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de vista: Lya
Luft Família tem de ser careta
"Quem
não estiver disposto a dizer 'não' na hora certa e se fizer
de vítima dos filhos, que por favor não finja que é mãe
ou pai"
Esperando uma reação de espanto ou contrariedade ao título
acima, tento explicar: acho, sim, que família deve ser careta, e que isso
há de ser um bem incomparável neste mundo tantas vezes fascinante
e tantas vezes cruel. Dizendo isso não falo em rigidez, que os deuses nos
livrem dela. Nem em pais sacrificiais, que nos encherão de culpa e impedirão
que a gente cresça e floresça. Não penso em frieza e omissão,
que nos farão órfãos desde sempre, nem em controle doentio
que o destino não nos reserve esse mal dos males. Nem de longe aceito
moralismo e preconceito, mesmo (ou sobretudo) disfarçado de religião,
qualquer que seja ela, pois isso seria a diversão maior do demônio.
Falo
em carinho, não castração. Penso em cuidados, não
suspeita. Imagino presença e escuta, camaradagem e delicadeza, sobretudo
senso de proteção. Não revirar gavetas, esvaziar bolsos,
ler e-mails, escutar no telefone, indignidades legítimas em casos extremos,
de drogas ou outras desgraças, mas que em situação normal
combinam com velhos internatos, não com família amorosa. Falo em
respeito com a criança ou o adolescente, porque são pessoas, em
entendimento entre pai e mãe também depois de uma separação,
pois naturalmente pessoas dignas preservam a elegância e não querem
se vingar ou continuar controlando o outro através dos filhos.
Ilustraηγo
Atomica Studio
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Interesse
não é fiscalizar ou intrometer-se, bater ou insultar, mas acompanhar,
observar, dialogar, saber. Vejo crianças de 10, 11 anos freqüentando
festas noturnas com a aquiescência de pais irresponsáveis, ou porque
os pais nem ao menos sabem onde elas andam. Vejo adolescentes e pré-adolescentes
embriagados fazendo rachas alta noite ou cambaleando pela calçada ao amanhecer,
jogando garrafas em carros que passam, insultando transeuntes onde estão
os pais?
Como não saber que sites da internet as crianças e os jovenzinhos
freqüentam, com quem saem, onde passam o fim de semana e com quem? Como não
saber o que se passa com eles? Sei de meninas, quase crianças, parindo
sozinhas no banheiro, e ninguém em casa sabia que estavam grávidas,
nem mãe nem pai. Elas simplesmente não existiam, a não ser
como eventual motivo de irritação.
Não entendo a maior parte das coisas solitárias e tristes que vicejam
onde deveria haver acolhimento, alguma segurança e paz, na família.
Talvez tenhamos perdido o bom senso. Não escutamos a voz arcaica que nos
faria atender as crias indefesas e não me digam que crianças
de 11 anos ou adolescentes de 15 (a não ser os monstros morais de que falei
na crônica anterior) dispensam pai e mãe. Também não
me digam que não têm tempo para a família porque trabalham
demais para sustentá-la. Andamos aflitos e confusos por teorias insensatas,
trabalhando além do necessário, mas dizendo que é para dar
melhor nível de vida aos meninos. Com essa desculpa não os preparamos
para este mundo difícil. Se acham que filho é tormento e chateação,
mais uma carga do que uma felicidade, não deviam ter tido família.
Pois quem tem filho é, sim, gravemente responsável. Paternidade
é função para a qual não há férias,
13º, aposentadoria. Não é cargo para um fiscal tirano nem para
um amiguinho a mais: é para ser pai, é para ser mãe.
É preciso ser amorosamente
atento, amorosamente envolvido, amorosamente interessado. Difícil, muito
difícil, pois os tempos trabalham contra isso. Mas quem não estiver
disposto, quem não conseguir dizer "não" na hora certa e procurar
se informar para saber quando é a hora certa, quem se fizer de vítima
dos filhos, quem se sentir sacrificado, aturdido, incomodado, que por favor não
finja que é mãe ou pai. Descarte esse papel de uma vez, encare a
educação como função da escola, diga que hoje é
todo mundo desse jeito, que não existe mais amor nem autoridade... e deixe
os filhos entregues à própria sorte.
Pois, se você se sentir assim, já não terá mais família
nem filhos nem aconchego num lugar para onde você e eles gostem de voltar,
onde gostem de estar. Você vive uma ilusão de família. Fundou
um círculo infernal onde se alimentam rancores e reina o desamparo, onde
todos se evitam, não se compreendem, muito menos se respeitam.
Por tudo isso e muito mais, à família moderninha, com filhos nas
mãos de uma gatinha vagamente idiotizada e um gatão irresponsável,
eu prefiro a família dita careta: em que existe alguma ordem, responsabilidade,
autoridade, mas também carinho e compreensão, bom humor, sentimento
de pertença, nunca sujeição. É
bom começar a tentar, ou parar de brincar de casinha: a vida é dura
e os meninos não pediram para nascer. Lya
Luft é escritora |