Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Carta ao leitor
Um mundo conturbado

Mais do que em outros períodos da história contemporânea, aplica-se agora à convivência entre os países a enunciação célebre do poeta inglês John Donne (1572-1631) segundo a qual "nenhum homem é uma ilha; todo homem é parte de um continente". Desde o ataque terrorista aos Estados Unidos em setembro de 2001 e as tensões desencadeadas pela reação militar americana no Afeganistão e, principalmente, no Iraque, o mundo deixou de ter ilhas de paz. O recente atentado aos trens em Madri, que resultou na morte de quase 200 civis inocentes, mostra que fazemos todos parte de um mesmo e atribulado continente, o que reúne ombro a ombro todos os seres humanos sujeitos a sofrer os efeitos de um ato terrorista sem outro motivo que não o de viverem neste começo do século XXI. Essa triste realidade atual, movida por suspeitas e ameaças, foi definida pelo filósofo francês Paul Virilio como um período de "pânico frio". Ela exige dos governos a compreensão de que se vive em um planeta onde a preservação da paz requer a máxima transparência em suas relações com os demais.

O governo brasileiro, a pretexto de manter a soberania do país, tem colocado o contexto externo em segundo plano. Em janeiro, o Brasil retaliou a decisão dos Estados Unidos de incluir os cidadãos brasileiros na lista de 150 nacionalidades obrigadas a se identificar na chegada aos aeroportos do país. A diplomacia brasileira exigiu dos americanos o mesmo tratamento dado aos viajantes de 27 outros países então dispensados do procedimento. Na semana passada, os EUA estenderam a mesma regra da identificação àqueles 27 países. Nenhum dos governos atingidos pela medida ameaçou retaliar. Agiram assim não por não terem brio ou serem menos patriotas. Agiram não por temor aos Estados Unidos mas por temor ao terrorismo, cuja derrota se tornou a causa comum das democracias. Como mostra uma reportagem desta edição de VEJA, ao se opor às inspeções internacionais em suas instalações nucleares, o governo brasileiro está imbuído mais uma vez das mesmas e tolas premissas que levaram à exagerada reação no caso do fichamento dos viajantes há três meses. Atitudes assim só atraem desconfiança e geram tensões desnecessárias.

 
 
 
 
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