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André
Petry
Cova clandestina
"Dentro do
PT, na cúpula do partido e entre
os seus principais líderes, fica proibido
chamar corrupção de corrupção,
mensalão
de mensalão, valerioduto de valerioduto"
Agora, está
claríssimo: o PT quer enterrar seus escândalos
éticos numa cova clandestina. Nada de revolver a terra,
nada de fazer a boa e velha autocrítica, esse processo
tão prezado pela esquerda em geral. Nada de discutir
a fundo sobre a degeneração partidária
que permitiu a produção do valerioduto dos mensaleiros,
do dossiêgate dos aloprados. Nada disso. O PT quer apenas
passar por cima dos escândalos dando a entender à
platéia que tudo não passou, no máximo,
de um erro e, mesmo assim, um erro induzido pelas deformações
do sistema político e eleitoral.
Há dois
sinais eloqüentes na praça da disposição
petista para o acobertamento.
Um deles apareceu
na quinta-feira passada, na abertura da comemoração
dos 27 anos do PT, em Salvador. O evento festivo abriu pedindo
a anistia do deputado cassado José Dirceu... Para quem
não se lembra, Dirceu foi cassado em plenário
por comandar o esquema do mensalão e está denunciado
como um dos chefes do que o procurador-geral da República
chamou de "sofisticada organização criminosa".
O PT, desde que o escândalo veio a público, até
hoje não julgou um único de seus dirigentes
envolvidos na criminalidade. A comissão de ética
do partido está empoeirada. Em vez de pedir um julgamento,
nem que fosse apenas para dar um verniz de democracia partidária,
um pedaço do PT já pede perdão. É
o acobertamento em seu figurino explícito.
O outro sinal veio
antes, quando saiu a público a primeira versão
de um documento intitulado "Mensagem ao Partido", assinado
por uma penca de petistas célebres sob a liderança
do ministro Tarso Genro. Nas versões iniciais, o documento
até que dava nome aos bois: denunciava a crise ética
que tomou conta do partido e acusava o atual grupo dirigente
de enlamear o partido com seu mandonismo e sua desonestidade.
Dizia coisas importantes. Que era preciso "refundar" o partido,
que era preciso criar um "novo campo político" e até
reconhecia que o PT não pode governar o país
sozinho.
Os atingidos
José Dirceu à frente não gostaram,
e o grupo reescreveu o texto da tal "Mensagem ao Partido".
É uma pena. A última forma é uma versão
adocicada, crivada de eufemismos e contorcionismos verbais
para não dizer que crime é crime e que criminoso
é criminoso. Diz que é preciso "resgatar princípios
e valores no interior do partido", mas não diz quais,
nem explica por que, como e onde tais princípios e
valores foram para o brejo. Diz que é preciso consolidar
"uma verdadeira ética republicana", mas não
define o que é isso nem qual teria sido, neste caso,
a falsa ética republicana...
O caso demonstra
que, dentro do PT, na cúpula do partido e entre seus
principais líderes, fica proibido chamar corrupção
de corrupção, mensalão de mensalão,
valerioduto de valerioduto. E, assim, tudo se combina: fazem-se
menções apenas protocolares e envergonhadas
à falência ética e, simultaneamente, promove-se
um festivo movimento para anistiar Dirceu sem nem mesmo
uma reuniãozinha, uma que seja, para avaliar qual foi
sua participação no mensalão. Para um
partido que saltou do socialismo para a social-democracia
sem fazer escala na autocrítica, para um partido que
fez o mesmo vôo direto do estatismo para a economia
de mercado, não é surpresa que agora empreenda
uma viagem descabelada a de pensar em refazer-se de
uma crise sem reconhecer a própria crise.
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