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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Brasil, campeão
de corrupção
Ou, no mínimo, campeão
no
número de diplomatas que violam
as leis de trânsito em Nova York
O mais recente e mais original
ranking internacional de corrupção coloca o Brasil
em posição de destaque como o país mais corrupto
da América Latina. Vencemos o Chile (quem não esperava?),
vencemos o Paraguai (quem esperava?!), deixamos atrás, muito
atrás, nosso histórico rival, a Argentina. Numa lista
de 146 países de todo o mundo, organizada do mais corrupto
para o menos, o Brasil ocupa o 29º lugar, superado apenas por
um batalhão de africanos (Chade, Sudão, Moçambique
e quinze outros), uns tantos asiáticos (Kuwait, Paquistão,
Síria e quatro outros) e um trio da Europa do Leste (Bulgária,
Albânia e Sérvia e Montenegro).
O ranking em questão é
o dos países cujos diplomatas mais desrespeitaram as leis
de trânsito em Nova York. Dois pesquisadores americanos, Raymond
Fisman, da Universidade Colúmbia, e Edward Miguel, da Universidade
da Califórnia-Berkeley, adotaram o inovador critério
de buscar, entre os diplomatas acreditados junto às Nações
Unidas, aqueles que mais abusaram da vantagem de ser isentos do
pagamento de multas de trânsito, para medir o grau de corrupção
dos respectivos países. No topo da lista aparece o Kuwait,
com um total de 246,2 multas não pagas por diplomata num
período de cinco anos, seguido por Egito (139,6), Chade (124,3),
Sudão (119,1) e Bulgária (117,5). Entre os 22 países
que, com nenhuma multa não paga, ocupam o final da lista,
figura uma maioria cuja presença nessa honrosa parte do ranking
já era esperada, como Suécia, Noruega, Canadá
e Japão, notórios respeitadores das leis, e também
algumas surpresas, como República Centro-Africana e Equador.
Ao Brasil são atribuídas 29,9 multas não pagas.
Com a imunidade diplomática
aconteceu mais ou menos o mesmo que com a imunidade parlamentar
no Brasil. Ela foi criada para garantir a independência dos
diplomatas e protegê-los contra perseguições
de países hostis. Assim como a imunidade parlamentar, no
Brasil, com o tempo passou a acobertar até crime de sangue,
para não falar nos assaltos ao Erário, a imunidade
diplomática foi estendida até às infrações
de trânsito. Em Nova York a situação tornou-se
tão insuportável que em outubro de 2002 o Congresso
americano votou uma lei permitindo o guinchamento dos veículos
diplomáticos estacionados em local proibido, a cassação
das permissões especiais da ONU para estacionamento e o corte
da ajuda prestada pelos Estados Unidos aos países infratores
em 110% do valor das multas devidas. A partir daí, as violações
caíram drasticamente.
Por isso mesmo, os pesquisadores
escolheram trabalhar com o período anterior à nova
lei. Seus dados são referentes aos cinco anos entre novembro
de 1997 e outubro de 2002. Os carros com chapas assinaladas pelo
"D" que os identifica como de uso diplomático não
deixam de receber as notificações pelas infrações
cometidas, apesar de seus responsáveis não serem obrigados
a pagá-las daí ter sido possível computá-las.
Um problema que poderia distorcer os dados é a variação
do número de diplomatas mantido por cada país junto
à ONU, indo dos 86 da Rússia aos três do Burundi,
da Eritréia ou de Papua Nova Guiné, segundo os números
de 1998, tomados como referência. Optou-se por usar como critério
as violações per capita. O Brasil, no ano de referência,
tinha 33 diplomatas. Nossas 29,9 multas não pagas representam
o total de violações cometidas por cada um deles.
A maioria das multas refere-se
a estacionamento em local proibido. Isso caracterizaria realmente,
como querem os pesquisadores, um ato de corrupção?
Eles respondem sim. O ato de violar uma lei de trânsito, valendo-se
da impunidade, caberia na definição-padrão
de corrupção, formulada pela organização
Transparência Internacional: "O abuso do poder em benefício
próprio". Eles também estão convictos de que
o sistema singelo que inventaram oferece um instrumento válido
para medir a corrupção nos diferentes países,
tanto assim que, segundo eles, o ranking apurado não difere
muito de outros existentes para o mesmo fim.
Será? Observando-se a
posição de nossos vizinhos na lista, deparamos com
situações que causam estranheza. A Argentina figura
bem atrás do Brasil, na 92ª posição, com
3,9 multas. Mesmo admitindo, o que é duvidoso, que os argentinos
sejam menos corruptos, serão tanto assim? O Chile é
o segundo latino-americano do ranking, com 16,5 multas não
pagas, e o Paraguai, o terceiro, com treze. É difícil
acreditar que o Chile seja mais corrupto que o Paraguai. Há
outros casos que contrariam as avaliações baseadas
no senso comum e na observação a olho nu das realidades
do mundo. Talvez seja uma fantasia, da parte dos pesquisadores,
achar que descobriram um método confiável de medir
corrupção. Resta que os diplomatas brasileiros abusaram,
sim, da impunidade para cometer mais violações às
regras de trânsito do que os de todos os outros países
da América Latina. Também resta que ficaram entre
os 20% que mais as cometeram, entre todos os países do mundo.
Que vergonha, Itamaraty.
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