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Edição 1995

14 de fevereiro de 2007
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Especial
Uma nação incendiária

VEJA visitou o Irã, país que pode levar o Oriente Médio
a uma explosão ou ser a chave para sua estabilidade


Carlos Graieb, com fotos de Paulo Vitale, de Teerã

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A celebração do Ashura, na cidade de Qom: fogo e martírio

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Como quase todos os prédios da capital, Teerã, o Parlamento iraniano não chama atenção pela arquitetura. De fora, é uma construção que se confunde na paisagem urbana. Mas seu plenário é outra história. Decorado em verde, a cor do islamismo, ele exibe dois retratos gigantescos. Um representa o aiatolá Khomeini, mentor da revolução islâmica que, em pleno século XX, impôs a um Irã laico e com chances de se modernizar a treva da teocracia. Ao lado se vê a imagem de seu sucessor, Ali Khamenei, líder supremo da nação desde 1989. Nas galerias do fundo, dezenas de mártires políticos são homenageados. Em 21 de janeiro, três dias antes de seus antípodas americanos em Washington, os congressistas iranianos se reuniram para ouvir no Parlamento uma espécie de Discurso sobre o Estado da União. O orador era uma das figuras mais incendiárias da política contemporânea – o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Desde sua eleição, em meados de 2005, Ahmadinejad desconcerta o mundo com sua retórica agressiva. Ele fala sobre a transformação do Irã numa potência atômica, dispara frases ultrajantes a respeito da aniquilação de Israel e da inexistência do holocausto na II Guerra e viaja pelo mundo empunhando a bandeira do antiamericanismo. Seria reconfortante descartá-lo como um bufão sinistro. Mas isso não é correto. Ahmadinejad é o beneficiário e o símbolo da mudança inesperada que, 28 anos depois da revolução islâmica, fez do Irã, mais uma vez, um centro de tensão mundial.

Em meados de 2003, depois da queda de Saddam Hussein no Iraque, apenas dois destinos pareciam reservados ao país dos aiatolás. Num cenário, a ditadura religiosa conseguiria sobreviver, mas condenada ao isolamento, como pária internacional. Noutro, as pressões de uma população majoritariamente jovem resultariam no colapso do autoritarismo e na abertura do país. As incursões militares dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, àquela altura bem-sucedidas, proporcionavam o pano de fundo para essas previsões. Enraizada nas redondezas, a democracia acabaria por emparedar o Irã. Mas o efeito verdadeiro – e paradoxal – da guerra americana ao terror foi a inversão dessas expectativas.

PREGAÇÃO RADICAL
O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (à dir.), cercado de assessores: uma figura sinistra

Nos últimos três anos, a escalada nos preços do petróleo inundou o Irã de dólares. A derrubada dos talibãs e de Saddam Hussein varreu do mapa inimigos históricos e, mais importante, livrou da opressão comunidades xiitas suscetíveis à influência dos clérigos de Teerã. Em vários pontos do Oriente Médio, grupos extremistas como o Hezbollah e as Milícias Mahjid recebem patrocínio iraniano – desbragado no discurso e eficazmente encoberto quando se trata de dinheiro e armas. Quanto mais os Estados Unidos se atolam no Iraque, mais crescem a ousadia e a influência do país. Dono de uma consciência histórica que remonta aos esplendores da civilização persa, 2.500 anos atrás, o Irã nunca deixou de desprezar a vizinhança turca e a árabe. Ele sempre se imaginou como potência regional. Agora, alardeia essas credenciais. Pois o fato de prosseguir impávido no desenvolvimento de um programa nuclear, apesar das ameaças do Ocidente e de sanções econômicas que lhe foram impostas pela ONU no fim do ano passado, fez do Irã mais do que um rato que ruge. Neste momento, em instalações subterrâneas na usina de Natanz, 3.000 centrífugas que convertem urânio em combustível atômico estão sendo montadas. Para fins pacíficos, insiste o país – e duvida o Ocidente.

O Irã é o pavio que pode levar o Oriente Médio a uma explosão final. Pode também ser a chave para a estabilidade. A escolha entre as duas opções encontra-se, em boa parte, nas mãos dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, os americanos aumentaram seu contingente militar na região do Golfo Pérsico, num aceno hostil a Teerã. Mas, diante do caos que enfrentam no Iraque, é improvável que embarquem num conflito novo. "Não planejamos uma guerra com o Irã", disse Robert Gates, o novo secretário da Defesa americano, no começo de fevereiro. A menos que se espere que Israel, alvo perpétuo das ameaças iranianas, assuma esse papel guerreiro, sobram duas alternativas aos Estados Unidos. Primeiro, sonhar com a queda abrupta do regime fundamentalista. Uma quimera. Segundo, contar com o poder das sanções econômicas e com o fato de que o extremismo de Ahmadinejad não é a face única da política iraniana.

O discurso do presidente em 21 de janeiro ilustra esse fato. Messiânico fervoroso, ele começou como sempre faz: orando pela vinda do 12º Imã – o profeta que anuncia o fim dos tempos na vertente xiita do islamismo. É claro que deu espaço para diatribes. "A posse da tecnologia nuclear é um sonho grandioso, que está mudando nossa posição no mundo", disse Ahmadinejad. "Ao implementarem sanções contra nós, nossos inimigos desejam intimidar nosso povo. Mas eles não podem nos ferir. As sanções são um preço baixo para atingir nosso objetivo." Recém-chegado de uma viagem à América Latina na qual visitou três países – em especial a Venezuela, governada por seu gêmeo autoritário Hugo Chávez –, Ahmadinejad zombou dos Estados Unidos. "Os americanos dizem que nós estamos isolados. Mas nas ruas por onde passei eu ouvi as pessoas gritar o nome do Irã. Bush é quem está isolado. Ele não pode ir aos seus vizinhos como eu fui."

Essas passagens foram, contudo, uma exceção. A ocasião revelou um Ahmadinejad diferente – cauteloso e quase monótono. Desfiando números e estatísticas, ele fez o balanço de 2006 e apresentou propostas para os próximos meses. Tinha um pedido especial: autorização para aumentar em quase 20% os gastos de seu governo. Ahmadinejad precisa do dinheiro porque se elegeu com uma plataforma assistencialista, calcada em bolsas e subsídios. Procurou seduzir o Congresso, mas não foi muito bem-sucedido. Um parlamentar enviou-lhe um bilhete, que ele leu em voz alta: "Quem disse que os seus números são confiáveis?". Ao discutir o custo de vida, Ahmadinejad afirmou que o preço do tomate nos mercados era de 1 dólar por quilo. O plenário o corrigiu aos gritos: "São 3 dólares!". A inflação é um dos flagelos do presidente: está em torno de 16% ao ano, e subindo. Outro deles é o desemprego, que atinge mais de 3 milhões de pessoas.

Aqui cabe um parêntese. A economia emperrada é um legado dos primórdios da República Islâmica. O desprezo de Khomeini pelo tema era notório. "A economia é para jumentos", dizia ele. O Estado iraniano é um leviatã que sufoca a iniciativa privada, seja por meio da burocracia, seja pela competição direta. Estima-se que 25% do comércio do país seja controlado pelas bonyads, fundações que não pagam impostos, atuam em setores que vão da hotelaria à agricultura e, independentes no papel, são na verdade dirigidas pela elite governamental. O setor energético tem debilidades surpreendentes. O Irã possui enormes reservas de petróleo e gás, mas seu sistema de extração e refino está defasado. A produção de petróleo é hoje menor que a de 1974: 4,2 milhões de barris por dia, contra 6,1 milhões de antigamente. Altamente subsidiado, o preço do combustível nos postos iranianos é ínfimo: 10 centavos de dólar por litro. Isso incentiva o contrabando para fora e um consumo interno desenfreado. O país virou uma aberração: um colosso que exporta petróleo mas importa um terço de sua gasolina. Em 2006, foram 6 bilhões de dólares em importações. Se nada mudar, em dez anos o Irã terá toda a sua produção de combustível voltada para o mercado interno. "É um problema extraordinariamente sério. Mas ninguém sabe como abandonar os subsídios e reduzir o consumo sem traumas", diz o vice-ministro do petróleo, Mansour Moizemi.

Os problemas da economia iraniana não foram causados por Ahmadinejad, mas corroem sua popularidade e servem para que seus opositores o fustiguem. Quem são esses opositores? Certamente a classe média das grandes cidades, que o chama de louco nas reuniões privadas. Ou os estudantes e intelectuais, que de vez em quando erguem a voz contra o governo nas universidades e na imprensa, pedindo justiça econômica e liberdade. A verdade melancólica sobre o Irã, no entanto, é que seu aparato de repressão e censura continua implacável. Quando a simples ameaça não serve à dissuasão, ele age. Estima-se que existam hoje 300 pessoas presas por razões políticas. Mais de 100 publicações foram fechadas pelos mesmos motivos nos últimos anos. Por isso, os contendores efetivos de Ahmadinejad são aqueles que já pertencem ao círculo do poder.

Pode-se dizer que, além dos radicais, hoje há duas vertentes no topo da política iraniana: os reformistas, que se encontram em relativo recolhimento desde o fim do segundo mandato presidencial de Mohammed Khatami, em 2005; e os pragmáticos, reunidos em torno de outro ex-presidente, o aiatolá Akbar Hashemi Rafsanjani. Ambos os grupos são em tese mais sensíveis às conseqüências nocivas de sanções prolongadas e mais afeitos à idéia de discussões diplomáticas – desde que em condições de "igualdade". Consultor do Departamento de Estado americano e do próprio presidente Bush, o cientista político Vali Nasr é um dos mais influentes estudiosos do Irã na atualidade. "Mesmo entre os conservadores, as divisões ideológicas e as rivalidades políticas no Irã são reais. Há lutas pelo poder, e delas podem resultar governos mais inclinados a uma negociação com o Ocidente", disse ele a VEJA. A democracia não está prestes a florescer no Irã, mas é possível sonhar com lideranças menos radicais que a de Ahmadinejad. Ainda que envoltas na túnica e no turbante.

 

DO XÁ À ENERGIA NUCLEAR

Os principais momentos da história moderna do Irã,
desde antes da revolução que fez dele uma teocracia

1967
O menino Cyrus Reza é coroado sucessor de seu pai, o xá Reza Pahlevi – mas nunca chegará a ser xá. Reza Pahlevi buscou aproximar o país do modo de vida ocidental. Mas o autoritarismo de seu governo e seu estilo de vida suntuoso só contribuíram para que os iranianos associassem o Ocidente à idéia de corrupção

1979
Exilado por Reza Pahlevi desde 1964, o aiatolá Khomeini voltou ao país em triunfo, nos braços da revolução xiita que derrubou o xá. O novo líder do Irã deixou seus propósitos claros desde o início: purgar o país de qualquer influência ocidental. Os Estados Unidos passam a ser considerados o "Grande Satã"

1980
Em novembro de 1979, uma turba de estudantes xiitas invadiu a embaixada americana em Teerã. Aprisionaram 52 reféns por catorze meses. O presidente americano Jimmy Carter ordenou uma operação de resgate, em 1980, que acabou em desastre, com a queda de um helicóptero – fiasco que contribuiu para minar a campanha de Carter à reeleição. Os reféns foram libertados no dia em que Ronald Reagan tomava posse


AP


1981

Em 1980, aproveitando-se da confusão que se seguiu à revolução islâmica, o Iraque invadiu os territórios ricos em petróleo do oeste iraniano. No ano seguinte, o Irã recuperou suas terras e lançou uma contra-ofensiva, na esperança de derrubar Saddam Hussein e expandir a área de influência xiita. A guerra Irã-Iraque arrastou-se por oito anos e custou a vida de mais de 1 milhão de pessoas


2005
O engenheiro Mahmoud Ahmadinejad (à dir. na foto) foi eleito presidente nesse ano, recolocando o país nos trilhos do fanatismo mais intransigente. A imagem ao lado é representativa de todas as faces do poder iraniano. O aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (à esq.), presidente de 1989 a 1997 e candidato derrotado em 2005, foi um líder pragmático, que manteve a linha dura religiosa mas promoveu uma certa abertura econômica. Mohammed Khatami, a seu lado, presidente de 1997 a 2005, tentou implementar reformas, mas foi tolhido pelos aiatolás. No centro da foto, o líder supremo do Irã: Ali Khamenei, sucessor do aiatolá Khomeini


Behrouz Mehri/AFP


2007

Orgulho do falastrão Ahmadinejad, o programa nuclear do Irã acrescentou uma nova crise à conturbada situação do Oriente Médio. Apesar das pressões internacionais e das ameaças dos Estados Unidos (exauridos pela guerra no Iraque), o Irã se recusa a interromper o enriquecimento de urânio e não aceita fiscalização internacional. A alegação oficial é que o programa tem fins energéticos. Mas a cooperação do Irã com a Coréia do Norte no desenvolvimento de mísseis não deixa dúvidas: os aiatolás querem a bomba

 

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