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Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo O jogo do biógrafo e do biografado
Um livro
sobre Graham Greene faz pensar numa relação cheia de caprichosas
sugestões Uma
megabiografia de Graham Greene (1904-1991), o autor de O Americano Tranqüilo
e Nosso Homem em Havana, está saindo nestes dias na Inglaterra.
O autor, Norman Sherry, é um professor de literatura inglesa que dedicou
27 de seus 69 anos 40% da vida! ao trabalho. Na verdade, o que está
saindo agora é o terceiro e último volume da obra. O primeiro foi
publicado ainda em vida de Greene, que ao lê-lo comentou com Sherry: "Como
você descobriu essas coisas todas?". O trabalho de Sherry tem sido recebido
com estupefação pelos críticos, tanto pela qualidade quanto
pela monumentalidade. Igualmente espantoso é o lado humano da aventura
de Sherry alguém que, com o grau máximo de profundidade e
compromisso, investe a vida na vida de outrem. O assunto merecia outro livro.
Um outro Sherry que dedicasse a vida a estudar a fundo o mergulho de Sherry na
vida de Greene.
A empreitada do biógrafo foi relatada numa reportagem recente do jornal
inglês The Independent, assinada por Andrew Gumbel. Sherry dispôs-se,
nos sete primeiros anos de trabalho, a refazer as viagens de Greene, um notório
caçador de aventuras pelos quatro cantos do mundo. Esteve em lugares como
o Panamá, o Haiti e a Libéria, e enfrentou perigos e desgraças
em cada um deles. No Panamá contraiu doença nos intestinos. No Haiti
da ditadura dos Duvalier, foi detido no aeroporto por carregar na bagagem um exemplar
de Os Comediantes, livro de Greene ambientado no país. Na Libéria,
além de ter contraído um diabetes tropical, foi assaltado por um
ladrão que lhe enfiou o revólver ouvido adentro, causando-lhe incurável
problema de audição.
O primeiro encontro de Sherry com Greene, na década de 70, em Londres,
quando ele se ofereceu para escrever a biografia, já foi bizarro. Depois
de uma conversa no club de Greene, em que o romancista começou por
dizer que detestava acadêmicos ("Eles são interessantes do pomo-de-adão
para cima, mas não têm nada nas calças"), os dois saíram
para um passeio. A alturas tantas, Greene disparou a correr, atravessou a rua
às cegas e foi jogado ao chão por um táxi. "O senhor quase
perdeu seu assunto, professor Sherry", disse-lhe, enquanto o outro o ajudava a
levantar-se. "Não tão grave quanto perder seu biógrafo, senhor
Greene", respondeu Sherry. Nesse momento, fecharam negócio. Greene combinou
que, nas entrevistas com o biógrafo, não responderia a perguntas
de que não gostasse, mas, quando respondesse, só diria a verdade.
A verdade
norteou o acordo entre os dois. Greene dizia que não se importaria que
o livro falasse mal dele. Importava-se com a verdade. Sherry orgulha-se de o resultado
ser uma biografia autorizada em que não precisou ter cuidado com os melindres
do biografado. O cuidado foi só com a verdade. Quando quis saber das tentativas
de suicídio de Greene na adolescência, o romancista calou-se. Sherry
foi à luta e entrevistou os colegas de Greene. Em dois deles encontrou
as informações que buscava. No fim, Sherry sabia tudo sobre Greene.
"Eu o conheço melhor do que a mim mesmo", disse ao jornalista do The
Independent. Será que o próprio Greene se conhecia como Sherry
veio a conhecê-lo? O trabalho de Sherry possui algo de assustadoramente
atrevido. Tem algo a ver com produzir o clone de um ser humano num laboratório.
Um incidente
fantasmagórico ocorreu numa visita de Sherry à casa que Greene mantinha
em Capri. O biógrafo imaginava estar lá só com uma amiga
de Greene, a condessa Cerio, mas à noite um vulto de homem, com a estatura
de Greene, abriu a porta de seu quarto e desapareceu. Na manhã seguinte,
Sherry perguntou à condessa se Greene estivera na casa. Ela respondeu que
não. Ele nem estaria em Capri. No funeral de Greene, anos depois, a condessa
confessou que era o romancista, sim. Greene lhe dissera que queria espionar Sherry
da mesma forma como Sherry o espionava. Bem que Greene podia ter encarado a sério
tal tarefa. O resultado seria o feito, inédito, de escrever a biografia
de seu próprio biógrafo. O biógrafo, por sua vez, incluiria
em seu trabalho o período em que o biografado se pôs a escrever sobre
a vida dele próprio, biógrafo.
Jorge Luis Borges teria gostado desse jogo de espelhos. Greene não levou
adiante sua espionagem, mas está aberta a possibilidade de um outro escrever
a biografia de Sherry, o homem que ofereceu a própria vida em troca da
vida de Greene. Depois, quem sabe, viria uma biografia do biógrafo de Sherry.
Eis-nos em outro jogo de espelhos. A relação de um biógrafo
como Sherry com seu biografado é rica em sugestões. Sherry chega
ao martírio, nas viagens em que refazia as andanças de Greene, como
se quisesse senti-lo reviver no próprio corpo. Greene, por seu lado, quando
se faz de espião do biógrafo, em Capri, reage como em vingança
contra alguém que lhe usurpara a vida. Estamos num universo, feito de assombrações
e maravilhas, em que vidas são tomadas de empréstimo, trocadas,
doadas, roubadas. |