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André
Petry Divina derrota
"A
boa notícia é
que perderam evangélicos que fazem de sua fé uma bandeira eleitoral,
subversão que encara eleitores como ovelhas e
transforma Deus em cabo eleitoral"
Uma das melhores notícias produzidas pela eleição municipal
foi a derrota dos evangélicos. Infelizmente, trata-se de uma derrota leve
e temporária em alguns casos, pois pode haver reversões aqui e ali
no segundo turno. O ideal seria que tivesse sido acachapante. Mas já é
altamente positivo, por exemplo, que o evangélico Marcelo Crivella esteja
fora da disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. O desagradável é
que, mesmo derrotado, ele tenha obtido mais de 750.000 votos, votação
lamentavelmente expressiva. É igualmente saudável, embora fosse
totalmente previsível, a derrota do evangélico Francisco Rossi,
esse eterno candidato a qualquer coisa em São Paulo. Também é
excelente que o evangélico Anthony Garotinho e sua consorte também
evangélica estejam comendo o pão que o diabo amassou para emplacar
seus candidatos nas maiores cidades do Estado do Rio, como Niterói, Campos,
Caxias, Nova Iguaçu e São João de Meriti.
A boa notícia, explique-se, não reside no fato de alguns evangélicos
terem perdido. Reside, isso sim, no fato de que perderam evangélicos que
fazem de sua religião e de sua fé uma bandeira eleitoral, promovendo
uma subversão que encara eleitores como ovelhas e transforma Deus em cabo
eleitoral. Fazer esse uso abusivo, terreno, mesquinho de Deus deveria até
ser pecado mortal. Mas os políticos evangélicos como Crivella, Rossi
ou Garotinho acham que podem até mesmo decidir e informar à
platéia sobre quem desabará a ira divina e quem será
abençoado com sua luz...
Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, enveredou por essa exploração
ordinária durante a campanha toda. Rossi também fez da fé
um discurso. Membros da Presbiteriana Luz do Mundo, Garotinho e consorte, com
seus destemperos e suas carolices, chegaram a demonizar adversários, que,
não partilhando de suas idéias ou de suas ambições
, eram liminarmente considerados "anticristãos". Esses políticos
evangélicos, com destaque para Garotinho, atuam segundo uma espécie
de populismo religioso, uma perigosa mistura do que há de mais demagógico
e paternal na política com o que há de mais temeroso e fatalista
no universo da fé.
Vê-los derrotados é uma salvação. Porque seus discursos,
embrulhados em agressivas ladainhas, nascem no pântano do rudimentar, do
arrogante e assustador. É rudimentar porque nega o Estado laico, grande
conquista da civilização. É arrogante e assustador porque
todo político que se julga portador da vontade divina, que se imagina representante
de Deus na Terra, que nutre a inabalável certeza de que Deus está
do seu lado, então esse político se sente autorizado a fazer tudo.
Pode tudo. Tal como um Deus, ele é tudo. Assim agem George W. Bush e Osama
bin Laden, dois fanáticos que se sentem intérpretes da vontade divina.
Derrotar gente assim nas urnas é um tremendo ganho de qualidade. |