Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O jogo do biógrafo
e do biografado

Um livro sobre Graham Greene faz pensar
numa relação cheia de caprichosas sugestões

Uma megabiografia de Graham Greene (1904-1991), o autor de O Americano Tranqüilo e Nosso Homem em Havana, está saindo nestes dias na Inglaterra. O autor, Norman Sherry, é um professor de literatura inglesa que dedicou 27 de seus 69 anos – 40% da vida! – ao trabalho. Na verdade, o que está saindo agora é o terceiro e último volume da obra. O primeiro foi publicado ainda em vida de Greene, que ao lê-lo comentou com Sherry: "Como você descobriu essas coisas todas?". O trabalho de Sherry tem sido recebido com estupefação pelos críticos, tanto pela qualidade quanto pela monumentalidade. Igualmente espantoso é o lado humano da aventura de Sherry – alguém que, com o grau máximo de profundidade e compromisso, investe a vida na vida de outrem. O assunto merecia outro livro. Um outro Sherry que dedicasse a vida a estudar a fundo o mergulho de Sherry na vida de Greene.

A empreitada do biógrafo foi relatada numa reportagem recente do jornal inglês The Independent, assinada por Andrew Gumbel. Sherry dispôs-se, nos sete primeiros anos de trabalho, a refazer as viagens de Greene, um notório caçador de aventuras pelos quatro cantos do mundo. Esteve em lugares como o Panamá, o Haiti e a Libéria, e enfrentou perigos e desgraças em cada um deles. No Panamá contraiu doença nos intestinos. No Haiti da ditadura dos Duvalier, foi detido no aeroporto por carregar na bagagem um exemplar de Os Comediantes, livro de Greene ambientado no país. Na Libéria, além de ter contraído um diabetes tropical, foi assaltado por um ladrão que lhe enfiou o revólver ouvido adentro, causando-lhe incurável problema de audição.

O primeiro encontro de Sherry com Greene, na década de 70, em Londres, quando ele se ofereceu para escrever a biografia, já foi bizarro. Depois de uma conversa no club de Greene, em que o romancista começou por dizer que detestava acadêmicos ("Eles são interessantes do pomo-de-adão para cima, mas não têm nada nas calças"), os dois saíram para um passeio. A alturas tantas, Greene disparou a correr, atravessou a rua às cegas e foi jogado ao chão por um táxi. "O senhor quase perdeu seu assunto, professor Sherry", disse-lhe, enquanto o outro o ajudava a levantar-se. "Não tão grave quanto perder seu biógrafo, senhor Greene", respondeu Sherry. Nesse momento, fecharam negócio. Greene combinou que, nas entrevistas com o biógrafo, não responderia a perguntas de que não gostasse, mas, quando respondesse, só diria a verdade.

A verdade norteou o acordo entre os dois. Greene dizia que não se importaria que o livro falasse mal dele. Importava-se com a verdade. Sherry orgulha-se de o resultado ser uma biografia autorizada em que não precisou ter cuidado com os melindres do biografado. O cuidado foi só com a verdade. Quando quis saber das tentativas de suicídio de Greene na adolescência, o romancista calou-se. Sherry foi à luta e entrevistou os colegas de Greene. Em dois deles encontrou as informações que buscava. No fim, Sherry sabia tudo sobre Greene. "Eu o conheço melhor do que a mim mesmo", disse ao jornalista do The Independent. Será que o próprio Greene se conhecia como Sherry veio a conhecê-lo? O trabalho de Sherry possui algo de assustadoramente atrevido. Tem algo a ver com produzir o clone de um ser humano num laboratório.

Um incidente fantasmagórico ocorreu numa visita de Sherry à casa que Greene mantinha em Capri. O biógrafo imaginava estar lá só com uma amiga de Greene, a condessa Cerio, mas à noite um vulto de homem, com a estatura de Greene, abriu a porta de seu quarto e desapareceu. Na manhã seguinte, Sherry perguntou à condessa se Greene estivera na casa. Ela respondeu que não. Ele nem estaria em Capri. No funeral de Greene, anos depois, a condessa confessou que era o romancista, sim. Greene lhe dissera que queria espionar Sherry da mesma forma como Sherry o espionava. Bem que Greene podia ter encarado a sério tal tarefa. O resultado seria o feito, inédito, de escrever a biografia de seu próprio biógrafo. O biógrafo, por sua vez, incluiria em seu trabalho o período em que o biografado se pôs a escrever sobre a vida dele próprio, biógrafo.

Jorge Luis Borges teria gostado desse jogo de espelhos. Greene não levou adiante sua espionagem, mas está aberta a possibilidade de um outro escrever a biografia de Sherry, o homem que ofereceu a própria vida em troca da vida de Greene. Depois, quem sabe, viria uma biografia do biógrafo de Sherry. Eis-nos em outro jogo de espelhos. A relação de um biógrafo como Sherry com seu biografado é rica em sugestões. Sherry chega ao martírio, nas viagens em que refazia as andanças de Greene, como se quisesse senti-lo reviver no próprio corpo. Greene, por seu lado, quando se faz de espião do biógrafo, em Capri, reage como em vingança contra alguém que lhe usurpara a vida. Estamos num universo, feito de assombrações e maravilhas, em que vidas são tomadas de empréstimo, trocadas, doadas, roubadas.

 
 
 
 
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