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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Cinema
Socorro, o diretor sumiu

Serpentes a Bordo deveria ser um
estouro de bilheteria, mas é um fiasco.
Motivo: falta de imaginação


Isabela Boscov


DA INTERNET
Trailer do filme

Serpentes a Bordo (Snakes on a Plane, Estados Unidos, 2006), desde quinta-feira em cartaz no país, tem uma fala antológica – e não é aquela, sugerida pelas comunidades da internet, em que Samuel L. Jackson diz que está farto "dessas p****s de cobras nessa p***a de avião". Tendo elaborado o plano de embarcar algo como 400 víboras num vôo de passageiros, a fim de matar uma testemunha que está seguindo para um julgamento em Los Angeles, o malvadão asiático do filme é inquirido por um de seus capangas: será que esse é realmente um bom plano? "Ora", explode o vilão, "você acha que eu já não esgotei todas as outras possibilidades?" É até enternecedor que o diretor David R. Ellis tenha se preocupado em abordar as eventuais objeções lógicas da platéia com essa tentativa de explicação para a presença de najas, corais e sucuris num jato comercial. Mas a preocupação é também inútil: esse é um filme construído, do começo ao fim, em torno do seu título. Quem vai vê-lo sabe que a idéia em si é ridícula, e sabe também o que vai encontrar: uma história fraquinha de doer, mas, ao menos em tese, repleta de oportunidades de humor, escracho e até sustos – estes, no caso dos espectadores mais generosos, que não se incomodem com as malfeitas transições das serpentes verdadeiras para seus similares de látex, os únicos com que Jackson topou duelar.

Estritamente nesses termos, Serpentes a Bordo cumpre o que prometia. Mas, dado o frenesi que se formou em torno do filme durante sua produção, é intrigante que David Ellis, do bem mais eficaz Celular, não tenha sido capaz de avançar um passo sequer em relação ao que sua platéia cativa já esperava. Pelo movimento na internet, sabe-se que ela contava com cenas como a do casal atacado em plena transa, a do sujeito mordido em parte sensível durante uma ida ao toalete ou a da senhora gorda que confunde o roçar de uma cobra com outro tipo de carícia. E, pela resposta da bilheteria (meros 32 milhões de dólares nos Estados Unidos até agora), sabe-se que a platéia contava também ser surpreendida de alguma forma – e não foi. Cobras não fazem muito mais do que rastejar, morder e se enrolar, e há um limite para a vilania que se pode atribuir a elas. Mas não saber como explorar, no mundo pós-11 de Setembro, a idéia de um avião sem piloto, infestado de criaturas irracionais e cheio de passageiros em pânico, equivale a emitir um atestado de incompetência. Em dúvida entre rejeitar e abraçar o significado óbvio de seu enredo, o diretor e seus roteiristas não conseguiram pensar em nada melhor do que incluir em seu rol uma serpente especialmente peçonhenta vinda do Oriente Médio. É provável que, como seu vilão, acreditem ter esgotado todas as outras possibilidades.

Nesse trajeto, de produção mais falada do ano a fiasco, Serpentes a Bordo ilustra um dos dilemas que o entretenimento enfrenta na era da interatividade. A notícia do filme tomou a rede à maneira de um vídeo "viral" – nome dado àquelas brincadeiras feitas por anônimos, como a do Porteiro Zé ou a do Bebê Dançante, que se espalham pela internet como vírus incontroláveis. Os produtores julgaram que o mais acertado seria então entregar de uma vez as rédeas do projeto à massa. Deu no que deu. A platéia gosta de brincar de diretor – mas chia quando percebe que este nem sequer colaborou.

 

Jogo do bicho

Os significados que o cinema dá aos animais

A SELVA NUA (1954)
Charlton Heston vive há tanto tempo isolado na selva que nem sabe bem o que fazer com a voluptuosa Eleanor Parker. Não por acaso, a chegada dela coincide com um ataque de formigas assassinas: não há símbolo melhor para a comichão – e pânico – sexual de Heston

OS PÁSSAROS (1963)
Alfred Hitchcock rodou durante a escalada nuclear da Guerra Fria esse suspense sobre grupos de pardais, gaivotas e corvos que, sem nenhuma explicação, começam a agredir de forma violenta os seres humanos

ALIEN 3 (1992)
Um monstro invade seu hospedeiro e se alimenta dele até tomá-lo por inteiro e destruí-lo: o filme original de Ridley Scott foi feito em 1979, antes que houvesse sequer um nome para a aids. Mas parecia sintetizar tão bem a doença que, em seu episódio, passado numa prisão masculina, o diretor David Fincher encampou abertamente a metáfora

 
 
 
 
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