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Televisão
O dia da caça
A morte de Steve Irwin sugere
que os documentários sobre vida
selvagem foram longe demais
James Gorman Slugged/NYT
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Em sua carreira de mais de quinze anos estrelando documentários
sobre a vida selvagem, o naturalista australiano Steve Irwin viu-se
frente a frente com crocodilos, cobras e tubarões. Ironicamente,
foi uma arraia, considerada um bicho dos mais dóceis, que
causou sua morte na segunda-feira 4, aos 44 anos. O "Caçador
de Crocodilos" como era conhecido o documentarista
estava mergulhando com um cinegrafista na barreira de corais da
costa australiana quando teve o peito perfurado pelo ferrão
de uma arraia de 100 quilos. O acidente foi filmado estava
em curso uma produção com o título de Ocean's
Deadliest (Os Animais Mais Mortais do Oceano). Irwin ainda arrancou
o ferrão do peito, mas, atingido no coração,
morreu pouco depois. A morte fez com que todo um novo estilo de
documentário sobre a vida selvagem, calcado na busca de imagens
cada vez mais dinâmicas e temerárias, se tornasse alvo
de polêmica. Ataques de arraia são raros, e quase nunca
fatais. O acidente se deu provavelmente pelo stress que a situação
de filmagem causou ao animal.
Filho de biólogos, criado em reservas
selvagens, Irwin era genuinamente devotado a causas preservacionistas
em especial à proteção dos crocodilos
e conhecia bem a vida selvagem. Ele pode ser considerado
o criador de um novo padrão televisivo, com a série
O Caçador de Crocodilos, no canal Animal Planet. O
documentário sobre vida selvagem anterior era mais, digamos,
acadêmico: planos estáticos mostrando leões
atacando zebras, enquanto uma voz impostada discorria sobre os hábitos
dos felinos. No início dos anos 1990, Irwin inovou em shows
nos quais interagia com os animais. Seu número favorito consistia
em se engalfinhar com os crocodilos. Há dois anos, causou
escândalo ao alimentar um crocodilo com nacos de carne ao
mesmo tempo em que segurava nos braços seu filho Bob, de
apenas 1 mês.
Com
essa constante exposição ao perigo, acidentes não
são incomuns. Entre os que se embrenham na vida selvagem,
há aqueles que chegam ao ponto de se acreditar "amigos" dos
animais. Foi o caso de Timothy Treadwell, documentarista diletante
que, sem nenhum treinamento como zoólogo, se aproximou demais
dos ursos-pardos do Alasca até ser devorado pelos
animais, junto com a namorada. Os acidentes mais freqüentes,
porém, dão-se por mero descuido. O mergulhador Rodney
Fox quase morreu ao ser mordido por um tubarão-branco, em
1963. Curiosamente, foi esse acidente que o levou a estudar esses
peixes ferozes e a desenhar jaulas seguras para se aproximar
deles.
O problema dos novos programas de vida selvagem
é que eles buscam uma aproximação cada vez
maior com os animais e sem jaulas protetoras. Antes de seu
acidente fatal, Irwin já havia levado uma mordida de crocodilo.
Seu concorrente Brady Barr o "Doutor Croc" do canal National
Geographic também já levou algumas dentadas.
Jeff Corwin, astro do Animal Planet que adora aparecer com serpentes
enroladas no pescoço, foi mordido por um desses répteis
e atacado por leopardos. Os programas quase deixaram de ser sobre
os animais para se tornar exibições de coragem
uma modalidade não de documentário, mas de esporte
radical. A morte de Irwin pode funcionar como um alerta, refreando
os exageros. Ou, ao contrário, pode exacerbar ainda mais
esse viés sensacionalista. Vale lembrar que a morte do "Caçador
de Crocodilos" foi registrada em vídeo. John Stainton, empresário
de Irwin, garante que a fita será destruída assim
que for liberada pela polícia australiana, que a requisitou
para a perícia. Mas é o tipo de material que costuma
vazar e circular o mundo pela internet.
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FLERTES COM O PERIGO
Assim como aconteceu com o "Caçador
de Crocodilos", o contato extremo com a natureza resultou
em outras tragédias famosas
RODNEY FOX
Nos anos 60, o mergulhador australiano teve seu
tronco dilacerado por um tubarão-branco. Sobreviveu
quase por milagre e virou um ativista em defesa desses
bichos
AP
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TIMOTHY TREADWELL
O americano não era naturalista, mas decidiu
viver entre os ursos para estudá-los. Acabou
devorado pelos animais. Sua história virou um
documentário do alemão Werner Herzog
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