Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Entrevista: Colin Powell
O mal é o terror

O secretário de Estado dos EUA diz que
seu país lidera uma coalizão
internacional
contra assassinos e que a religião nada tem
a ver com a guerra contra o terrorismo


Eurípedes Alcântara

Colin Powell, 67 anos, foi um soldado exemplar. Lutou no Vietnã e em 1991 comandou a Operação Tempestade no Deserto, que expulsou o Exército de Saddam Hussein do Kuwait. Chegou ao posto mais elevado da carreira militar ao assumir o alto comando das Forças Armadas dos Estados Unidos. Na vida civil, Powell conseguiu vitórias expressivas. Tornou-se secretário de Estado no governo de George W. Bush e chegou a ser descrito como o "homem mais confiável dos Estados Unidos". Essa reputação quase se esfacelou depois que Powell apareceu diante do Conselho de Segurança das Nações Unidas com o que seriam as provas de que Saddam Hussein oferecia iminente e inequívoco perigo ao mundo por estar construindo um arsenal químico de armas de destruição em massa. A aparição de Powell foi o último aceno multilateral dos Estados Unidos antes de o país se decidir pela invasão militar do Iraque. Hoje se sabe que Saddam não tinha o temido arsenal. Powell não acredita que o episódio arranhou sua imagem. "Os dados que apresentei na ONU eram produto da melhor inteligência, não apenas dos Estados Unidos mas também da Europa e da Rússia, que se tinha então sobre o arsenal de Saddam", disse Powell. "Saddam não tinha arsenal, mas tinha a capacidade e a vontade de construir um. E o faria se não tivesse sido impedido." Na semana passada, ele esteve no Brasil para uma visita oficial de dois dias. Em Brasília, deu esta entrevista a VEJA.

Veja – O sentimento antiamericano está forte em todo o mundo e o Brasil não é exceção. O que se pode fazer a respeito?
Powell – Existe, sim, um sentimento antiamericano no mundo hoje e ele tem crescido. Isso é resultado do desafio que enfrentamos no Iraque e da percepção das pessoas de que não estamos conseguindo levar o processo de paz da maneira como gostaríamos. Mas também acredito que ainda exista um sentimento residual muito positivo em relação aos Estados Unidos e aos americanos. Na medida em que mostrarmos ao mundo que nossas atitudes são corretas, quando o Afeganistão e o Iraque se transformarem numa democracia, o sentimento positivo vai se acentuar. As pessoas vão reconhecer que os americanos fizeram a coisa certa.

Veja – O que o senhor diria aos brasileiros que acreditam que a melhor coisa que pode acontecer aos Estados Unidos e ao mundo é a derrota de George W. Bush nas eleições de novembro?
Powell – Não me envolvo em política. Os americanos vão decidir quem será o presidente dos Estados Unidos nos próximos quatro anos. Acredito que o presidente Bush fez muito para o mundo. Durante o seu governo, assinamos doze acordos de livre-comércio com países de todo o mundo. Apenas para que nós pudéssemos fazer bons negócios? Não, para aumentar o comércio com países que precisam de dinheiro para lutar contra a pobreza e a fome. Estamos negociando mais dez acordos de livre-comércio. Nós nos interessamos pela Área de Livre Comércio das Américas e pela Área de Livre Comércio da América Central. Bush dobrou a quantidade de projetos de ajuda de desenvolvimento que entregamos ao mundo. Aumentou a quantia em dinheiro que doamos ao Programa Mundial de Alimentos. Desenvolveu um ótimo relacionamento com as maiores nações do mundo, como Brasil, China – o melhor relacionamento entre os dois países nos últimos trinta anos – e Rússia. Ao ser firme em relação às armas de destruição em massa, o atual governo fez com que a Líbia acabasse por se sentir mais segura sem elas. Libertamos o Afeganistão e o Iraque, e temos orgulho disso. Bush tem orgulho disso e dirá ao povo americano que ele vai se orgulhar disso também. É duro? Sim. Vai ser difícil? Sim. Vai levar algum tempo até que as vitórias sejam consolidadas? Sim. Mas os Estados Unidos já foram desafiados antes e superaram esses desafios – e vão superar novamente.  

Veja – A disseminação de equipamentos e material nuclear é um grande pesadelo. Todo mundo entende isso, mas os Estados Unidos não estão vendo o Brasil nesse campo com a mesma desconfiança com que vêem o Irã e a Coréia do Norte?
Powell – Absolutamente, não. O Irã possui um programa que eles têm tentado esconder da Iaea (a Agência Internacional de Energia Nuclear). O Irã claramente deu sinais de que o programa deles não é apenas para energia, e sim para dar-lhes a capacidade de desenvolver armas nucleares. A Coréia do Norte diz claramente que tem armas nucleares. Esses são dois casos com os quais temos de lidar, colocando o peso da comunidade internacional atrás dos esforços para encontrar uma solução. O Brasil tem uma indústria de energia nuclear. Não existe nenhuma sugestão em Washington de que talvez o Brasil esteja fazendo isso para desenvolver armas. Isso é um absurdo. Ninguém de nós acredita nisso. Não podemos comparar uma democracia como o Brasil com um regime totalitário como a Coréia do Norte ou o Irã. Existe um desacordo momentâneo entre o Brasil e a Iaea a respeito do que está acontecendo na fábrica de enriquecimento de urânio em Resende. Eu espero que ambos cheguem a um acordo no futuro próximo. A Iaea já resolveu problemas complicados como esse. Nesse caso, o Brasil quer proteger sua propriedade intelectual. Espero que o Brasil e a Iaea possam solucionar esse problema. Também espero que o Brasil assine o protocolo adicional. Mas eu garanto a você e a todos os brasileiros que os Estados Unidos não têm nenhuma preocupação em relação à proliferação nuclear por parte do Brasil. Não faz sentido sequer pensar nisso.  

Veja – Muita gente está convencida de que os Estados Unidos não estão lutando contra o terrorismo, mas atacando pessoas, religiões e países. O que o senhor diria a essas pessoas?
Powell – Primeiro, que os Estados Unidos foram atacados. Nós não atacamos, fomos atacados. Em 11 de setembro fomos atacados por terroristas baseados no Afeganistão que investiram contra nós em nome da Al Qaeda e que viviam sob a proteção do Talibã. Mataram 3.000 pessoas e dois prédios foram destruídos. O Pentágono foi atingido e um outro avião caiu no interior da Pensilvânia. Fomos atacados. Esse é o inimigo que fomos caçar. Quando partimos atrás dos membros da Al Qaeda, percebemos que existiam outras organizações terroristas no mundo que estavam comprometidas com esses atos terríveis. Nós sabíamos de sua existência, mas não havíamos percebido o perigo que representavam para todo o mundo civilizado. Desde então, os Estados Unidos têm liderado uma coalizão de nações civilizadas na luta contra esse inimigo. O que dizer das centenas de crianças russas que foram mortas por terroristas em Beslan? O que aconteceu na Indonésia? E na Espanha? O dia 11 de março deles, quando trens foram explodidos em Madri, foi equivalente ao nosso 11 de setembro. Isso não tem nada a ver com religião. Os Estados Unidos são uma nação tolerante. Temos todas as formas imagináveis de fé convivendo livre e pacificamente em nosso país. Se quisesse, eu poderia sair do meu escritório no Departamento de Estado, entrar no meu carro e, em cinco minutos, estar numa sinagoga, num templo, numa igreja católica, numa igreja anglicana, numa igreja presbiteriana... Escolha uma religião, escolha um tipo de fé, e em cinco minutos, saindo do meu escritório em Washington, posso estar em qualquer um desses lugares de devoção. Como os Estados Unidos, o país que atraiu pessoas de todas as partes do mundo, religiões de todas as partes do mundo, podem ser contra uma religião ou lutar contra uma religião? Os Estados Unidos e o Brasil são muitos parecidos nessa questão. No Brasil vejo uma diversidade maravilhosa, um belo arco-íris que é muito parecido com o nosso. Acho que de certa forma é isso que faz do Brasil e dos Estados Unidos países parecidos. Nossa diversidade nos une, como nos unem a crença no processo democrático e a crença de que a diversidade é uma fonte de força, não de fraqueza.  

Veja – O senhor concorda com a idéia de que talvez a democracia como a conhecemos não funcione em alguns países por causa de sua religião, cultura e legado político?
Powell – A ênfase na questão da democracia não é tanto no "como a conhecemos". Estamos interessados em ajudar cada país a encontrar um caminho para sua própria democracia. A democracia tem de ter alguns requisitos básicos. Primeiro, o povo tem de ter a chance de eleger seus próprios líderes. Segundo, todos têm de poder participar da sociedade de forma livre e aberta. Nós acreditamos que as democracias devem dar espaço a um sistema econômico aberto, um sistema de mercado que funcione na economia do século XXI e em um mundo globalizado. O que os Estados Unidos têm feito, especialmente no mundo árabe, é dizer: "Estamos aqui para ajudá-los. Não estamos dizendo para vocês construírem uma democracia como a dos Estados Unidos. Se vocês quiserem caminhar nessa direção e precisarem de alguma ajuda, nós e outras nações industriais estamos prontos a ajudar".

Veja – Sinais de progresso nessa direção podem ser vistos no Iraque?
Powell – Sim. As eleições municipais estão acontecendo em todas as partes do Iraque. As eleições não aparecem na televisão, não é possível vê-las no noticiário. O que se vê são os carros-bomba. No mesmo dia em que um carro-bomba foi mostrado, provavelmente estava acontecendo uma eleição para o conselho de uma escola ou para prefeito. O país está relativamente seguro no norte. É no centro, ao qual nos referimos como o triângulo sunita, que estamos enfrentando maiores dificuldades. Terroristas, ex-membros do antigo regime, querem de volta a ditadura, a tirania e o governo que matava, sufocava, criava valas comuns, que tinha salas para estuprar, que oprimia seu povo – é isso que os carros-bomba estão tentando trazer de volta ao Iraque. Mas todos os dias líderes iraquianos corajosos, o primeiro-ministro Allawi e todo o seu gabinete levantam-se e arriscam a vida para sair e dizer ao povo iraquiano: "Nós vamos construir um novo país que terá como base a democracia. Neste momento, vamos nos preparar para as eleições e começar a eliminar o terrorismo".

Veja – A cobertura de imprensa da carnificina diária no Iraque é adequada ou os jornalistas, a seu ver, estão deixando de mostrar aspectos positivos?
Powell – É notícia. E porque é notícia vai aparecer nas televisões. É assim que as coisas são. Acho que algumas vezes os jornalistas focam muito nessas imagens dramáticas e talvez não gastem tanto tempo acompanhando a escola que está abrindo, os estudantes indo para o colégio ou alguém saindo para votar nas eleições municipais. Mas temos de conviver com isso. Se continuarmos seguindo em frente e não perdermos nossa força de vontade, vamos ser bem-sucedidos no Iraque. Quando esse dia chegar, talvez as câmeras estejam mais focadas nas eleições, nas pessoas reconstruindo suas vidas, suas casas e seus hospitais e menos nos carros-bomba.  

Veja – O senhor acredita mesmo que os homens que estão entrando agora na polícia no Iraque esquecerão suas lealdades antigas e servirão com lealdade à nova ordem?
Powell – Acho que eles sabem que estarão trabalhando para um governo eleito de forma livre. O governo iraquiano está se certificando de que eles não estão recrutando pessoas que queiram levar o país de volta aos tempos de Saddam Hussein. Por que alguém gostaria de voltar àqueles dias? Tudo o que Saddam fez foi suprimir os xiitas, os curdos e dar posições privilegiadas aos sunitas. O que queremos é uma nação em que todas as partes participem. Acredito que esses jovens rapazes ingressando na polícia ou no Exército entendam isso. Eles já estão lutando ao lado das forças de coalizão.  

Veja – Como o senhor compara seu papel na Guerra do Golfo em 1991 – quando comandou uma das mais rápidas e bem-sucedidas campanhas militares da história das guerras – com os desafios atuais no Iraque?
Powell – São duas situações diferentes. Na primeira Guerra do Golfo, a missão Tempestade no Deserto foi precisa. O objetivo era tirar o Exército iraquiano do Kuwait. Derrotamos as tropas iraquianas, elas voltaram para o Iraque e declaramos o fim do conflito. Não existia nenhuma intenção política por parte do presidente e de nenhum dos líderes da coalizão ou da ONU de fazer mais do que tirar o Exército iraquiano do Kuwait. A guerra atual é muito diferente. Sabíamos que seria muito mais complicada. Tínhamos consciência de que não era apenas uma questão de derrotar o Exército iraquiano. Era uma questão de colocar em funcionamento um novo sistema político, uma nova sociedade civil – uma nova estrutura de governo que serviria a seu povo e o protegeria. Por tudo isso, essa missão era muito mais desafiadora para os militares, diplomatas e políticos do governo americano do que o era na primeira Guerra do Golfo. O desafio agora é não tirar os olhos do objetivo traçado, que é fazer eleições no Iraque em janeiro de 2005, para que os iraquianos possam ter um governo representativo.  

Veja – A situação atual mostra que os Estados Unidos talvez tenham dado um passo maior do que as pernas...
Powell – Em relação ao Afeganistão, as pessoas acreditavam que tínhamos assumido uma responsabilidade muito grande e nos questionavam. Agora, três anos depois, 10 milhões de afegãos registraram-se para poder votar. São dezoito candidatos à Presidência. Entre eles, há uma mulher. Isso era inimaginável há três anos! Mas está acontecendo agora no Afeganistão, e não existem motivos para acreditar que o mesmo não possa acontecer no Iraque. Vai ser fácil? Não. Mas pode ser feito.  

Veja – Pela primeira vez, vozes moderadas do Islã se levantaram para condenar o terrorismo. Qual a importância dessas manifestações?
Powell – É muito importante para o Islã que essas vozes sejam ouvidas. Não apenas os chamados moderados, mas todos os muçulmanos podem ter como dizer "basta". O Islã é uma religião de paz, de reconciliação. Não é uma religião de guerra e matança. Eles têm fé na vida, na salvação. Chegou a hora de todos os líderes muçulmanos dizerem "o terrorismo tem de acabar". O terrorismo não está conquistando nada de bom para o mundo muçulmano. O terrorismo deixou os palestinos mais distantes de conseguir seu Estado. Acredito que chegou a hora de todas as vozes – o mundo muçulmano, o mundo de outras religiões – gritarem que não existe justificativa para o terrorismo.

 
 
 
 
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