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Diogo
Mainardi
Só vale piada de fanho
"Segundo o Serpro, os formadores de opinião
que potencializam nossa baixa auto-estima
e conspiram contra o progresso da nação são
Casseta e Planeta, José Simão e eu. Os petistas
agora querem enquadrar os humoristas"
O melhor do Brasil é o brasileiro. É
o lema de uma campanha publicitária petista. Se de fato o
melhor do Brasil é o brasileiro, imagine como é ruim
o resto do país.
A campanha se baseia na história de
brasileiros que souberam superar graves dificuldades. De acordo
com os promotores da iniciativa, exemplos positivos podem contribuir
para elevar nossa auto-estima. Os petistas insistem que a falta
de auto-estima é o maior empecilho para o desenvolvimento
nacional. Maior do que a esquistossomose. Eu já vi governantes
se inspirarem na obra de Maquiavel, Montesquieu e Tocqueville. Os
petistas deram um passo adiante e se tornaram os primeiros governantes
da história a se inspirar nas palestras motivacionais de
Stephen Covey.
O Serpro, empresa estatal vinculada ao Ministério
da Fazenda, divulgou recentemente um relatório em que manifesta
a seguinte preocupação: "Certos formadores de opinião,
ultrapassando a fronteira entre a crítica sadia e o humor
destrutivo, acabam funcionando como potencializadores da baixa auto-estima".
Segundo o Serpro, os formadores de opinião que potencializam
nossa baixa auto-estima e conspiram contra o progresso da nação
são Casseta e Planeta, José Simão e eu. Depois
de enquadrar os jornalistas e os promotores públicos, acho
que os petistas querem dar um jeito nos humoristas. De agora em
diante, só poderão contar piadas de fanho.
Os petistas do Serpro certamente sabem o que
é melhor para o Brasil. O diretor da empresa, Wagner Quirici,
é homem de confiança do ministro da Fazenda, Antonio
Palocci. Quando Palocci era prefeito de Ribeirão Preto, conferiu
a Quirici o comando da Ceterp, a operadora local de telefonia. A
Ceterp foi privatizada durante a gestão Palocci. "A preço
vil", na avaliação do ex-ministro das Comunicações
Luiz Carlos Mendonça de Barros.
A campanha "O melhor do Brasil é o
brasileiro" foi criada pelos publicitários da Lew Lara. Um
de seus sócios, Luiz Lara, disse que a idéia surgiu
durante uma conversa com o ministro Luiz Gushiken. A Lew Lara garante
que não cobrou nada pelo serviço. Por outro lado,
já faturou mais de 50 milhões de reais em propaganda
para o governo, uma área coordenada por Luiz Gushiken. Se
é assim que funciona, até eu aceito fazer trabalho
voluntário.
A Lew Lara fundamentou a campanha publicitária
em algumas pesquisas que comprovariam nossa falta de auto-estima.
Uma dessas pesquisas apontou que apenas 22% dos brasileiros confiam
plenamente em seus compatriotas. O número não deve
ter surpreendido o outro sócio da Lew Lara, Jacques Lewkowicz.
Um dos maiores sucessos de sua carreira foi a campanha do cigarro
Vila Rica, em que Gérson afirmava que o importante é
levar vantagem em tudo. Como declarou o próprio Lewkowicz,
o bordão se tornou "uma metáfora de todo tipo de falcatrua
e malandragem, e passou a exprimir uma crítica social muito
forte". A propaganda oficial parece querer dizer que todos os governantes
são malandros e praticam falcatruas, menos os petistas, que
devem merecer nossa completa confiança.
Alguém aí pode me passar uma
boa piada de fanho?
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