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Entrevista:
Colin Powell
O mal é o terror
O secretário de Estado dos EUA diz que seu país
lidera uma coalizão
internacional contra assassinos e que a religião nada tem a ver com
a guerra contra o terrorismo  Eurípedes
Alcântara
Colin Powell, 67 anos, foi um soldado exemplar. Lutou no Vietnã e em 1991
comandou a Operação Tempestade no Deserto, que expulsou o Exército
de Saddam Hussein do Kuwait. Chegou ao posto mais elevado da carreira militar
ao assumir o alto comando das Forças Armadas dos Estados Unidos. Na vida
civil, Powell conseguiu vitórias expressivas. Tornou-se secretário
de Estado no governo de George W. Bush e chegou a ser descrito como o "homem mais
confiável dos Estados Unidos". Essa reputação quase se esfacelou
depois que Powell apareceu diante do Conselho de Segurança das Nações
Unidas com o que seriam as provas de que Saddam Hussein oferecia iminente e inequívoco
perigo ao mundo por estar construindo um arsenal químico de armas de destruição
em massa. A aparição de Powell foi o último aceno multilateral
dos Estados Unidos antes de o país se decidir pela invasão militar
do Iraque. Hoje se sabe que Saddam não tinha o temido arsenal. Powell não
acredita que o episódio arranhou sua imagem. "Os dados que apresentei na
ONU eram produto da melhor inteligência, não apenas dos Estados Unidos
mas também da Europa e da Rússia, que se tinha então sobre
o arsenal de Saddam", disse Powell. "Saddam não tinha arsenal, mas tinha
a capacidade e a vontade de construir um. E o faria se não tivesse sido
impedido." Na semana passada, ele esteve no Brasil para uma visita oficial de
dois dias. Em Brasília, deu esta entrevista a VEJA.
Veja
O sentimento antiamericano está forte em todo o mundo
e o Brasil não é exceção. O que se pode fazer a respeito?
Powell
Existe, sim, um sentimento antiamericano no mundo hoje e ele tem crescido. Isso
é resultado do desafio que enfrentamos no Iraque e da percepção
das pessoas de que não estamos conseguindo levar o processo de paz da maneira
como gostaríamos. Mas também acredito que ainda exista um sentimento
residual muito positivo em relação aos Estados Unidos e aos americanos.
Na medida em que mostrarmos ao mundo que nossas atitudes são corretas,
quando o Afeganistão e o Iraque se transformarem numa democracia, o sentimento
positivo vai se acentuar. As pessoas vão reconhecer que os americanos fizeram
a coisa certa.
Veja O que o senhor diria aos brasileiros que acreditam que a
melhor coisa que pode acontecer aos Estados Unidos e ao mundo é a derrota
de George W. Bush nas eleições de novembro?
Powell Não me envolvo em política. Os americanos vão
decidir quem será o presidente dos Estados Unidos nos próximos quatro
anos. Acredito que o presidente Bush fez muito para o mundo. Durante o seu governo,
assinamos doze acordos de livre-comércio com países de todo o mundo.
Apenas para que nós pudéssemos fazer bons negócios? Não,
para aumentar o comércio com países que precisam de dinheiro para
lutar contra a pobreza e a fome. Estamos negociando mais dez acordos de livre-comércio.
Nós nos interessamos pela Área de Livre Comércio das Américas
e pela Área de Livre Comércio da América Central. Bush dobrou
a quantidade de projetos de ajuda de desenvolvimento que entregamos ao mundo.
Aumentou a quantia em dinheiro que doamos ao Programa Mundial de Alimentos. Desenvolveu
um ótimo relacionamento com as maiores nações do mundo, como
Brasil, China o melhor relacionamento entre os dois países nos últimos
trinta anos e Rússia. Ao ser firme em relação às
armas de destruição em massa, o atual governo fez com que a Líbia
acabasse por se sentir mais segura sem elas. Libertamos o Afeganistão e
o Iraque, e temos orgulho disso. Bush tem orgulho disso e dirá ao povo
americano que ele vai se orgulhar disso também. É duro? Sim. Vai
ser difícil? Sim. Vai levar algum tempo até que as vitórias
sejam consolidadas? Sim. Mas os Estados Unidos já foram desafiados antes
e superaram esses desafios e vão superar novamente.
Veja
A disseminação de equipamentos e material nuclear
é um grande pesadelo. Todo mundo entende isso, mas os Estados Unidos não
estão vendo o Brasil nesse campo com a mesma desconfiança com que
vêem o Irã e a Coréia do Norte?
Powell Absolutamente, não. O Irã possui um programa
que eles têm tentado esconder da Iaea (a Agência Internacional
de Energia Nuclear). O Irã claramente deu sinais de que o programa
deles não é apenas para energia, e sim para dar-lhes a capacidade
de desenvolver armas nucleares. A Coréia do Norte diz claramente que tem
armas nucleares. Esses são dois casos com os quais temos de lidar, colocando
o peso da comunidade internacional atrás dos esforços para encontrar
uma solução. O Brasil tem uma indústria de energia nuclear.
Não existe nenhuma sugestão em Washington de que talvez o Brasil
esteja fazendo isso para desenvolver armas. Isso é um absurdo. Ninguém
de nós acredita nisso. Não podemos comparar uma democracia como
o Brasil com um regime totalitário como a Coréia do Norte ou o Irã.
Existe um desacordo momentâneo entre o Brasil e a Iaea a respeito do que
está acontecendo na fábrica de enriquecimento de urânio em
Resende. Eu espero que ambos cheguem a um acordo no futuro próximo. A Iaea
já resolveu problemas complicados como esse. Nesse caso, o Brasil quer
proteger sua propriedade intelectual. Espero que o Brasil e a Iaea possam solucionar
esse problema. Também espero que o Brasil assine o protocolo adicional.
Mas eu garanto a você e a todos os brasileiros que os Estados Unidos não
têm nenhuma preocupação em relação à
proliferação nuclear por parte do Brasil. Não faz sentido
sequer pensar nisso.
Veja
Muita gente está convencida de que os Estados Unidos não
estão lutando contra o terrorismo, mas atacando pessoas, religiões
e países. O que o senhor diria a essas pessoas? Powell
Primeiro, que os Estados Unidos foram atacados. Nós não
atacamos, fomos atacados. Em 11 de setembro fomos atacados por terroristas baseados
no Afeganistão que investiram contra nós em nome da Al Qaeda e que
viviam sob a proteção do Talibã. Mataram 3.000 pessoas e
dois prédios foram destruídos. O Pentágono foi atingido e
um outro avião caiu no interior da Pensilvânia. Fomos atacados. Esse
é o inimigo que fomos caçar. Quando partimos atrás dos membros
da Al Qaeda, percebemos que existiam outras organizações terroristas
no mundo que estavam comprometidas com esses atos terríveis. Nós
sabíamos de sua existência, mas não havíamos percebido
o perigo que representavam para todo o mundo civilizado. Desde então, os
Estados Unidos têm liderado uma coalizão de nações
civilizadas na luta contra esse inimigo. O que dizer das centenas de crianças
russas que foram mortas por terroristas em Beslan? O que aconteceu na Indonésia?
E na Espanha? O dia 11 de março deles, quando trens foram explodidos em
Madri, foi equivalente ao nosso 11 de setembro. Isso não tem nada a ver
com religião. Os Estados Unidos são uma nação tolerante.
Temos todas as formas imagináveis de fé convivendo livre e pacificamente
em nosso país. Se quisesse, eu poderia sair do meu escritório no
Departamento de Estado, entrar no meu carro e, em cinco minutos, estar numa sinagoga,
num templo, numa igreja católica, numa igreja anglicana, numa igreja presbiteriana...
Escolha uma religião, escolha um tipo de fé, e em cinco minutos,
saindo do meu escritório em Washington, posso estar em qualquer um desses
lugares de devoção. Como os Estados Unidos, o país que atraiu
pessoas de todas as partes do mundo, religiões de todas as partes do mundo,
podem ser contra uma religião ou lutar contra uma religião? Os Estados
Unidos e o Brasil são muitos parecidos nessa questão. No Brasil
vejo uma diversidade maravilhosa, um belo arco-íris que é muito
parecido com o nosso. Acho que de certa forma é isso que faz do Brasil
e dos Estados Unidos países parecidos. Nossa diversidade nos une, como
nos unem a crença no processo democrático e a crença de que
a diversidade é uma fonte de força, não de fraqueza.
Veja
O senhor concorda com a idéia de que talvez a democracia
como a conhecemos não funcione em alguns países por causa de sua
religião, cultura e legado político? Powell
A ênfase na questão da democracia não é
tanto no "como a conhecemos". Estamos interessados em ajudar cada país
a encontrar um caminho para sua própria democracia. A democracia tem de
ter alguns requisitos básicos. Primeiro, o povo tem de ter a chance de
eleger seus próprios líderes. Segundo, todos têm de poder
participar da sociedade de forma livre e aberta. Nós acreditamos que as
democracias devem dar espaço a um sistema econômico aberto, um sistema
de mercado que funcione na economia do século XXI e em um mundo globalizado.
O que os Estados Unidos têm feito, especialmente no mundo árabe,
é dizer: "Estamos aqui para ajudá-los. Não estamos dizendo
para vocês construírem uma democracia como a dos Estados Unidos.
Se vocês quiserem caminhar nessa direção e precisarem de alguma
ajuda, nós e outras nações industriais estamos prontos a
ajudar".
Veja Sinais de progresso nessa direção podem ser
vistos no Iraque? Powell
Sim. As eleições municipais estão acontecendo
em todas as partes do Iraque. As eleições não aparecem na
televisão, não é possível vê-las no noticiário.
O que se vê são os carros-bomba. No mesmo dia em que um carro-bomba
foi mostrado, provavelmente estava acontecendo uma eleição para
o conselho de uma escola ou para prefeito. O país está relativamente
seguro no norte. É no centro, ao qual nos referimos como o triângulo
sunita, que estamos enfrentando maiores dificuldades. Terroristas, ex-membros
do antigo regime, querem de volta a ditadura, a tirania e o governo que matava,
sufocava, criava valas comuns, que tinha salas para estuprar, que oprimia seu
povo é isso que os carros-bomba estão tentando trazer de
volta ao Iraque. Mas todos os dias líderes iraquianos corajosos, o primeiro-ministro
Allawi e todo o seu gabinete levantam-se e arriscam a vida para sair e dizer ao
povo iraquiano: "Nós vamos construir um novo país que terá
como base a democracia. Neste momento, vamos nos preparar para as eleições
e começar a eliminar o terrorismo".
Veja A
cobertura de imprensa da carnificina diária no Iraque é adequada
ou os jornalistas, a seu ver, estão deixando de mostrar aspectos positivos? Powell
É notícia. E porque é notícia vai aparecer
nas televisões. É assim que as coisas são. Acho que algumas
vezes os jornalistas focam muito nessas imagens dramáticas e talvez não
gastem tanto tempo acompanhando a escola que está abrindo, os estudantes
indo para o colégio ou alguém saindo para votar nas eleições
municipais. Mas temos de conviver com isso. Se continuarmos seguindo em frente
e não perdermos nossa força de vontade, vamos ser bem-sucedidos
no Iraque. Quando esse dia chegar, talvez as câmeras estejam mais focadas
nas eleições, nas pessoas reconstruindo suas vidas, suas casas e
seus hospitais e menos nos carros-bomba.
Veja
O senhor acredita mesmo que os homens que estão entrando
agora na polícia no Iraque esquecerão suas lealdades antigas e servirão
com lealdade à nova ordem? Powell
Acho que eles sabem que estarão trabalhando para um governo
eleito de forma livre. O governo iraquiano está se certificando de que
eles não estão recrutando pessoas que queiram levar o país
de volta aos tempos de Saddam Hussein. Por que alguém gostaria de voltar
àqueles dias? Tudo o que Saddam fez foi suprimir os xiitas, os curdos e
dar posições privilegiadas aos sunitas. O que queremos é
uma nação em que todas as partes participem. Acredito que esses
jovens rapazes ingressando na polícia ou no Exército entendam isso.
Eles já estão lutando ao lado das forças de coalizão.
Veja Como o senhor compara seu papel na Guerra do Golfo em 1991
quando comandou uma das mais rápidas e bem-sucedidas campanhas militares
da história das guerras com os desafios atuais no Iraque? Powell
São duas situações diferentes. Na primeira Guerra
do Golfo, a missão Tempestade no Deserto foi precisa. O objetivo era tirar
o Exército iraquiano do Kuwait. Derrotamos as tropas iraquianas, elas voltaram
para o Iraque e declaramos o fim do conflito. Não existia nenhuma intenção
política por parte do presidente e de nenhum dos líderes da coalizão
ou da ONU de fazer mais do que tirar o Exército iraquiano do Kuwait. A
guerra atual é muito diferente. Sabíamos que seria muito mais complicada.
Tínhamos consciência de que não era apenas uma questão
de derrotar o Exército iraquiano. Era uma questão de colocar em
funcionamento um novo sistema político, uma nova sociedade civil
uma nova estrutura de governo que serviria a seu povo e o protegeria. Por tudo
isso, essa missão era muito mais desafiadora para os militares, diplomatas
e políticos do governo americano do que o era na primeira Guerra do Golfo.
O desafio agora é não tirar os olhos do objetivo traçado,
que é fazer eleições no Iraque em janeiro de 2005, para que
os iraquianos possam ter um governo representativo.
Veja
A situação atual mostra que os Estados Unidos talvez
tenham dado um passo maior do que as pernas... Powell
Em relação ao Afeganistão, as pessoas acreditavam
que tínhamos assumido uma responsabilidade muito grande e nos questionavam.
Agora, três anos depois, 10 milhões de afegãos registraram-se
para poder votar. São dezoito candidatos à Presidência. Entre
eles, há uma mulher. Isso era inimaginável há três
anos! Mas está acontecendo agora no Afeganistão, e não existem
motivos para acreditar que o mesmo não possa acontecer no Iraque. Vai ser
fácil? Não. Mas pode ser feito.
Veja
Pela primeira vez, vozes moderadas do Islã se levantaram
para condenar o terrorismo. Qual a importância dessas manifestações? Powell
É muito importante para o Islã que essas vozes sejam
ouvidas. Não apenas os chamados moderados, mas todos os muçulmanos
podem ter como dizer "basta". O Islã é uma religião de paz,
de reconciliação. Não é uma religião de guerra
e matança. Eles têm fé na vida, na salvação.
Chegou a hora de todos os líderes muçulmanos dizerem "o terrorismo
tem de acabar". O terrorismo não está conquistando nada de bom para
o mundo muçulmano. O terrorismo deixou os palestinos mais distantes de
conseguir seu Estado. Acredito que chegou a hora de todas as vozes o mundo
muçulmano, o mundo de outras religiões gritarem que não
existe justificativa para o terrorismo. |