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Justiça
Vem
aí a turma deixa-disso
Novos
presidentes dos tribunais
superiores
já selaram um pacto para
não brigar em público com o governo

Policarpo
Junior
Valdemir Cunha
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Quando elaborou sua célebre teoria da separação
dos três poderes, o barão de Montesquieu não
desconhecia que a harmonia entre eles dependia de circunstâncias
do momento. No caso brasileiro, como ensina a história recente,
a harmonia depende até mesmo do nome de seus titulares. É
por isso que o Palácio do Planalto está ansioso para
assistir ao encerramento da troca de guarda em três tribunais
superiores, em Brasília. Com a mudança, sai a turma
do contra e entra a turma da paz. Na semana passada, assumiu o novo
titular do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro
Edson Vidigal. Na cerimônia de posse, Vidigal deixou claro
que pretende evitar a reedição das divergências
públicas ocorridas entre o Palácio do Planalto e seu
antecessor, o ministro Nilson Naves. "As hostilidades acabaram.
Nossas diferenças serão resolvidas em conversas em
foro adequado", disse. Nesta semana, será a vez do ministro
Vantuil Abdala, que comandará o Tribunal Superior do Trabalho
(TST) pelos próximos dois anos. Será outro alívio
para o governo. Abdala entrará no lugar do ministro Francisco
Fausto, que, no auge da polêmica em torno da reforma da Previdência
Social proposta pelo governo, deu uma entrevista dizendo que, na
condição de servidor público que votara em
Lula, se sentia vítima de um "estelionato eleitoral".
A
mudança mais esperada, porém, é a saída
de Maurício Corrêa do comando do Supremo Tribunal Federal
(STF), a mais alta corte do país. Corrêa é um
magistrado que teve longa carreira política antes de ser
indicado para o STF e, mesmo vestindo a toga de magistrado, não
perdeu o gosto político pelas querelas de paróquia
e se investiu do papel de líder sindical. A certa altura,
respondendo à desastrada declaração do presidente
da República acusando o Judiciário de ser uma "caixa-preta",
Maurício Corrêa criticou o funcionamento do governo
e o papel de Lula. Em entrevista a VEJA, publicada em setembro do
ano passado, ele insinuou que Lula se comportava como um animador
de auditório e que nem para isso tinha competência,
pois ficava "naquela peroração, peripateticamente
no palco, indo para lá e para cá, cometendo certos
impropérios que depois precisam ser corrigidos". Sem entrar
no mérito da exatidão de seu conceito sobre Lula,
o chefe do Supremo não pode se referir ao presidente da República
nesses termos, seja ele quem for, sob pena de ferir a liturgia do
cargo e a solenidade de sua missão. Isso, agora, acabou.
No
mês que vem, Maurício Corrêa cederá seu
posto ao ministro Nelson Jobim, outro magistrado com experiência
política mas que nunca a usou em favor da estridência.
Ao contrário. Às vésperas da mudança
geral dos tribunais superiores, Jobim já se encarregou de
promover um pacto de silêncio entre seus novos titulares,
para evitar as polêmicas do passado. Antes mesmo de sua posse,
convidou os futuros titulares do STJ e do TST para uma conversa
reservada e em separado. Recebeu-os em seu gabinete no próprio
Supremo. Ali, ficou combinado que os temas de interesse comum dos
tribunais serão tratados em conjunto e ficarão restritos
ao público interno. Os assuntos que não pertencem
à cozinha dos tribunais, e precisam ser negociados com o
governo, terão outro tratamento. Os presidentes vão
elaborar uma lista dos temas fundamentais e, sempre que necessário,
Jobim será escalado para apresentá-los ao Palácio
do Planalto. Sem alarde e sem enfrentamento. Não é
um funcionamento muito diferente do que sempre pautou a relação
do Judiciário com o Executivo e, agora, só chama a
atenção pelo contraste que marcará com a turma
que está indo embora. "O tumulto e o mau humor não
ajudam ninguém em lugar nenhum", afirma Edson Vidigal, ao
resumir o novo sentimento predominante.
Além
do ânimo pacifista, a nova cúpula dos tribunais superiores
tem um ponto essencial em comum. Com algumas variações
de intensidade, os três são favoráveis ao controle
externo do Judiciário, proposta que causava arrepios no trio
antecessor, que a entendia como uma violação da independência
do poder. A proposta do governo prevê a nomeação
de um conselho com quinze integrantes, entre magistrados, advogados,
membros do Ministério Público e dois cidadãos
comuns indicados pela Câmara e pelo Senado. A idéia
de criar um controle externo sobre o Judiciário não
tem nada a ver com o término da independência do poder,
que obviamente seguirá desfrutando da mais ampla liberdade,
sob pena de se decretar o fim do regime democrático. A diferença
é que um braço da sociedade passará a ter conhecimento
e controle dos bastidores administrativos e funcionais do Judiciário,
que, como toda atividade humana, não está imune às
falhas. Só quem quer confundir a platéia sobre a conveniência
do controle externo é que faz questão de dizer que
a fiscalização poderá se imiscuir na questão
jurídica, afetando a independência dos juízes
para julgar.
O
ex-presidente do STJ, o ministro Nilson Naves, é um opositor
tão ferrenho do controle externo que chegou a entregar à
Comissão de Constituição e Justiça do
Senado, quando ali se encontrava o projeto de reforma da Justiça,
o resultado de uma votação feita entre os ministros
do STJ. Na votação, vinte dos 33 ministros eram contrários
à proposta. No STF, onde Maurício Corrêa também
bate no controle externo, seis dos onze se opõem à
idéia. "Não vejo nenhuma possibilidade, juízo
pessoal meu, de que nós não tenhamos o conselho aprovado.
É uma necessidade de consistência do Poder Judiciário
nacional", já avisou o ministro Nelson Jobim, antecipando
o novo tom pelo qual serão pautadas as relações
do Supremo com o governo. "O Judiciário é um arquipélago.
Hoje, até a apuração de irregularidades é
feita por coleguinhas. A criação do conselho é
importante", completa Edson Vidigal. Está claro, portanto,
que, pelo menos em público, o Palácio do Planalto
não terá de enfrentar resistências entre magistrados
para a aprovação do controle externo e, mais tarde,
a instalação do conselho.
A
nova era de paz entre Executivo e Judiciário que se anuncia
agora não significa, naturalmente, que a reforma da Justiça,
e, por extensão, a aplicação do controle externo,
esteja por sair. Há mais de uma década tramitando
no Congresso, a reforma do Judiciário parece uma miragem
parlamentar, pois raramente avança e, quando avança,
acaba travando na etapa seguinte e assim fica, boiando para lá
e para cá, ao sabor das pressões e dos lobbies, que
são, nessa área, particularmente intensos. Nem mesmo
a temporada de paz está garantida. Quando assumiu a presidência
do STF em junho do ano passado, Maurício Corrêa, que
sai agora do tribunal por completar 70 anos, fez questão
de dizer que sua gestão contrastaria com a de seu antecessor,
o ministro Marco Aurélio Mello, que se celebrizou pela incontinência
verbal, tendo chegado a emitir opinião até sobre a
cor da camiseta da Seleção Brasileira de Futebol.
De fato, a administração de Maurício Corrêa
contrastou com a do antecessor, mas com certeza não foi nem
pelo silêncio nem pela discrição. De modo que
a promessa da nova cúpula do Judiciário de manter
uma relação harmoniosa com os demais poderes da República,
em especial o Executivo, é alvissareira, mas é bom
conferir antes de aplaudir.
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STF
NELSON
JOBIM
O
ministro só assume o comando do tribunal no mês
que vem, mas desde
já articula um pacto
de silêncio com os
novos presidentes das cortes superiores
TST
VANTUIL
ABDALLA
O
novo presidente do tribunal
trabalhista critica os atritos entre poderes:
"Não
cabe a um dirigente fazer censuras
abertas a outro dirigente
sem tentar antes resolver
a questão"
STJ
EDSON
VIDIGAL
Ao
tomar posse, ele decretou o "fim das hostilidades" e
disse
que, de agora em
diante, toda divergência será resolvida
dentro de "foro adequado"
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