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Edição 2095

14 de janeiro de 2009
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Ambiente
Onde está o efeito estufa?

O frio verão no Brasil e o inverno forte na Europa significam
que o aquecimento global é lenda? O Ártico demonstra que não


Leandro Narloch

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Quadro: A perda de cobertura do "gelo eterno"

Com um verão destes no sul do Brasil, em que as temperaturas diurnas mal passam dos 20 graus e os ventos assoviam nas madrugadas geladas (a média em São Paulo tem estado quase 2 graus mais baixa que nos anos anteriores), como explicar que ainda se fale em "aquecimento global"? O inverno rigoroso no Hemisfério Norte (caiu neve em Las Vegas, um forno no deserto americano; a Inglaterra teve o mês de dezembro mais gelado em dez anos) também não ajuda a manter acesos os alertas dos cientistas sobre o iminente desastre climático global a ser provocado pelo efeito estufa. Mas, garantem os cientistas, é melhor não nos deixarmos levar pelas aparências dos verões frios e invernos rigorosos ao mesmo tempo nas duas calotas do planeta. Para eles, o aquecimento global continua sendo uma ameaça séria. Diz Lincoln Alves, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe): "A mudança climática é uma tendência de longo prazo que não pode ser fundamentada por apenas uma estação e que não inibe a ação das centenas de variáveis que influenciam o clima".

No Brasil, a temperatura caiu por causa de aglomerados de nuvens que se formam da Amazônia ao Sudeste, bloqueando o calor vindo do Oceano Atlântico. "Esse fenômeno inibe o aquecimento da superfície, fazendo a temperatura cair", diz Alves. O país ainda recebe influência do La Niña, o resfriamento sazonal exagerado das águas do Oceano Pacífico na altura do Equador. Esse fenômeno tem características bastante conhecidas. O sul brasileiro passa a receber ventos secos vindos do Pacífico – daí a estiagem que a região enfrenta. O mesmo fenômeno leva mais frio para a América do Norte e a Europa. Em 2008, o La Niña fez a temperatura média do planeta cair para sua menor marca nos últimos sete anos. Mesmo assim, o ano passado foi quente – não apenas na economia. Com La Niña e tudo, 2008 ainda ficou entre os doze anos mais quentes desde que a medição global de temperatura começou a ser feita, em 1880.

O aquecimento global continua mandando sinais inequívocos para os cientistas. O mais dramático deles é o encolhimento das calotas polares. O Ártico é o indicador mais significativo da mudança climática porque nenhuma outra região do mundo é tão sensível ao efeito estufa. A calota polar norte recebe dos países do Hemisfério Norte ventos impregnados de dióxido de carbono, o principal gás encapsulador de calor da atmosfera. A poluição também deixa a neve menos branca, aumentando a absorção da luz que chega à superfície. Em consequência disso, a temperatura aumenta e o que já foi chamado de "gelo eterno" derrete. Nos últimos dois verões do Hemisfério Norte, a calota atingiu os menores índices de que se tem notícia. Em setembro de 2008, chegou ao tamanho mínimo de 4,5 milhões de quilômetros quadrados, 33% menor que em 1979, quando começou o monitoramento da região com sensores e fotos de satélite. Pela primeira vez, o Ártico deixou de ligar a América do Norte e a Ásia. O derretimento tornou possível circum-navegar a calota. "Comparando as primeiras imagens com as da semana passada, percebe-se que o Ártico não só derrete mais no verão como está congelando menos durante os meses de inverno", disse a VEJA William Chapman, geógrafo do Cryosphere Today, o serviço da Universidade de Illinois que registra diariamente a área congelada do planeta. O frio dos últimos dias, portanto, não pode ser entendido como evidência de atenuação do temido aquecimento global.



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