Especial Investimento
O
que fazer para não
ser o pato em 2009
Saiba
como proteger o seu dinheiro e não
ser abatido pelo tiroteio da crise
financeira

Cláudio
Gradilone e Juliana Garzon
Up
Ilustração
 |
No
segundo semestre de 2008, uma pedra gigantesca desabou sobre as águas plácidas
da economia mundial. As ondas que partiram do mercado financeiro, epicentro do
desastre, devem se espraiar em círculos cada vez mais amplos em 2009. As
previsões de crescimento para o Brasil, no ano que vem, falam em 2,4%.
Isso é menos da metade do que se verificou em 2008. Nesse cenário,
o indivíduo que descuidar de suas finanças poderá ser abatido
como o proverbial patinho na lagoa. Quem agir poderá não apenas
preservar o seu dinheiro, mas também multiplicá-lo. Nas próximas
páginas, o leitor encontra um guia para atravessar 2009 em segurança
do ponto de vista financeiro.
A primeira
reportagem enfoca os dez tipos de investimento mais comuns, analisa o impacto
que a crise pode ter sobre eles e indica como escapar das armadilhas. "O
tolo e seu dinheiro" aborda o "inimigo interno" de todo
investidor as inclinações naturais da espécie humana,
exploradas por duas ciências jovens, a economia comportamental e a neuroeconomia,
que nos levam a tomar decisões desastradas ao lidar com dinheiro. A guerra
em torno das finanças domésticas, que leva a quatro em cada dez
divórcios segundo uma nova pesquisa, e a necessidade de cuidar da "alfabetização
financeira", seja com leituras, seja nos cerca de 500 cursos voltados a essa
finalidade no Brasil, completam o quadro.
Haja
ou não crise, alguns fundamentos básicos da arte de investir não
mudam. Um deles é a necessidade de diversificar as aplicações
para reduzir os riscos. Nossas avós diziam para não colocar todos
os ovos na mesma cesta ditado que foi confirmado por vários prêmios
Nobel de Economia. Investir, além disso, sempre será parecido com
fazer uma viagem. Nada vai dar certo se o investidor não tiver um objetivo
claro. Assim como o viajante, ele pode escolher entre uma jornada rápida
e arriscada e outra em que se contempla a paisagem, mas que demora mais tempo.
Há, finalmente, recomendações como a de Warren Buffett, um
dos três homens mais ricos do mundo: não invista em nada que você
ache incompreensível. Investir é como escolher uma roupa. Além
de olhar se combina, o investidor tem de se sentir confortável com o que
está usando.
Nos últimos
dez anos, uma mudança cultural considerável já se deu no
Brasil. Há mais informação circulando, e mais gente alerta
para a necessidade de planejar sua vida financeira pois isso, no fim das
contas, se traduz em capacidade para realizar as próprias aspirações.
É o que se vê com clareza na bolsa de valores. Atualmente, mais de
meio milhão de brasileiros já se habilitaram a comprar e vender
ações diretamente na Bovespa. As primeiras ondas da crise iniciada
em 2008 machucaram esse grupo de pessoas: no segundo semestre, o índice
Bovespa despencou quase 50%. Diante de tamanho prejuízo, seria de esperar
que os pequenos investidores bateriam em retirada. Não foi o que ocorreu.
Encerrado o ano, a bolsa contava com 80 000 novos investidores. É
sinal de que surgiu uma nova mentalidade, e de que o poupador brasileiro, especialmente
o mais jovem, sabe que um pouco de ousadia e diversificação das
aplicações é necessário para alcançar uma rentabilidade
maior. Junte-se a ele.
10 decisões
financeiras
Ilustrações
Stefan
 |
1
- POUPANÇA
É
a porta de entrada para o mundo dos investimentos. Aplicação
segura, isenta do imposto de renda e de taxas de administração.
Mas o rendimento é pequeno.
O cenário atual:
em 2008, a poupança bateu a inflação por muito pouco: rendeu
8%, contra 6% do IPCA. O ganho real, portanto, é ínfimo.
Não
seja o pato: com aplicações a partir de 1 000 reais já
é possível encontrar fundos de investimento tão seguros quanto
a poupança e mais rentáveis. Diz Marcelo Xandó, diretor
da Verax Serviços Financeiros: "A caderneta deve ser usada para acumular
um volume inicial de recursos, que depois devem ser distribuídos em outras
aplicações".
2
- FUNDOS DI E DE RENDA FIXA
Aplicações lastreadas por
títulos públicos e privados, são um porto seguro em tempos
de crise. O rendimento fica próximo ao da taxa básica de juros definida
pelo Banco Central, descontados impostos e taxa de administração.
Cenário atual: no fim de 2008, o BC deu sinais de que vai reduzir
a taxa de juros, atualmente em 13,75% ao ano, na próxima reunião
de seu Comitê de Política Monetária, em 21 de janeiro. É
uma medida para estimular a economia. Se a tendência de redução
se mantiver ao longo de 2009, a rentabilidade dos fundos DI e de Renda Fixa poderá
ser menor que os 12% alcançados em 2008 mas ainda bastante elevada
em termos comparativos: basta lembrar que países como Estados Unidos e
Inglaterra derrubaram seus juros para perto do zero.
Não seja o
pato: preste atenção às taxas de administração
cobradas pelos bancos: elas podem devorar boa parte do rendimento da sua aplicação.
Fuja de fundos DI ou de renda fixa que tenham taxas de administração
acima de 2% ao ano.
3
- CDBs
São os certificados de depósito bancário,
um título emitido pelas instituições financeiras para levantar
capital.
Cenário atual: com o enxugamento do crédito
externo causado pela crise global, os bancos passaram a pagar juros mais elevados
na tentativa de atrair investidores para os seus papéis. Essa tendência
deverá continuar em 2009, tornando os CDBs uma das aplicações
mais atraentes do momento.
Não seja o pato: o maior risco
de aplicar em CDBs é a quebra da instituição que os emitiu.
O setor bancário brasileiro tem solidez para enfrentar a crise mas
não custa se precaver. Privilegie os CDBs de grandes bancos, públicos
ou privados. Se aplicar volumes superiores a 60 000 reais, que são garantidos,
pense na possibilidade de distribuir a aplicação em mais de uma
instituição financeira. rfaa de administraç

4
- AÇÕES
Cada ação é uma parcela de
participação numa empresa. O preço dos papéis reflete
a expectativa de lucros futuros daquele negócio
Cenário atual:
Depois de cinco anos seguidos de alta e euforia, a Bovespa teve um 2008 trágico:
perdeu quase metade de seu valor. No curto prazo, a alta volatilidade torna a
aplicação arriscada. Mas a Bovespa dá sinais de recuperação
e acumula alta de 11% neste ano. "As ações apresentam boas
oportunidades de investimentos, especialmente no segundo semestre, com a perspectiva
de retomada na economia mundial", diz Julio Martins, diretor da Prosper Gestão
de Recursos. Lembre-se de que, apesar da perda do ano passado, a Bovespa acumula
alta de 280% desde o início de 2003
Não seja o pato: A
chave é diversificar. Mesmo os investidores mais experientes não
aplicam todos os seus recursos em ações, e nunca nos papéis
de uma única empresa. Evite comprar papéis de empresas novatas na
bolsa (elas até podem se provar lucrativas no futuro, mas tendem a ser
apostas arriscadas). Nunca haja por impulso. Não se deixe levar pelo comportamento
de manada, que conduz ao mais grave dos erros: comprar ações na
euforia da alta para vendê-las (com prejuízo) no pânico da
baixa
5
- FUNDOS DE AÇÕES
Como diz o nome, eles têm a maior
parte de seus recursos aplicada em ações. São ideais para
quem quer colocar ao menos parte do seu dinheiro na bolsa, sem a necessidade de
negociar diretamente os papéis
Cenário atual: Esses fundos
acompanham a oscilação vertiginosa das ações, o que
os torna arriscadíssimos para quem precisa do dinheiro no curto prazo.
Mas há boas chances de eles voltarem a ser um dos investimentos mais rentáveis
em 2009
Não seja o pato: Antes de escolher um fundo, veja em
quais papéis ele aplica os recursos. Privilegie aqueles que tenham papéis
de empresas sólidas em sua carteira. Mantenha o sangue-frio em caso de
desvalorização. Quando a maré virar, o capital poderá
ser recuperado. Não se esqueça de que perdas e ganhos só
ocorrem de fato quando o investidor decide sacar os recursos
6
- FUNDOS MULTIMERCADOS
Suas carteiras contêm vários tipos
de papéis. Os conservadores concentram suas apostas em títulos públicos
e ações. Mas existem os mais agressivos e até os ultra-arriscados
que não se detêm sequer diante dos famigerados "derivativos
tóxicos"
Cenário atual: Com valorização
média de 5%, tiveram em 2008 resultado menos desastroso que o dos fundos
de ações. Mas perderam da inflação
Não
seja o pato: Mais uma vez, preste atenção em que tipo de papéis
o fundo aplica os recursos. Se quiser evitar surpresas desagradáveis, opte
por aqueles que invistam apenas em títulos públicos e em ações
de grandes empresas. Mais vale ser um conservador com dinheiro do que um especulador
falido
7
- DÓLAR
A divisa dos Estados Unidos é a moeda mais negociada
e mais aceita no mundo, sendo um refúgio para os investidores em momentos
de turbulência
Cenário atual: Depois de cinco anos seguidos
de queda, o dólar voltou a se valorizar em 2008. Muitos investidores estrangeiros
tiraram divisas do Brasil para cobrir obrigações lá fora.
Se o dinheiro desses investidores voltar, a cotação da moeda deverá
recuar novamente. É a aposta dos especialistas. Diz Silvio Campos Neto,
economista do banco Schabin: "O movimento global de valorização
do dólar deverá se reverter".
Não seja o pato:
Tratar o dólar como um investimento é algo altamente arriscado.
A cotação oscila muito, e rapidamente. Nenhum economista consegue
prever com exatidão a cotação futura. Não especule.
Isso é coisa para profissionais. Caso tenha alguma viagem programada, compre
dólares aos poucos, aproveitando os movimentos de baixa

8
- PREVIDÊNCIA PRIVADA
São fundos nos quais se deposita
todo mês uma parcela do salário, para garantir a renda depois da
aposentadoria
Cenário atual: Há fundos compostos exclusivamente
por títulos públicos e outros mais agressivos, que aplicam até
30% de seus recursos em ações. Os primeiros tiveram alta de 11%
em 2008. Os segundos, queda de 10%
Não seja o pato: Tenha em
mente o seu horizonte de aplicação. Quem tem mais de 50 anos e está
prestes a se aposentar deve optar por fundos conservadores, não sujeitos
à volatilidade das ações. Os poupadores mais jovens podem
ousar e contratar carteiras carregadas de ações. "Aplicações
mais arriscadas ficam bem mais interessantes quando ainda falta muito tempo para
o investidor se aposentar", afirma o consultor Caio Torralvo.
9
- IMÓVEIS
A compra da casa própria é de longe a
decisão financeira mais importante na vida da maioria das famílias.
Costuma representar a fatia mais encorpada do seu patrimônio
Cenário
atual: Com a crise, caiu o ritmo de vendas de casas e apartamentos novos.
Há uma boa quantidade de apartamentos e casas à venda. O comprador
ganhou poder de barganha para obter um desconto. Além disso, há
bancos que não subiram os juros do financiamento imobiliário.
Não
seja o pato: Pesquise, reflita e pechinche. Analise sua condição
financeira a fundo e não assuma uma dívida que comprometa mais de
30% de seu salário. Lembre-se de que se trata de um financiamento longo,
em geral superior a dez anos
10
- CARROS
O carro novo é um objeto de desejo, e o principal bem
de consumo durável de uma família
Cenário atual:
Os estoques das montadoras estão elevados, e o governo diminuiu os impostos.
O resultado é que os carros novos ficaram mais baratos especialmente
para quem não se importar em adquirir um modelo com ano de fabricação
de 2008. Mas os financiamentos ficaram mais caros e mais difíceis. Além
disso, os preços dos usados, que normalmente servem de entrada na aquisição
de um veículo novo, caíram bastante, o que deixou a troca mais complicada
Não
seja o pato: É preciso pesquisar, e muito, em diversas concessionárias
tanto para obter o menor preço possível pelo novo a ser comprado
como para conseguir a melhor cotação para o seu usado. Quem for
financiar precisa comparar minuciosamente as taxas de juros cobradas. Elas variam
bastante entre os bancos. Nem sempre a financeira da concessionária oferece
as melhores condições