atualmente em uso. Um deles
é a difusão gasosa, adotada em escala industrial pela
França e pelos Estados Unidos e no estágio embrionário
pela Argentina. O outro método é o da ultracentrifugação.
O Brasil utiliza o segundo método, juntamente com outros
sete países. Não se sabe ao certo, mas os técnicos
brasileiros teriam produzido uma forma de diminuir o atrito nas
centrífugas e, assim, aumentar a eficiência e a durabilidade
das máquinas. A tese oficial brasileira é que o método
adotado nos EUA, o da difusão gasosa, teria chegado a seu
limite máximo de desenvolvimento. Essa seria a razão
pela qual os americanos estariam cobiçando a tecnologia brasileira
de enriquecimento de urânio. Mesmo que não tenha desenvolvido
tecnologias bem mais simples, como uma maneira de erradicar a dengue,
ou a malária, o Brasil tem capacidade reconhecida internacionalmente
no campo nuclear. A lógica desse raciocínio se interrompe
aí. É um desvario imaginar que os técnicos
da Aiea, um órgão das Nações Unidas,
aceitariam ser manipulados pelos americanos para fazer espionagem
industrial. O nó da questão tem mesmo de ser procurado
em outro lugar.
As
autoridades militares que participaram do projeto nuclear desde
o início reconhecem que criaram esquemas pouco usuais para
adquirir as máquinas de purificação do urânio.
O almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, um dos coordenadores do
programa nuclear brasileiro até 1994, tinha, entre outras,
a responsabilidade de negociar a compra de peças para o programa
tarefa que cumpriu diversas vezes junto a fornecedores estrangeiros,
especialmente da Itália e Alemanha. Em algumas dessas ocasiões,
ele revelou a VEJA, os brasileiros mentiram aos fornecedores sobre
a finalidade da compra. Em vez de dizerem que o material se destinava
à construção de uma centrífuga para
enriquecimento de urânio, informavam que serviria para a fabricação
de aviões e foguetes. "Se não tivéssemos agido
assim, as peças sairiam muito mais caras ou a empresa seria
pressionada a não vendê-las a nós por países
que já detinham a tecnologia para enriquecimento de urânio,
como os Estados Unidos", disse Pinheiro a VEJA na quinta-feira passada.
Caso
aceite assinar o Protocolo Adicional de Salvaguardas da Aeia, o
Brasil não só estará autorizando as inspeções
plenas dos técnicos da agência mas também concordando
em entregar a lista completa dos fornecedores de todos os equipamentos
utilizados na construção das centrífugas instaladas
na cidade fluminense de Resende. O Brasil foi pressionado pelos
fornecedores alemães e italianos a não abrir suas
instalações ao escrutínio dos técnicos
da Aiea nem passar a eles a lista das peças. O poder de pressão
dos fornecedores é grande. Eles estão enfrentando
inspeções cada vez mais severas, e alguns já
receberam punições das agências reguladoras
européias por vender equipamentos sem fins específicos
que acabaram sendo usados em usinas de enriquecimento de urânio.
Com a intensificação da guerra ao terror liderada
pelos americanos, a paranóia das agências de fiscalização,
compreensivelmente, está cada vez maior.
"Sempre
houve desconfiança com relação a projetos nucleares
clandestinos. Mas até algum tempo atrás se considerava
aceitável que um governo qualquer mantivesse em segredo suas
instalações nucleares para fins pacíficos.
Hoje, a melhor maneira de não criar atrito é fazer
tudo na maior transparência possível", disse a VEJA
um técnico da ONU encarregado de inspeções
no Brasil e na Argentina. Esse técnico lembra que países
como a Índia e o Paquistão chegaram a dominar a tecnologia
de produzir bombas atômicas e seus mísseis lançadores,
escancarando todas as suas pretensões interna e externamente.
O físico nuclear Anselmo Paschoa considera a Índia
um dos melhores exemplos na condução da política
nuclear. "O país estabeleceu um projeto de nação
e incluiu a busca da energia nuclear com o consentimento da sociedade
e do mundo", afirma Paschoa. Obviamente, a janela de oportunidades
usada por Índia e Paquistão para construir a bomba
se fechou. O mundo mudou, e hoje as desconfianças são
muito maiores.
O
Brasil adotou política diametralmente oposta à seguida
pela Índia e pelo Paquistão. Desde 1975, quando fechou
um acordo com a Alemanha para a construção de centrais
nucleares de enriquecimento de urânio, o Brasil insiste em
manter uma política nuclear nublada. Mesmo quando o mundo
inteiro já sabia que o governo brasileiro sonhava em dominar
o ciclo completo da produção nuclear, que poderia
no fim levar à fabricação da bomba atômica,
o país insistia em manter o segredo de polichinelo que durou
mais de uma década. Só em setembro de 1987, quando
todas as máquinas necessárias para o enriquecimento
do urânio estavam compradas e instaladas em solo brasileiro,
o governo anunciou oficialmente ao mundo que já detinha o
conhecimento completo do ciclo nuclear. Até o governo Collor,
toda a administração do programa nuclear, incluindo
a fabulosa montanha de gastos que ele envolveu, continuava sob o
controle da Secretaria de Assuntos Estratégicos, órgão
que sucedeu o SNI. Ou seja, um programa eminentemente científico
ficou nas mãos da comunidade de informações,
com contabilidade paralela e tocado por ações clandestinas.
Só na segunda metade do governo Fernando Henrique Cardoso,
quando o embaixador Ronaldo Sardenberg se tornou ministro da Ciência
e Tecnologia, foi que as pesquisas nucleares passaram a ser subordinadas
à pasta civil.
No
mundo conturbado da guerra global contra o terrorismo, quando o
assunto é política nuclear, o melhor mesmo a fazer
é ser transparente. "Essa é uma área delicada
em que as intenções do país precisam ser absolutamente
cristalinas", afirma David Albright, físico americano. Se,
no passado, os militares desprezaram o conselho, recentemente, o
discurso do governo Lula só serviu para tornar as intenções
nucleares brasileiras ainda mais turvas aos olhos da comunidade
internacional. Durante a campanha presidencial, o então candidato
Luiz Inácio Lula da Silva, referindo-se ao Tratado de Não-Proliferação
Nuclear, saiu-se com a seguinte declaração: "Só
teria sentido se todos os países que já detêm
armas nucleares abrissem mão das suas. Ora, por que um cidadão
pede para eu me desarmar, para ficar com um estilingue, enquanto
ele fica com um canhão para cima de mim? O Brasil só
vai ser respeitado no mundo quando for forte econômica, tecnológica
e militarmente". Em seguida, foi a vez do ex-ministro Roberto Amaral.
Numa sucessão de declarações atrapalhadas,
o então titular da pasta de Ciência e Tecnologia primeiro
afirmou que o Brasil deveria dominar o conhecimento para a fabricação
da bomba atômica. Ao se recusar a garantir transparência
total em um tema que, por motivos óbvios, desperta calafrios
no mundo inteiro seja movido por temores inconfessáveis,
seja por um capricho nacionalista , o Brasil só tem
a perder. Corre o risco, entre outros, de ser retaliado em seus
interesses diplomáticos, como em seu histórico pleito
de ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da
ONU, ou ser solenemente boicotado em acordos comerciais que lhe
interessam incluindo o mercado de energia nuclear, em que
se prepara agora para entrar.
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O
elemento da discórdia
A
principal finalidade comercial do urânio é
a geração de energia elétrica.
Mas é seu uso na indústria bélica
que causa temor e está no centro do debate em
curso. São necessários apenas 25 quilos
de urânio enriquecido para a produção
de uma bomba atômica
1.
O
elemento químico urânio é um metal
encontrado em diversos minerais na natureza.É
composto principalmente de dois tipos de átomo,
o 238 e o 235. Contém 99,3% do 238 e 0,7%
do 235. Este último é o que permite
a obtenção de energia nuclear
2.
O
processo de enriquecimento é o aumento da quantidade
de átomos 235 na mistura. Quando se fala de urânio
enriquecido a 5%, o que se está dizendo
é que a mistura contém 5% de 235,
em vez do 0,7% encontrado na natureza
3.
O processo de enriquecimento consiste em retirar uma
quantidade do átomo 238, até que a mistura
tenha a proporção pretendida. O que sobra,
quase sem nenhum 235, é urânio empobrecido.
Suas principais utilizações militares
são a confecção de projéteis
e o revestimento de mísseis. Quando transformado
em metal, o urânio torna-se mais pesado que o
chumbo, pouco menos duro que o aço e se incendeia
com muita facilidade
4.
Para
a geração de energia em usinas atômicas,
basta enriquecer o urânio a partir de 2,1%.
Em Angra 2, usa-se urânio a 3,8%
5.
Utilizando-se
a mesma tecnologiade
enriquecimento, porém num processo de produção
bem mais complexo,é
possível chegar à concentração
necessária para a produção de uma
bomba atômica. Para gerar energia suficiente para
a explosão,o
urânio precisa ter 90% de concentração
do átomo 235
Fontes:
Comissão Nacional de Energia Nuclear, Indústrias
Nucleares
do Brasil e professor Aquilino Senra (Coppe/UFRJ)
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Com
reportagem de Monica Weinberg e
Sandra Brasil
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