Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Diogo Mainardi
Só vale piada de fanho

"Segundo o Serpro, os formadores de opinião
que potencializam nossa baixa auto-estima
e conspiram contra o progresso da nação são
Casseta e Planeta, José Simão e eu. Os petistas
agora querem enquadrar os humoristas"

O melhor do Brasil é o brasileiro. É o lema de uma campanha publicitária petista. Se de fato o melhor do Brasil é o brasileiro, imagine como é ruim o resto do país.

A campanha se baseia na história de brasileiros que souberam superar graves dificuldades. De acordo com os promotores da iniciativa, exemplos positivos podem contribuir para elevar nossa auto-estima. Os petistas insistem que a falta de auto-estima é o maior empecilho para o desenvolvimento nacional. Maior do que a esquistossomose. Eu já vi governantes se inspirarem na obra de Maquiavel, Montesquieu e Tocqueville. Os petistas deram um passo adiante e se tornaram os primeiros governantes da história a se inspirar nas palestras motivacionais de Stephen Covey.

O Serpro, empresa estatal vinculada ao Ministério da Fazenda, divulgou recentemente um relatório em que manifesta a seguinte preocupação: "Certos formadores de opinião, ultrapassando a fronteira entre a crítica sadia e o humor destrutivo, acabam funcionando como potencializadores da baixa auto-estima". Segundo o Serpro, os formadores de opinião que potencializam nossa baixa auto-estima e conspiram contra o progresso da nação são Casseta e Planeta, José Simão e eu. Depois de enquadrar os jornalistas e os promotores públicos, acho que os petistas querem dar um jeito nos humoristas. De agora em diante, só poderão contar piadas de fanho.

Os petistas do Serpro certamente sabem o que é melhor para o Brasil. O diretor da empresa, Wagner Quirici, é homem de confiança do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Quando Palocci era prefeito de Ribeirão Preto, conferiu a Quirici o comando da Ceterp, a operadora local de telefonia. A Ceterp foi privatizada durante a gestão Palocci. "A preço vil", na avaliação do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros.

A campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro" foi criada pelos publicitários da Lew Lara. Um de seus sócios, Luiz Lara, disse que a idéia surgiu durante uma conversa com o ministro Luiz Gushiken. A Lew Lara garante que não cobrou nada pelo serviço. Por outro lado, já faturou mais de 50 milhões de reais em propaganda para o governo, uma área coordenada por Luiz Gushiken. Se é assim que funciona, até eu aceito fazer trabalho voluntário.

A Lew Lara fundamentou a campanha publicitária em algumas pesquisas que comprovariam nossa falta de auto-estima. Uma dessas pesquisas apontou que apenas 22% dos brasileiros confiam plenamente em seus compatriotas. O número não deve ter surpreendido o outro sócio da Lew Lara, Jacques Lewkowicz. Um dos maiores sucessos de sua carreira foi a campanha do cigarro Vila Rica, em que Gérson afirmava que o importante é levar vantagem em tudo. Como declarou o próprio Lewkowicz, o bordão se tornou "uma metáfora de todo tipo de falcatrua e malandragem, e passou a exprimir uma crítica social muito forte". A propaganda oficial parece querer dizer que todos os governantes são malandros e praticam falcatruas, menos os petistas, que devem merecer nossa completa confiança.

Alguém aí pode me passar uma boa piada de fanho?

 
 
 
 
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