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Brasil Os bandidos não querem só seu dinheiro, seu carro e suas joias. Agora, eles também roubam sua privacidade e seu sigilo fiscal, bancário e telefônico. E fazem isso com muita facilidade
Quanto custa violar os sigilos bancários, fiscais e telefônicos de um cidadão qualquer? No Brasil, os preços começam em 35 reais. Foi por esse valor que funcionários das empresas de telefonia venderam a privacidade de clientes em São Paulo. Por 800 reais, é possível levantar a movimentação bancária e a fatura do cartão de crédito das vítimas. Se barganhar, sai por 200. Por 1.500 reais, pode-se comprar uma declaração de imposto de renda extraída diretamente dos computadores da Receita Federal. Na semana passada, uma operação da polícia paulista e do Ministério Público revelou essas operações assustadoras. A investigação mostra que esse comércio é dominado por policiais corruptos e detetives particulares. Eles usam como comparsas empregados das telefônicas e funcionários dos bancos e das operadoras de cartão de crédito. As informações surrupiadas permitem que eles cometam outros tipos de crime. Extorsão, espionagem industrial, roubos, clonagem de cartões de crédito e outras fraudes financeiras estão entre os mais comuns. Ninguém está a salvo dessa gente. No rol de suas vítimas, misturam-se anônimos e ilustres, como o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, José Aníbal (SP). Os policiais e promotores paulistas começaram a investigar a indústria da quebra de sigilo em 2004. Em outubro daquele ano, descobriu-se que um bando de policiais da cidade de Osasco, na Grande São Paulo, falsificava autorizações judiciais para grampos e as levava às operadoras de telefonia. Eles bisbilhotavam quem queriam. Graças a esse expediente, chegaram a monitorar dezenove linhas ao mesmo tempo. Fizeram isso com advogados e executivos ligados ao Carrefour, ao Pão de Açúcar, ao BBVA. Os policiais formavam apenas um dos filamentos dessa máfia. O grosso das informações transitava por agências de detetives particulares, que quebram sigilos a pedido de empresários, políticos, cônjuges traídos e trambiqueiros de toda espécie. Para investigar esse golpe, optou-se por uma estratégia ousada: infiltrar um agente. O policial destacado para a tarefa levava uma vida dupla. Matriculou-se em cursos de detetive, ganhou a confiança de donos de agências e passou a frequentar happy hours dessa turma. O agente identificou duas quadrilhas que prestavam serviços no atacado a quase todos os investigadores particulares da capital paulista. A primeira delas funcionava em um sobrado na Zona Leste da cidade. Lá, três pessoas trabalhavam das 8 da manhã às 8 da noite, de segunda a sexta-feira, violando cadastros, senhas e, principalmente, históricos de chamadas dos clientes de companhias de telefonia. Obtinham as informações com uma estratégia rudimentar. Por telefone, falavam com empregados e diziam ser do departamento de cobrança das próprias empresas. Afirmavam estar com problemas no computador e pediam a confirmação de dados de clientes. A polícia gravou centenas de ligações em que, em poucos minutos, os golpistas levantavam a ficha completa das vítimas. O bando chegou a contratar um funcionário da Telefônica, que opera a telefonia fixa no estado, para repassar os dados. Pagavam-lhe 35 reais por sigilo violado e eram dezenas por semana. Se as encomendas diminuíam, o funcionário reclamava "mais serviço". A quadrilha tinha até um especialista na obtenção de dados fiscais: o detetive Domingos Esteves Junior. Graças a um contato na Receita Federal, ele vendia declarações de imposto de renda. Essas informações eram valiosas, principalmente, em casos de divórcio.
Foi essa a quadrilha que violou os dados do cadastro telefônico do deputado José Aníbal. A espionagem foi encomendada por Angela Bekeredjian, mais conhecida como Angela Detetive. Uma obscura investigadora particular, Angela ganhou notoriedade depois que a apresentadora Luciana Gimenez a escalou para participar de um quadro do programa SuperPop, na Rede TV!. Nele, Angela ajuda a desvendar casos de infidelidade conjugal. Os policiais e promotores ainda não sabem quem contratou Angela para bisbilhotar José Aníbal. Suspeitam, porém, que o caso pode ter razões políticas, porque o serviço foi encomendado no dia seguinte ao primeiro turno da eleição do ano passado. A segunda quadrilha descoberta era mais sofisticada e também mais perigosa. A detetive Rosimeire Scrittore montou uma rede de quebra de sigilo envolvendo a Vivo, empresa para a qual presta serviços, o Banco Real e a operadora de cartões de crédito Amex. Com livre trânsito nos departamentos de combate a fraude dessas empresas, Rosimeire obtinha dados sigilosos sobre quem quisesse com um simples telefonema. Na Vivo, contava com a colaboração de ninguém menos que o gerente de segurança de informação, José César Hanna, e o consultor Flávio Moraes. A dupla franqueava a Rosimeire acesso aos dados de qualquer cliente. Na Amex, seu contato era um gerente do departamento de segurança. No Real, relacionava-se com uma funcionária do setor de combate a fraudes. Rosimeire não pagava nada pelos dados: fazia permuta. Quando os funcionários dos bancos queriam vasculhar as ligações telefônicas de alguém, ela conseguia o material na Vivo. Quando era o pessoal da operadora que queria bisbilhotar a vida bancária de outra pessoa, ela fazia a informação trafegar no sentido inverso. Obviamente, usava a rede para atender aos interesses de seu escritório e de seus clientes. E ganhava muito dinheiro com isso. A robustez da investigação conduzida pelo delegado Ruy Ferraz Fontes e pelos promotores Márcio Christino e Pedro Baracat reanimou a CPI dos Grampos, que caminhava para sua conclusão. "A operação feita por eles comprova o que levantamos nos últimos meses: há fraudes sendo cometidas dentro das operadoras, por funcionários desonestos. As telefônicas têm de se responsabilizar por isso", diz o presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ). Itagiba quer usar o material para pedir ao Congresso que endureça a punição para quem viola sigilos. Hoje, a pena para esses delitos é irrisória. Varia de dois a quatro anos de prisão. Como é muito baixa, quem é condenado nem vai para a cadeia. É comum que as penas sejam convertidas na compra de cestas básicas, que, de acordo com a contabilidade dos golpistas, podem ser pagas com apenas duas quebras de sigilo telefônico. É assustador.
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