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Tales
Alvarenga O PT míope
"Nietzsche
tem uma soberba, uma arrogância, uma tal petulância que me levou
a pensar em alguns figurões da cúpula do PT que se distinguem
pelas mesmas características" Na
terça-feira passada, submeti-me a uma cirurgia nos olhos para ver o mundo
sem deformação. Na mesma noite, graças ao progresso das operações
a laser, pude ler pela primeira vez sem óculos em duas décadas.
Escolhi, como leitura, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, um
dos mais provocantes pensadores da cultura ocidental. Nietzsche tem uma soberba,
uma arrogância, uma tal petulância que me levou a pensar em alguns
figurões da cúpula do PT que se distinguem pelas mesmas características:
José Dirceu, Marta Suplicy, Aloizio Mercadante.
Sobre seu livro mais famoso, Assim Falava Zaratustra, escrito há
mais de 100 anos, Nietzsche informa: "Com ele, dei à humanidade o maior
presente que lhe foi dado até hoje. Esse livro, com sua voz que será
ouvida ainda em milênios, não é apenas o livro mais alto que
existe. Ele é também o mais profundo que veio ao mundo". Na sua
autobiografia filosófica, Ecce Homo, Nietzsche coloca nos três
primeiros capítulos os seguintes títulos: 1) "Por que eu sou tão
sábio"; 2) "Por que eu sou tão inteligente"; 3) "Por que eu escrevo
livros tão bons". Nietzsche
tinha dois ou três motivos para ser arrogante. Os petistas não têm
nenhum, a não ser a imagem deformada de sua própria importância,
criada pela miopia do partido. O PT já tentou impor a censura à
imprensa no Brasil e inventou uma fórmula chamada Ancinav para controlar
as manifestações culturais. Infiltrou seus militantes na máquina
administrativa num número nunca igualado por nenhuma outra legenda e financiou
campanhas eleitorais milionárias sem constrangimento algum. Nas últimas
eleições municipais, fez alianças desesperadas, mandando
às favas os escrúpulos éticos que exibiu por mais de vinte
anos. O PT faz isso em decorrência
de sua origem como partido que se incumbiu a si próprio de salvar o Brasil
da perversidade das elites locais. Julga-se, por esse motivo, o único representante
legítimo dos interesses populares. Nessa posição, acha que
fala em nome do povo e que tudo lhe é permitido.
O PT venceu as eleições municipais, cresceu muito e se estabeleceu
no país inteiro. Está mais do que na hora de se submeter a uma cirurgia
dos olhos para avaliar melhor a complexidade do universo em que atua. Seu complexo
de Nietzsche, sua prepotência, só prejudica o sonho petista de se
instalar no poder por mais vinte anos.
A cirurgia ocular do PT deveria vir destas eleições municipais.
A vitória foi respeitável no geral. No particular, o partido sofreu
humilhações. A reeleição de Marta Suplicy em São
Paulo foi apontada pelos próprios petistas como o grande teste para a eleição
presidencial de 2006. Acuado, com pavor de perder, o PT apelou até para
uma aliança descarada com o ex-arquiinimigo Paulo Maluf. Marta foi batida
no primeiro turno e tentará a última chance no segundo. No Rio,
o petista Jorge Bittar teve 6,3% dos votos. Em São Bernardo, onde o PT
nasceu do movimento sindical, Vicentinho, amigo de Lula, foi derrotado. Para a
eleição em Salvador, o Palácio do Planalto fez um acerto
com ACM e ficou contra seu próprio candidato, Nelson Pellegrino. Na semana
passada, a cúpula do PT não dava sinais de que precisa refletir
sobre os rumos do partido. O título completo da autobiografia de Nietzsche
é: Ecce Homo De Como a Gente Se Torna o que a Gente É.
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