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| | Brasil
Sem limites para a barbárie
O suplício público de um menino de 6 anos no Rio mostra que
o Brasil está na sala de emergência de uma tragédia social
em que o bandido decide quem vive e quem morre
 Marcelo
Bortoloti Osvaldo
Prado/Ag. O Dia/AE
 | VIDA
ROUBADA POR MONSTROS Policiais observam
(acima, à dir.) o corpo do menino João Hélio (no detalhe,
à esq.). Os autores do crime, um menor e um rapaz de 18 anos (abaixo),
foram presos no dia seguinte | Guilherme
Pinto/Ag. O Globo
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Na
quarta-feira passada, a dona-de-casa carioca Rosa Vieites se preparava para encerrar
um dia como tantos outros. Pouco depois das 9 horas da noite, deixou o centro
espírita que costuma freqüentar em Bento Ribeiro, na Zona Norte do
Rio de Janeiro, e entrou no carro com seus dois filhos, Aline, de 13 anos, e João
Hélio, de 6, e uma amiga. Logo a família estaria toda reunida, segundo
seus planos. Hélcio, seu marido, passara a tarde na casa nova que a família
acabara de comprar, acompanhando a reforma, e iria encontrá-los para o
jantar. Poucos quarteirões adiante, ao parar num sinal de trânsito,
o carro em que estavam foi abordado por dois bandidos armados, que ordenaram que
todos descessem. Começou, então, o pior drama que uma mãe
pode viver e uma trágica histórica que tirou a respiração
de todos os brasileiros. Rosa, Aline e a quarta passageira, que viajava no banco
do carona, saíram do carro. Mas o pequeno João, que estava no banco
de trás e usava cinto de segurança, demorou um pouco. A mãe
abriu a porta traseira e tentou ajudá-lo. Não deu tempo. Os bandidos
entraram no carro e partiram em alta velocidade levando o garoto dependurado,
preso pela barriga. Rosa gritou e saiu correndo atrás do veículo,
mas só viu o filho ir embora, arrastado pelo chão.
Chega
de explicações. Todo fenômeno de degradação
social tem explicação. A queda de Roma, a ascensão de Adolf
Hitler, a proliferação do mal bolchevique pelo mundo, a destruição
das cidades brasileiras pelos criminosos e seus asseclas, simpatizantes
ou simplesmente cegos na intelectualidade, na polícia e na política.
O martírio público do menino João Hélio está
destravando a língua de dezenas de explicadores. São os mesmos que
passaram a mão na cabeça dos "meus guris" que desciam ao asfalto
para subtrair um pouco do muito que os ricos tinham e, assim, sustentar a mãe
no morro. Chega de romancear o criminoso, de culpar abstrações como
a "violência", o "neoliberalismo", o "descaso da classe média"...
O que se passou depois foi uma cena difícil de imaginar, mesmo nos piores
filmes de terror aliás, nenhum roteirista ousou escrever uma cena
daquela. Um crime de tamanha crueldade tem de ser encarado como a gota d'água
para mudar o combate à violência no Rio de Janeiro e em todo o Brasil.
João Hélio foi arrastado por 7 quilômetros em ruas movimentadas
de quatro bairros da região. Um motoqueiro que vinha atrás, que
pensou tratar-se de um acidente, tentou alcançar o veículo para
avisar que havia uma criança próxima à roda. "Na primeira
curva, a cabeça bateu na proteção da calçada, e o
sangue espirrou na minha roupa. Comecei a gritar e buzinar, mas vi que a criança
já estava morta. Quando consegui chegar até o carro, um dos ocupantes
pôs a arma na minha cara e me mandou ir embora", diz a testemunha.
Para
evitar a todo custo pagar o preço de enfrentar a bandidagem e se manter
na civilização, o Brasil está aceitando pagar o preço
da volta à barbárie. O mais desalentador é constatar que
o pequeno João Hélio chegou ao suplício em vão. Nada
vai acontecer com os criminosos que o desmembraram em público e logo eles
e outros estarão nas ruas predando os meninos-João. Os explicadores
continuarão suas ladainhas, seus seminários, suas viagens para conhecer
cidades que venceram o crime, suas reformas para dar resultados daqui a um século,
suas visões idílicas de que favelas são soluções...
No que diz respeito ao crime, o Brasil não está na UTI... está
na sala de emergência. A decisão de quem vive e quem morre nessa
sala, infelizmente, está nas mãos dos bandidos.
Pessoas que viram a cena também entraram em desespero enquanto os bandidos
faziam ziguezague com o carro, tentando se livrar do corpo. Em algumas das treze
ruas pelas quais João foi arrastado, ainda era possível ver rastros
de sangue e massa encefálica pelo chão no dia seguinte. Os bandidos
rodaram por dez minutos e depois abandonaram o veículo numa rua deserta.
O garoto, ainda atado ao cinto, não tinha mais a cabeça, os joelhos
nem os dedos das mãos. "Estou acostumado a ver cenas violentas. Mas foi
uma coisa bárbara, não tive coragem de tirar o plástico para
ver o garoto", diz o delegado Hércules do Nascimento, responsável
pelo caso. O secretário de Segurança do Rio, José Mariano
Beltrame, e o comandante-geral da PM, coronel Ubiratan Guedes, não contiveram
as lágrimas no enterro do menino. Um morador que reconheceu os bandidos
conta que um deles saiu do carro, viu o corpo, depois vasculhou os objetos de
valor dentro do veículo e desapareceu com o comparsa por um beco escuro.
Eles não queriam o carro, apenas os pertences da família, o que
confirma o assustador nível de banalização da violência
nos grandes centros urbanos do Brasil.
Do blog do jornalista Reinaldo
Azevedo, em VEJA on-line (http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/):
o menino João é o guri dos sem-Chico Buarque. O "menor", bem maior
do que o menino João, cujo corpo ele ajudou a espalhar pelas avenidas do
Rio, vai ficar três anos internado. E depois será solto entre os
meninos-João, por quem não se rezam missas de apelo social. Resta
só a dor da família: privada, sem importância, sem-ONG, "sem
ar, sem luz, sem razão".
Guilherme
Pinto/Ag. O Globo, reprodu็ใo Globo
 | FAMÍLIA
DESTRUÍDA Parentes de João
Hélio se desesperam durante o enterro do menino. A mãe, Rosa
(à esq.), tentou tirá-lo do carro, mas não conseguiu.
A irmã, Aline (no centro), a quem o menino era apegado, desabafou
quando o caixão baixou: "Quero ouvir a vozinha dele" |
João Hélio faria 7 anos em março, cursava o primeiro ano
primário num colégio particular, torcia pelo Botafogo e estava feliz
porque iria ganhar um quarto novo, pintado de verde. Alegre e muito agitado, fazia
aulas de natação e futebol. Todos os dias Rosa o levava de carro
à escola e o buscava. Em homenagem à mãe, João fez
um desenho que ficou afixado no mural da sala e dizia: "Eu gosto dela". O apego
à irmã, de 13 anos, também era grande. No dia do enterro,
Aline desesperou-se ao ver o pequeno caixão. "Eu quero meu bebê de
volta. Quero meu irmão de volta, quero ouvir a vozinha dele de novo", gritava.
No dia seguinte ao crime,
a polícia apresentou os responsáveis por essa tragédia que
destruiu mais uma família da classe média carioca. Diego e E., menor
de idade, sem antecedentes criminais. Segundo testemunhas, já era o quinto
carro que a dupla abandonava no mesmo local. Com sangue-frio, os dois confessaram
o assassinato e contaram detalhes do crime, que pode ter tido a participação
de mais dois bandidos. Os pais de E., que têm outros quatro filhos, compareceram
à delegacia. O pai não acreditava que seu filho pudesse ser um dos
bandidos. Às 10 horas da noite, minutos após o roubo, os dois estavam
na sua casa, onde jantaram sem demonstrar nenhum tipo de alteração.
"Ele não precisava disso. Estava estudando e ganhava dinheiro lavando carros",
afirma. "Eu sabia que meu filho andava com más companhias, mas nunca imaginei
que pudesse fazer uma coisa dessas.
"Simbolicamente, a culpa
é de quem morre. Alguns jornalistas ficaram um tanto revoltados com a polícia,
que obrigou os bandidos a mostrar o rosto. Terrível ameaça à
privacidade. Era só o que faltava: trucidar o menino João e ainda
ser obrigado a expor a cara... Que país é este? Já não
se pode mais nem arrastar uma criança pelas ruas em um automóvel
e permanecer no anonimato?"
O crime precisa ser enfrentado como tal: uma combinação de pressões
psicológicas, sociais, urbanas e familiares que está gerando pavor
paralisante no país. É
vital escapar da paralisia.
Podem-se debater as forças da natureza enquanto se assiste à aproximação
de um tsunami. Mas isso é inútil, perigoso e irracional. É
preciso agir, fazer alguma coisa que estanque os efeitos destruidores da ação
dos criminosos. Diz o sociólogo Cláudio Beato: "Ninguém pensa
em resolver os problemas emergenciais de saúde, uma epidemia, por exemplo,
investindo em educação. A segurança pública também
requer medidas específicas e urgentes".
VEJA ouviu de especialistas o que precisa e pode ser feito já:
Limitar o horário de funcionamento de bares.
Pesquisa feita em 2002 pela prefeitura de Diadema, uma das cidades mais violentas
da Grande São Paulo, mostrou que 60% dos homicídios do município
aconteciam a 100 metros de um bar. Ao fixar em 23 horas o horário-limite
de funcionamento dos bares, a cidade conseguiu, em cinco anos, reduzir em 68%
sua taxa de homicídios.
Diminuir benefícios de presos como a redução do cumprimento
da pena no regime fechado, por meio de progressão. "Hoje, até os
autores de crimes hediondos são beneficiados com passagem do regime fechado
para o semi-aberto após o cumprimento de somente um sexto da pena", diz
o promotor de Justiça das Execuções Criminais de São
Paulo Marcos Barreto. Suspender
o benefício dos indultos (de Natal, Dia das Mães...) para criminosos
reincidentes ou condenados por crimes violentos. O cientista social e professor
da Universidade de Brasília Antônio Testa lembra que a freqüência
com que os indultos são concedidos hoje, além de aumentar o risco
a que a população está exposta, obriga o Estado a dispor
de mais policiais na rua e gera desvio de funções.
Suspender o limite para a internação
de adolescentes infratores em centros de ressocialização. Hoje,
eles só podem ficar internados até os 18 anos. "Só deveriam
poder deixar os centros aqueles adolescentes que estivessem realmente ressocializados.
E isso poderia durar três, quatro ou dez anos", afirma Testa.
Criar uma rede multidisciplinar de assistência
para jovens que começam a se envolver com a criminalidade, praticando pequenos
atos de vandalismo ou participando de brigas de rua, por exemplo. "Nenhum jovem
vira assassino da noite para o dia", afirma o sociólogo Cláudio
Beato. "Uma rede de professores, psicólogos e assistentes sociais treinados
pode atuar nas escolas e comunidades, dando suporte e orientação
ao jovem ainda nessa etapa do processo", diz.
Priorizar o policiamento comunitário. "O policial comunitário ganha
a confiança dos moradores, é mais bem informado sobre a criminalidade
no bairro e, portanto, consegue agir com mais eficácia", afirma o sociólogo
Beato. No bairro Jardim Ângela, considerado uma das regiões mais
violentas de São Paulo, a adoção da medida ajudou a reduzir
o número de homicídios em 57% entre 2001 e 2005.
Criar varas especiais que possibilitem o julgamento
mais ágil de policiais acusados de corrupção e outros crimes:
"Um agente suspeito que permanece trabalhando, enquanto aguarda julgamento por
um longo período, contribui para aumentar a sensação de impunidade
e afastar a polícia da sociedade", afirma Ignacio Cano, pesquisador do
Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro. Que se
faça o que tem de ser feito já para conter a hemorragia social provocada
pelo crime. Ou, em breve, estaremos chorando outro João Hélio.
Fotos Lu Teixeira/Agif/AE, Alexandre Sant'Anna/Strana,
Fabiano Costa/Bragan็a Jornal Diario/AE e Luludi/Ag. Luz/Reprodu็ใo
 | A
ESCALADA DA BARBÁRIE Uma sucessão
de crimes que impressionaram pela crueldade e abalaram o país nos últimos
meses: bandidos incendiaram um ônibus no Rio, matando oito pessoas (acima);
a socialite Ana Cristina Johannpeter (acima, à esq.) foi morta
ao parar num cruzamento; e, em Bragança Paulista, ladrões atearam
fogo a um carro com quatro pessoas dentro, entre elas o menino Vinícius,
de 5 anos |  |
Com
reportagem de Ronaldo Soares |