'
 


    

 
Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
Veja.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
O dia da caça

A morte de Steve Irwin sugere
que os documentários sobre vida
selvagem foram longe demais


James Gorman Slugged/NYT


Em sua carreira de mais de quinze anos estrelando documentários sobre a vida selvagem, o naturalista australiano Steve Irwin viu-se frente a frente com crocodilos, cobras e tubarões. Ironicamente, foi uma arraia, considerada um bicho dos mais dóceis, que causou sua morte na segunda-feira 4, aos 44 anos. O "Caçador de Crocodilos" – como era conhecido o documentarista – estava mergulhando com um cinegrafista na barreira de corais da costa australiana quando teve o peito perfurado pelo ferrão de uma arraia de 100 quilos. O acidente foi filmado – estava em curso uma produção com o título de Ocean's Deadliest (Os Animais Mais Mortais do Oceano). Irwin ainda arrancou o ferrão do peito, mas, atingido no coração, morreu pouco depois. A morte fez com que todo um novo estilo de documentário sobre a vida selvagem, calcado na busca de imagens cada vez mais dinâmicas e temerárias, se tornasse alvo de polêmica. Ataques de arraia são raros, e quase nunca fatais. O acidente se deu provavelmente pelo stress que a situação de filmagem causou ao animal.

Filho de biólogos, criado em reservas selvagens, Irwin era genuinamente devotado a causas preservacionistas – em especial à proteção dos crocodilos – e conhecia bem a vida selvagem. Ele pode ser considerado o criador de um novo padrão televisivo, com a série O Caçador de Crocodilos, no canal Animal Planet. O documentário sobre vida selvagem anterior era mais, digamos, acadêmico: planos estáticos mostrando leões atacando zebras, enquanto uma voz impostada discorria sobre os hábitos dos felinos. No início dos anos 1990, Irwin inovou em shows nos quais interagia com os animais. Seu número favorito consistia em se engalfinhar com os crocodilos. Há dois anos, causou escândalo ao alimentar um crocodilo com nacos de carne ao mesmo tempo em que segurava nos braços seu filho Bob, de apenas 1 mês.

Com essa constante exposição ao perigo, acidentes não são incomuns. Entre os que se embrenham na vida selvagem, há aqueles que chegam ao ponto de se acreditar "amigos" dos animais. Foi o caso de Timothy Treadwell, documentarista diletante que, sem nenhum treinamento como zoólogo, se aproximou demais dos ursos-pardos do Alasca – até ser devorado pelos animais, junto com a namorada. Os acidentes mais freqüentes, porém, dão-se por mero descuido. O mergulhador Rodney Fox quase morreu ao ser mordido por um tubarão-branco, em 1963. Curiosamente, foi esse acidente que o levou a estudar esses peixes ferozes – e a desenhar jaulas seguras para se aproximar deles.

O problema dos novos programas de vida selvagem é que eles buscam uma aproximação cada vez maior com os animais – e sem jaulas protetoras. Antes de seu acidente fatal, Irwin já havia levado uma mordida de crocodilo. Seu concorrente Brady Barr – o "Doutor Croc" do canal National Geographic – também já levou algumas dentadas. Jeff Corwin, astro do Animal Planet que adora aparecer com serpentes enroladas no pescoço, foi mordido por um desses répteis e atacado por leopardos. Os programas quase deixaram de ser sobre os animais para se tornar exibições de coragem – uma modalidade não de documentário, mas de esporte radical. A morte de Irwin pode funcionar como um alerta, refreando os exageros. Ou, ao contrário, pode exacerbar ainda mais esse viés sensacionalista. Vale lembrar que a morte do "Caçador de Crocodilos" foi registrada em vídeo. John Stainton, empresário de Irwin, garante que a fita será destruída assim que for liberada pela polícia australiana, que a requisitou para a perícia. Mas é o tipo de material que costuma vazar e circular o mundo pela internet.

 

FLERTES COM O PERIGO

Assim como aconteceu com o "Caçador de Crocodilos", o contato extremo com a natureza resultou em outras tragédias famosas

RODNEY FOX
Nos anos 60, o mergulhador australiano teve seu tronco dilacerado por um tubarão-branco. Sobreviveu quase por milagre e virou um ativista em defesa desses bichos

AP


TIMOTHY TREADWELL
O americano não era naturalista, mas decidiu viver entre os ursos para estudá-los. Acabou devorado pelos animais. Sua história virou um documentário do alemão Werner Herzog

 
 
 
 
topovoltar