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Edição 2095

14 de janeiro de 2009
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Brasil
UMA NOIVA REBELDE

Aliado do governo, o PMDB ignora acordo com o PT
sobre o comando do Congresso, divide-se entre Dilma
e Serra e apresenta faturas cada vez mais pesadas a Lula


Otávio Cabral

ENTRE PRESIDENTES
Lula e Sarney têm encontro marcado nesta semana: em busca de uma saída para
o impasse entre PT e PMDB

O PMDB é o maior partido do país. A sigla comanda 1 199 prefeituras, incluindo seis das principais capitais, que concentram 30 milhões de eleitores. Também controla sete governos estaduais e tem maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Esse vigor, somado à ausência de um projeto próprio de governo, transformou o PMDB na noiva mais cobiçada da próxima eleição presidencial. Com seis ministérios no governo do presidente Lula, o natural seria que a sigla estivesse empenhada em garantir a paz no consórcio governista e preocupada em viabilizar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, ao Palácio do Planalto. Nada disso. Coerente com sua história recente, o PMDB tem se dedicado a re-editar uma velha fórmula política, a de dividir para governar, com o objetivo de se entronizar no poder. O partido ameaça romper um acordo com o PT sobre o comando do Congresso Nacional e, faltando dois anos para a eleição presidencial, já decidiu apoiar o adversário de Lula em cinco estados, entre eles São Paulo (veja mapa). Eis, portanto, a única certeza da próxima disputa eleitoral: o PMDB, graças a sua força e ambiguidade, estará no governo em 2011, independentemente de quem estiver no comando do país.

Criado há 42 anos, o PMDB já esteve na vanguarda dos principais acontecimentos políticos de seu tempo. Nos últimos anos, porém, perdeu consistência ao misturar em seus quadros militantes históricos e figuras que entraram para a história apenas por causa dos escândalos em que se envolveram. Transformado em uma geleia geral do ponto de vista programático e doutrinário, sua robustez eleitoral, como era de esperar, agora aguça os apetites presidenciais do tucano José Serra e da petista Dilma Rousseff. Por enquanto, a maioria dos estados está fechada com Dilma, mas a atual aliança não garante o apoio formal do partido à candidata de Lula. É que, além de lideranças importantes já estarem perfiladas ao lado de Serra, a chamada verticalização, regra que impede alianças estaduais diferentes das feitas em âmbito nacional, dificulta o apoio formal do PMDB a qualquer um dos candidatos. Também por causa disso, o presidente da legenda, Michel Temer, tem desencorajado os potenciais candidatos a vice de Dilma ou Serra.

A estratégia da divisão é tão evidente que alguns líderes falam abertamente sobre ela. "O compromisso de apoiar Lula não significa uma aliança em 2010. O mais provável é ficar neutro, dividido", diz o deputado federal Eunício Oliveira (PMDB-CE), ex-ministro das Comunicações de Lula. Ele explica que a falta de unidade se deve ao fato de o PMDB possuir uma grande capilaridade nos estados, dificultando que se chegue a um consenso, o que não deixa de ser verdade. Os estudiosos da política, no entanto, garantem que a razão da divisão é o fisiologismo. "O PMDB sabe que é mais fácil atender todos os seus caciques se mantiver a dubiedade. O estatuto do partido admite a dissidência e não obriga filiados a votar de acordo com o que o partido decide. Talvez seja a única legenda do mundo democrático que não pune a infidelidade", afirma o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília. "Somos o partido do centro, do equilíbrio e da governabilidade", diz o líder do governo no Senado, o peemedebista Romero Jucá.

Uma demonstração da ambiguidade que rende dividendos políticos é o anúncio de que o PMDB tentará eleger no próximo mês os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A ofensiva contraria um acordo que divide o comando do Congresso entre PT e PMDB – e já é motivo de dor de cabeça para o presidente Lula. Nesta semana, ao retornar de suas férias na Bahia, Lula tem um encontro marcado com o senador José Sarney, principal cacique da legenda, para tentar resolver o impasse. Pelo acordo original, os petistas apoiariam a eleição de Michel Temer à presidência da Câmara e, em troca, os peemedebistas ajudariam a eleger o petista Tião Viana presidente do Senado. A suposta ambição hegemônica do PMDB no Legislativo, no entanto, pode não ser o que parece. A criação de uma dificuldade imprevista ajudará o partido a negociar com Lula, além dos cargos e verbas de sempre, dois pleitos específicos. Longe dos holofotes, o senador José Sarney está em campanha pela demissão do ministro da Justiça, Tarso Genro, a quem atribui uma investigação contra seu filho Fernando Sarney, suspeito de corrupção. Já o senador Renan Calheiros, que escapou de ser cassado em 2007, pretende recuperar a liderança do partido e a interlocução com o governo. O PMDB, além de rebelde, é uma noiva muito dispendiosa.

 

 

 

 
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Fotos Lailson Santos e Celso Junior/AE



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