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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Música
A antipatricinha

Patti Smith vai mostrar no Brasil
por que é adorada por gente
como Bono Vox e Michael Stipe


Sérgio Martins

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os herdeiros de Patti Smith

Nos últimos trinta anos, poucos artistas foram tão influentes no rock quanto a cantora e poetisa americana Patti Smith. Bono Vox, do U2, a considera sua "mãe musical". "O primeiro disco da minha vida foi Horses, de Patti Smith", diz ele. Michael Stipe, do R.E.M., faz uma comparação estranha – que ele jura ser um elogio – entre a voz da cantora e os grunhidos mais primitivos emitidos pelo homem: "Para sentir que estou vivo, só preciso ouvir Patti Smith. É um ruído que me acorda". Bono e Stipe não estão sozinhos. Uma legião de cantoras deu seus primeiros passos na carreira artística graças a Patti Smith (veja quadro). "Meu estilo se apóia em três acordes e no poder da palavra. Por isso é tão influente", disse a cantora, em entrevista a VEJA. A fórmula será testada pelo público brasileiro nos dias 28 e 31 de outubro, quando ela se apresenta no Rio e em Curitiba.

O rock sempre produziu figuras femininas carismáticas. Os anos 60 tiveram cantoras de interpretação marcante, como Janis Joplin, e letristas inspiradas, como Joni Mitchell. Patti Smith combinou esses dois talentos. Nascida em 30 de dezembro de 1946 com o nome de Patricia Lee Smith, a cantora é a antipatricinha. Sua maior influência como letrista foram os poetas Arthur Rimbaud e Allen Ginsberg. Na música, seus ídolos eram Bob Dylan e artistas de jazz e ópera. Ela tinha ainda uma atitude insolente, uma voz rascante e um tipo andrógino. As primeiras experiências artísticas se deram na igreja de St. Mark's, em Nova York. Lia os poemas aos brados, acompanhada pelo guitarrista Lenny Kaye. "Tinha gente que não curtia e me xingava", diz. Hoje em dia, a igreja é ponto de peregrinação de poetas iniciantes.

Em 1975, Patti Smith lançou Horses, disco obrigatório em toda discoteca que se preze. A começar pela faixa de abertura, uma releitura do clássico do rock dos anos 60 Gloria, em que a cantora dispara: "Jesus morreu pelos pecados de alguém / Certamente não foram os meus...". A poesia roqueira está presente em faixas como Free Money, em que retrata o cotidiano de um casal pobre de Nova York. "Toda noite antes de dormir / Eu encontro um bilhete e ganho na loteria / Toda noite antes de deitar / Vejo dólares rodando em volta da minha cama..." Em uma época na qual o rock era dominado por bandas de rock progressivo e por um virtuosismo um tanto estéril, Horses foi saudado como um retorno às raízes do rock.

Patti Smith deu uma parada estratégica durante a década de 1980 para virar dona-de-casa. Periodicamente, lançou livros de poesia. Ela diferencia as duas manifestações artísticas – "Posso até criar letras melhores que as da maioria dos grupos de rock, mas elas não podem ser chamadas de poemas. Estes, eu lanço em meus livros". O último disco da cantora, Trampin', saiu em 2004. Ela tem material inédito na gaveta, e poderá apresentá-lo nos shows do Brasil. Quase todas as músicas de Patti Smith têm um longo tempo de maturação. "Demorei quatro anos para compor e gravar Horses. Hoje em dia, surge um salvador do rock a cada três meses", diz. "É preciso ganhar consistência antes de arriscar a carreira artística." Esta última frase ela diz com a entonação de uma mãe severa. Assim como John Lennon ou Bob Dylan, a cantora tem filhos músicos. Jackson, de 24 anos, e Jesse, de 19, tocam em sua banda e pretendem se lançar em carreira-solo. Não deve ser fácil ser filho de Patti Smith.

 
 
 
 
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