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Perfil
Wanderley, o amigo do rei
Entre cortes e penteados,
o cabeleireiro de São Paulo atingiu o ápice
do prestígio: entrou na intimidade do presidente Lula

Sandra Brasil
Lailson Santos
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| Piada de salão: Wanderley
e Cida, na sala do apartamento de 700 metros quadrados:
são amigos de Lula do tipo que acusa "O senhor
está roubando" (num jogo de cartas) e sai impune
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Marco Pinto
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Desde Maria Antonieta, a rainha da França que levava
aonde ia seu caríssimo Léonard, as relações
entre poderosos e seus cabeleireiros têm um histórico
de intimidade. Um pequeno e divertido episódio ilustra
como isso é verdadeiro no caso de Wanderley Nunes,
estrela da tesoura-e-escova em São Paulo, com sua cliente
Marisa e o marido dela, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. O caso aconteceu em torno de uma mesa de baralho
e quem conta é o próprio Wanderley, como é
universalmente conhecido. "Estávamos, os dois casais,
jogando mexe-mexe quando a Cida, minha mulher, vira e fala
para o presidente: 'O senhor está roubando!'." Lula,
relembra ele, levou na esportiva: "Cida, você está
chamando o presidente de ladrão?". Ela rebateu de pronto:
"É claro. O senhor está mesmo roubando no jogo".
Qualquer pessoa
capaz de criar esse nível de proximidade com um presidente
ainda que um presidente informal, porém nada
ingênuo, como Lula está obviamente no
topo de uma cobiçada escala de prestígio. Que
essa pessoa seja um cabeleireiro, embora altissimamente bem-sucedido,
é mais significativo ainda. Alguém duvida? No
último dia 2, seu aniversário, Wanderley deu
um jantar para cinqüenta pessoas em seu apartamento.
Que casal foi praticamente o primeiro a chegar? Lula e Marisa.
À vontade, o presidente conversou com todos, cantou
Parabéns, deu bolo na boca da mulher, aplaudiu
a dupla sertaneja Mateus & Cristiano (Atenda o Celular,
composição de Wanderley, ele quis ouvir três
vezes) e foi embora às 2 da manhã. "É
um privilégio ser amigo e privar da intimidade do presidente
da República", diz o cabeleireiro. Por extraordinária
coincidência, esse privilégio se encaixa à
perfeição numa prática que Wanderley
assume abertamente. "O meu alvo sempre foram as pessoas mais
referenciadas. Sempre procurei conquistar quem tem mais amizade,
mais conhecimento, quem manda mais. Se eu conquistá-lo,
os outros seguem", diz sobre a tática de negócios
que outros poderiam chamar mas dificilmente o fazem,
para não ficar mal com o amigo do rei de bajulação
extremada.
No caso de Lula,
ressalta que seus propósitos são mais elevados.
"Quero que as pessoas de quem eu gosto conheçam e passem
a admirar o grande homem que é o presidente. Ele é
um ser iluminado", derrama-se Wanderley, que se aproximou
do casal durante a campanha presidencial de 2002, quando Marisa,
por indicação de uma amiga, começou a
cortar o cabelo em seu salão, o Studio W. O jantar
do dia 2 mostrou quanto essa relação evoluiu.
"Vi um presidente desvestido do cargo", conta Marcio Moraes,
que apresenta um programa de turismo na RedeTV!. "No meio
da nossa conversa, coloquei-o para falar pelo celular com
a produtora do programa e ela achou que era trote." Já
tarde da noite, Wanderley, imbuído do mesmo propósito
congregatório, pegou o telefone e reconvidou um amigo
ausente, o humorista Tom Cavalcante íntimo de
notáveis do PSDB e crítico nada sutil de Lula.
O presidente em pessoa fez a convocação, com
bom humor: "Olha, cara, venha para cá agora. Você
anda falando mal de mim". Cavalcante foi, bateu papo e contou
piadas. "Acho que ficaram amigos", alegra-se o cabeleireiro.
Depois da apresentação de Mateus & Cristiano,
gêmeos de 24 anos que ele descobriu e lançou,
foi a vez do tour pelo apartamento de 700 metros quadrados
e cerca de 5 milhões de reais, decorado em tons sóbrios
pelo arquiteto Arthur de Mattos Casas. A moderníssima
cozinha, sobretudo, causou furor. "Dona Marisa até
abriu a geladeira", relata Wanderley. Por outra extraordinária
coincidência, o diretor-geral da fabricante dos eletrodomésticos
americanos de ponta que rebrilham no ambiente, Evandro Kherlakian
Júnior, também estava presente. Acossado pelas
sugestões de Wanderley, ofereceu um fogão ao
casal presidencial.
Marco Pinto e arquivo
pessoal
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| Cliente e amiga: Marisa ganha
bolo na boca no aniversαrio e vκ Bono cortar o cabelo
do cabeleireiro |
Não foi essa
a primeira vez que Nunes serviu de ponte entre mundos. Quando
o U2 veio ao Brasil, há um ano, e Bono Vox quis encontrar
Lula, quem arranjou tudo? "Viajei com ele, no avião
dele, para Brasília. Almoçamos na Granja do
Torto. O presidente ofereceu e Bono provou uma dose de pinga",
relata Wanderley. "De brincadeira, ele cortou uma mecha enorme
do meu cabelo e depois passou meia hora pedindo desculpas."
Nono filho de um barbeiro de Maringá, Paraná,
que só concluiu o ensino fundamental, Wanderley conta
com o mesmo furor narrativo que sofreu abuso de um vizinho
quando criança, chegou a morar seis meses na favela
carioca da Rocinha e já fez seis operações
plásticas no nariz. Atualmente, comanda quatro salões
que empregam 540 pessoas (sessenta cabeleireiros, oitenta
manicures) e a cada mês atendem 12.000 clientes, consomem
800 litros de xampu e varrem 1 tonelada de cabelo. Tem uma
sócia, Rosangela Barchetta, que fica na administração
do negócio, deixando-o livre para cortar, aparecer
e, claro, cobrar são 300 reais por um corte
de cabelo, com uma média de trinta pessoas atendidas
por dia. Famosos pagam metade "Se eu não cobrar
nada, as pessoas não valorizam", justifica. Costuma
se revezar entre oito cabeças ao mesmo tempo.
Muitíssimo
bem de vida, o cabeleireiro nos últimos tempos tem
diversificado atividades. Declara-se compositor e empresário
musical, desenhou uma coleção de jóias,
tem uma revista de beleza, está escrevendo um livro
de memórias e outro de poemas. "Quer ver como eu crio
fácil uma poesia?", perguntou a VEJA. Em cinco minutos,
brotou a seguinte homenagem a Lula: "As pessoas que passaram
muita necessidade na vida se identificam, e elas brilham.
Sabemos que para vencer o único caminho não
é sofrer. Existem várias trajetórias.
Mas quem venceu já fez a sua história". Wanderley
é casado há 23 anos com Cida, 43, maquiadora
e "especialista em sobrancelhas", que ensina a Marisa truques
de maquiagem. "Ela gosta de batom vermelho. Eu disse que,
então, não podia carregar muito na pintura dos
olhos", exemplifica. Generoso, Nunes dá dicas de como
se aproximar do casal presidencial. "Quer conquistar a dona
Marisa? Converse com ela sobre jardinagem. Quer conquistar
o presidente? Fale sobre pescaria, futebol e animais", ensina
sobre o amigo poderoso, a quem defende com veemência.
"Ele é honesto. E é mentira que goste de beber.
Quando a gente joga baralho, enquanto eu tomo cinco, seis
cervejas, ele só bebe uma ou duas. Se ele toma seis,
fica com sono e vai dormir."
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