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Carta
ao leitor
Um
mundo conturbado
Mais
do que em outros períodos da história contemporânea,
aplica-se agora à convivência entre os países
a enunciação célebre do poeta inglês
John Donne (1572-1631) segundo a qual "nenhum homem é uma
ilha; todo homem é parte de um continente". Desde o ataque
terrorista aos Estados Unidos em setembro de 2001 e as tensões
desencadeadas pela reação militar americana no Afeganistão
e, principalmente, no Iraque, o mundo deixou de ter ilhas de paz.
O recente atentado aos trens em Madri, que resultou na morte de
quase 200 civis inocentes, mostra que fazemos todos parte de um
mesmo e atribulado continente, o que reúne ombro a ombro
todos os seres humanos sujeitos a sofrer os efeitos de um ato terrorista
sem outro motivo que não o de viverem neste começo
do século XXI. Essa triste realidade atual, movida por suspeitas
e ameaças, foi definida pelo filósofo francês
Paul Virilio como um período de "pânico frio". Ela
exige dos governos a compreensão de que se vive em um planeta
onde a preservação da paz requer a máxima transparência
em suas relações com os demais.
O
governo brasileiro, a pretexto de manter a soberania do país,
tem colocado o contexto externo em segundo plano. Em janeiro, o
Brasil retaliou a decisão dos Estados Unidos de incluir os
cidadãos brasileiros na lista de 150 nacionalidades obrigadas
a se identificar na chegada aos aeroportos do país. A diplomacia
brasileira exigiu dos americanos o mesmo tratamento dado aos viajantes
de 27 outros países então dispensados do procedimento.
Na semana passada, os EUA estenderam a mesma regra da identificação
àqueles 27 países. Nenhum dos governos atingidos pela
medida ameaçou retaliar. Agiram assim não por não
terem brio ou serem menos patriotas. Agiram não por temor
aos Estados Unidos mas por temor ao terrorismo, cuja derrota se
tornou a causa comum das democracias. Como mostra uma reportagem
desta edição de VEJA, ao se opor às inspeções
internacionais em suas instalações nucleares, o governo
brasileiro está imbuído mais uma vez das mesmas e
tolas premissas que levaram à exagerada reação
no caso do fichamento dos viajantes há três meses.
Atitudes assim só atraem desconfiança e geram tensões
desnecessárias.
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