|
|
Reforma
agrária
O
abril sem lei do MST
Os
sem-terra voltam a agitar o campo, mas
contam
com um duplo auxílio do governo

Leandra
Peres
Carlos Casae/Ag. A Tarde/AE
 |
| Sem-terra
ocupam fazenda produtiva na Bahia: como lá só
tinha eucalipto, o MST achou que dava para invadir
|
Abril
é sempre um mês de agitação no campo.
Tem sido assim desde abril de 1996, quando dezenove sem-terra foram
chacinados em Eldorado dos Carajás, no Pará. Em abril
do ano passado, houve apenas treze invasões, e a tranqüilidade
no meio rural foi uma exceção, motivada pela trégua
que vigorava entre os sem-terra e o então recém-empossado
governo Lula. Agora, os movimentos rurais já fizeram quase
cinqüenta invasões em quinze Estados diferentes, e a
maior concentração está em Pernambuco. Na semana
passada, até uma fazenda altamente produtiva no sul da Bahia,
recheada de eucaliptos para a elaboração de celulose,
foi invadida por 3 500 famílias do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST). A fazenda de eucaliptos será sede
de uma fábrica de celulose, um negócio de 1,2 bilhão
de dólares, um dos maiores investimentos em andamento em
todo o Brasil. A explicação do MST para a invasão
de uma terra produtiva foi a seguinte: "Nossa imagem seria prejudicada
se tivéssemos ocupado área produtiva plantada com
alimentos, mas eucalipto ninguém come", disse Valmir Assunção,
o líder dos sem-terra na Bahia.
O
MST não ajuda a reforma agrária ao convulsionar o
campo, mas, nos últimos tempos, as invasões de terra
têm contado com duplo auxílio do governo pelo
que ele faz e pelo que deixa de fazer. No campo da ação,
voltou a distribuir cestas básicas aos sem-terra. A doação
fora cortada na gestão anterior porque se descobriu que,
com as cestas, as invasões aumentavam, pois o MST conseguia
mobilizar mais gente por períodos mais longos. "Não
vamos combater acampamentos à custa de fome", explica Guilherme
Cassel, número 2 do Ministério do Desenvolvimento
Agrário. Além disso, sofreu uma revogação
branca a medida provisória que prevê a retirada da
lista de áreas desapropriáveis de qualquer pedaço
de terra que esteja sob ocupação. A MP, que foi um
antídoto eficaz contra as invasões, ainda existe,
ainda é cumprida, mas só depois de tanta burocracia
que, na prática, é quase como se não existisse.
Por fim, como último empurrão às invasões,
o governo petista permitiu que as superintendências do Incra
fossem preenchidas com indicações políticas
o que, na gestão anterior, era proibido.
O
governo também tem ajudado a agitação no campo
com aquilo que deixa de fazer. O número de famílias
de trabalhadores sem-terra assentadas tem caído de forma
significativa. Caiu no ano passado em relação ao ano
anterior, quando, por sua vez, já tinha sido baixíssimo.
Até agora, em seus quinze meses de governo, Lula assentou
cerca de 47.000 famílias
um saldo muito inferior ao desempenho da administração
tucana, que assentou, em média, quase 80.000
famílias a cada doze meses. O ritmo é tão comprometedor
que o ministro José Dirceu, da Casa Civil, recebeu orientação
de Lula para supervisionar de perto os assentamentos e evitar que
o governo, pelo segundo ano consecutivo, não atinja a meta
de assentados. O volume de terras desapropriadas para fins de reforma
agrária também tem caído nos últimos
tempos. No ano passado, foram 408.000
hectares, contra quase 500.000 do ano
anterior. Por fim, até os recursos para assistência
técnica aos assentados estão ficando menores.
Com
tantos estímulos para promover invasões, os movimentos
de sem-terra até que estavam calmos, sobretudo quando se
percebe que o governo titubeia e vacila na hora de reagir à
baderna rural. Na semana passada, o ministro Miguel Rossetto, do
Desenvolvimento Agrário, por exemplo, levou nada menos que
dois dias para condenar a invasão da fazenda de eucalipto
no sul da Bahia. Antes, foi mais duro com os proprietários
da fazenda do que com os invasores, por achar que os donos da terra
exigiam uma proteção que o governo não podia
dar e que os sem-terra pediam o que tinham direito de pedir.
Depois, lançou uma nota em que classificava a invasão
como "inaceitável" e exigia a desocupação da
fazenda "imediatamente". Diante de um ministro assim, que combate
foras-da-lei com notas oficiais, não surpreende que as invasões
prossigam de vento em popa.
|