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Música
A antipatricinha
Patti Smith vai mostrar no Brasil
por que é adorada por gente
como Bono Vox e Michael Stipe

Sérgio Martins
Nos últimos trinta anos, poucos artistas
foram tão influentes no rock quanto a cantora e poetisa americana
Patti Smith. Bono Vox, do U2, a considera sua "mãe musical".
"O primeiro disco da minha vida foi Horses, de Patti Smith",
diz ele. Michael Stipe, do R.E.M., faz uma comparação
estranha que ele jura ser um elogio entre a voz da
cantora e os grunhidos mais primitivos emitidos pelo homem: "Para
sentir que estou vivo, só preciso ouvir Patti Smith. É
um ruído que me acorda". Bono e Stipe não estão
sozinhos. Uma legião de cantoras deu seus primeiros passos
na carreira artística graças a Patti Smith (veja
quadro). "Meu estilo se apóia em três
acordes e no poder da palavra. Por isso é tão influente",
disse a cantora, em entrevista a VEJA. A fórmula será
testada pelo público brasileiro nos dias 28 e 31 de outubro,
quando ela se apresenta no Rio e em Curitiba.
O rock sempre produziu figuras
femininas carismáticas. Os anos 60 tiveram cantoras de interpretação
marcante, como Janis Joplin, e letristas inspiradas, como Joni Mitchell.
Patti Smith combinou esses dois talentos. Nascida em 30 de dezembro
de 1946 com o nome de Patricia Lee Smith, a cantora é a antipatricinha.
Sua maior influência como letrista foram os poetas Arthur
Rimbaud e Allen Ginsberg. Na música, seus ídolos eram
Bob Dylan e artistas de jazz e ópera. Ela tinha ainda uma
atitude insolente, uma voz rascante e um tipo andrógino.
As primeiras experiências artísticas se deram na igreja
de St. Mark's, em Nova York. Lia os poemas aos brados, acompanhada
pelo guitarrista Lenny Kaye. "Tinha gente que não curtia
e me xingava", diz. Hoje em dia, a igreja é ponto de peregrinação
de poetas iniciantes.
Em 1975, Patti Smith lançou
Horses, disco obrigatório em toda discoteca que se
preze. A começar pela faixa de abertura, uma releitura do
clássico do rock dos anos 60 Gloria, em que a cantora
dispara: "Jesus morreu pelos pecados de alguém / Certamente
não foram os meus...". A poesia roqueira está presente
em faixas como Free Money, em que retrata o cotidiano de
um casal pobre de Nova York. "Toda noite antes de dormir / Eu encontro
um bilhete e ganho na loteria / Toda noite antes de deitar / Vejo
dólares rodando em volta da minha cama..." Em uma época
na qual o rock era dominado por bandas de rock progressivo e por
um virtuosismo um tanto estéril, Horses foi saudado
como um retorno às raízes do rock.
Patti Smith deu uma parada estratégica
durante a década de 1980 para virar dona-de-casa. Periodicamente,
lançou livros de poesia. Ela diferencia as duas manifestações
artísticas "Posso até criar letras melhores
que as da maioria dos grupos de rock, mas elas não podem
ser chamadas de poemas. Estes, eu lanço em meus livros".
O último disco da cantora, Trampin', saiu em 2004.
Ela tem material inédito na gaveta, e poderá apresentá-lo
nos shows do Brasil. Quase todas as músicas de Patti Smith
têm um longo tempo de maturação. "Demorei quatro
anos para compor e gravar Horses. Hoje em dia, surge um salvador
do rock a cada três meses", diz. "É preciso ganhar
consistência antes de arriscar a carreira artística."
Esta última frase ela diz com a entonação de
uma mãe severa. Assim como John Lennon ou Bob Dylan, a cantora
tem filhos músicos. Jackson, de 24 anos, e Jesse, de 19,
tocam em sua banda e pretendem se lançar em carreira-solo.
Não deve ser fácil ser filho de Patti Smith.
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