Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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André Petry
Divina derrota

"A boa notícia é que perderam evangélicos
que fazem de sua fé uma bandeira eleitoral,
subversão que encara eleitores como ovelhas
e transforma Deus em cabo eleitoral"

Uma das melhores notícias produzidas pela eleição municipal foi a derrota dos evangélicos. Infelizmente, trata-se de uma derrota leve e temporária em alguns casos, pois pode haver reversões aqui e ali no segundo turno. O ideal seria que tivesse sido acachapante. Mas já é altamente positivo, por exemplo, que o evangélico Marcelo Crivella esteja fora da disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. O desagradável é que, mesmo derrotado, ele tenha obtido mais de 750.000 votos, votação lamentavelmente expressiva. É igualmente saudável, embora fosse totalmente previsível, a derrota do evangélico Francisco Rossi, esse eterno candidato a qualquer coisa em São Paulo. Também é excelente que o evangélico Anthony Garotinho e sua consorte também evangélica estejam comendo o pão que o diabo amassou para emplacar seus candidatos nas maiores cidades do Estado do Rio, como Niterói, Campos, Caxias, Nova Iguaçu e São João de Meriti.

A boa notícia, explique-se, não reside no fato de alguns evangélicos terem perdido. Reside, isso sim, no fato de que perderam evangélicos que fazem de sua religião e de sua fé uma bandeira eleitoral, promovendo uma subversão que encara eleitores como ovelhas e transforma Deus em cabo eleitoral. Fazer esse uso abusivo, terreno, mesquinho de Deus deveria até ser pecado mortal. Mas os políticos evangélicos como Crivella, Rossi ou Garotinho acham que podem até mesmo decidir – e informar à platéia – sobre quem desabará a ira divina e quem será abençoado com sua luz...

Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, enveredou por essa exploração ordinária durante a campanha toda. Rossi também fez da fé um discurso. Membros da Presbiteriana Luz do Mundo, Garotinho e consorte, com seus destemperos e suas carolices, chegaram a demonizar adversários, que, não partilhando de suas idéias – ou de suas ambições –, eram liminarmente considerados "anticristãos". Esses políticos evangélicos, com destaque para Garotinho, atuam segundo uma espécie de populismo religioso, uma perigosa mistura do que há de mais demagógico e paternal na política com o que há de mais temeroso e fatalista no universo da fé.

Vê-los derrotados é uma salvação. Porque seus discursos, embrulhados em agressivas ladainhas, nascem no pântano do rudimentar, do arrogante e assustador. É rudimentar porque nega o Estado laico, grande conquista da civilização. É arrogante e assustador porque todo político que se julga portador da vontade divina, que se imagina representante de Deus na Terra, que nutre a inabalável certeza de que Deus está do seu lado, então esse político se sente autorizado a fazer tudo. Pode tudo. Tal como um Deus, ele é tudo. Assim agem George W. Bush e Osama bin Laden, dois fanáticos que se sentem intérpretes da vontade divina. Derrotar gente assim nas urnas é um tremendo ganho de qualidade.

 
 
 
 
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