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Cultura E
o feio se tornou bonito... O
Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues,
ilustra como o esquerdismo bocó dos anos 60 deu no populismo de exaltação
 Reinaldo
Azevedo
Fotos
divulgação
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diretor Cacá Diegues, num cenário de O Maior Amor..., estrelado
por José Wilker (abaixo): o individualismo é ainda mais pecaminoso
do que o lucro |  |
O filme O Maior Amor do Mundo,
de Cacá Diegues, que estreou no Dia da Independência, prova que,
"nestepaiz", só o individualismo é mais pecaminoso do que o lucro.
A idéia de que o indivíduo é responsável por seus
atos ofende os órfãos pidões, tutelados pelo Estado. No filme,
o astrofísico Antonio (José Wilker), de volta ao Brasil depois de
fazer carreira nos Estados Unidos, visita o pai adotivo num asilo e obtém
pistas de sua mãe verdadeira. O útero é metáfora da
pátria. Ele está com câncer e quer unir as duas pontas da
vida. Na busca, o racionalista e um tanto apatetado Antonio se apaixona pela suburbana
sensual Luciana (Taís Araújo). O clichê celebra sua vitória.
Ele, nascido no dia da derrota do
Brasil para o Uruguai, em 1950 um mau presságio , encontra
vitalidade na pobreza edênica, tornada cultura de resistência. Se
tudo começa com a mãe, Diegues manda Freud para o divã do
populismo. A música concilia a razão branca, culpada e de olhos
verdes de Chico Buarque, a contestação integrada do AfroReggae e
pitadas do oficialismo de Gilberto Gil. A câmera lambe as paisagens das
"vastas solidões", como diria o abolicionista Joaquim Nabuco, mas também
as carências da periferia aquela que Regina Casé, no Fantástico,
diz ser "o centro". Não se
denunciam mazelas, a exemplo do que fazia o antigo Centro Popular de Cultura (CPC),
da União Nacional dos Estudantes. Elas são antes uma verdade afirmativa.
O CPC cantava "feio não é bonito", "o morro existe, mas pede para
se acabar". Hoje, o morro reivindica identidade. Uma certa Central Única
das Favelas (Cufa) fornece mão-de-obra e metafísica a Diegues. Queremos
ser conscientizados pelo oprimido. No livro Genealogia da Moral, o filósofo
alemão Nietzsche vê no servo que reivindica o direito de falar como
servo o fim da civilização.
O filme não acredita em indivíduos órfãos de tutela.
Quer uma pátria gregária, como a Cufa. Nos moldes da CUT, ela tem
de filiar "sindicatos" e produzir valores. Antonio se reeduca. A astrofísica
que se dane com Plutão. Há uma atmosfera de nostalgia do útero
nativista, caboclo, nacional-desenvolvimentista, embora aí, de fato, esteja
nossa tragédia: o Estado patrão, que faz até cinema por meio
das estatais; o compadrio; as formas renitentes de patrimonialismo... Só
faltava o assalto ao Estado como ideologia não contabilizada. Já
temos. Cineastas sempre têm uma câmera na mão e um Brasil na
cabeça. É de orfandade que tratava o filme Central do Brasil,
de Walter Salles Jr., lembram-se? O garoto cortava o sertão, deixando para
trás a cidade, fonte de todo mal, para encontrar o pai. Corolário:
precisamos de alguém que cuide de nós.
Enquanto a elite branca de Cláudio Lembo se emperiquitava no sábado
2 para assistir ao show de Chico (Carioca), uma parte dos moradores de
Cidade de Deus, no Rio, ia ao comício de Lula, convidado pela... Cufa!
O PT laçou jovens, etnias de exceção e crianças assistidas
por programas federais para dar testemunho em favor do pai-presidente. À
moda das igrejas neopentecostais como respeitar religiões mais jovens
do que um bom uísque? , os filhos de Lula foram lá narrar
a sua vida antes e depois da adoção. O presidente violava o Estatuto
da Criança e do Adolescente e a Lei Eleitoral. E daí?
Ninguém quer ensinar Mozart ou Kant aos pobres. Eles têm de aprender
batuque, funk e rap. É batata: há uma relação inversamente
proporcional entre a variedade de instrumentos de percussão e saneamento
básico. Onde excedem o "baticumbum" e os versos de pé quebrado,
falta água encanada. E sobejam verminoses. Do esquerdismo bocó da
década de 60 para o populismo de exaltação de hoje, o feio
se tornou bonito. Só não abrimos mão da orfandade pidonha
que é a morte do indivíduo. |