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Auto-retrato
Ken Watanabe
Theo Kingma/Rex Features
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Ator respeitado no Japão, Ken Watanabe, de 47 anos,
vem se tornando um astro fora de seu país, graças
a filmes como O Último Samurai, Memórias
de uma Gueixa e Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood
que estréia nesta sexta-feira no país
e no qual ele interpreta de forma memorável o general
Kuribayashi, que comandou a batalha contra os americanos pela
ilha, na II Guerra. Watanabe conversou com a editora Isabela
Boscov em sua casa em Santa Monica, na Califórnia.
UM FILME COMO CARTAS DE IWO JIMA, SOBRE A DERROTA
NA II GUERRA, PODERIA TER SIDO FEITO NO JAPÃO?
Acredito que não. Especialmente por causa das
bombas atômicas, esses são tempos que ninguém
gosta de rememorar.
NÃO FOI ESTRANHO SER DIRIGIDO POR UM AMERICANO?
Antes de conhecer Clint Eastwood, eu estava muito preocupado
a cultura japonesa, como se sabe, é um bocado
intrincada. Mas Clint deu a nós, os atores, a liberdade
de discutir não só o contexto histórico,
mas também a forma dos diálogos.
O SENHOR LEU AS CARTAS DO GENERAL KURIBAYASHI À
FAMÍLIA. QUE TIPO DE HOMEM ERA ELE?
Um pai muito caloroso, que escrevia aos filhos cartas
divertidas, cheias de desenhos; e um marido muito responsável,
que deixou à mulher instruções não
só sobre como cuidar da casa, mas também sobre
como destruir as lembranças de que ele seria um general
derrotado, para que a vida da família não se
tornasse ainda mais difícil após a guerra.
COMO FOI SUA CONVIVÊNCIA COM OS ATORES MAIS JOVENS,
QUE NUNCA HAVIAM OUVIDO FALAR DA BATALHA DE IWO JIMA?
Todos os dias, quando encerrávamos o trabalho,
eu convidava alguns deles para tomar chá e conversar
sobre seus personagens e as situações que eles
estavam enfrentando. Logo, meu camarim virou uma espécie
de quartel-general o que ajudou a todos, inclusive
a mim mesmo, a entrar nos seus papéis.
QUE PLANOS O SENHOR TEM? RADICAR-SE DE VEZ NOS ESTADOS
UNIDOS OU CONTINUAR TRABALHANDO TAMBÉM NO JAPÃO?
Não faço esse tipo de plano. Sou muito
ligado ao meu país. Mas o que me atrai nos filmes americanos
é que eles são vistos em todo o mundo. Isso
me permite falar a mais pessoas sobre o que é ser japonês
e sobre como vivemos. Gosto da idéia de que posso ajudar
a promover o entendimento entre culturas diferentes.
SUA FAMÍLIA O ACOMPANHA QUANDO O SENHOR ESTÁ
NOS ESTADOS UNIDOS?
Meu filho e minha filha mais velhos, de 22 e 20 anos,
são respectivamente ator e modelo, e trabalham no Japão.
Outro dia, inclusive, vi meu filho num filme, e quando liguei
para cumprimentá-lo chorei tanto que, em vez de receber
os parabéns, ele teve de me consolar. Mas minha mulher
e meu menino de 11 anos estão sempre comigo. O caçula,
felizmente, não quer ser ator. Ele prefere pintar.
É VERDADE QUE O SENHOR PROCURA SEGUIR O BUSHIDO,
O CODIGO DE CONDUTA DOS SAMURAIS, NO DIA-A-DIA?
É verdade, mas não há nada de extraordinário
nisso. O bushido prega coisas simples: proteger os
mais fracos, ser honesto. Coisas, enfim, que todos nós
poderíamos praticar.
O SENHOR É DESCENDENTE DE SAMURAIS?
Não. Descendo de agricultores e professores. Venho
de um vilarejo muito parecido com aquele em que Kuribayashi
cresceu. Antes de ir para Iwo Jima, enchi uma garrafa de água
na cidadezinha natal dele. Chegando à ilha, despejei-a
no solo da caverna que ele ocupava. A água sumiu imediatamente,
e senti que de alguma forma ele falou comigo. Talvez agradecendo
a atenção, ou talvez manifestando sua tristeza
por estar tão longe de casa.
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