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Saúde A
nova ciência do sono A medicina
descobriu que dormir bem não apenas descansa, mas faz pensar melhor
e até emagrece  Paula
Neiva
Montagem
sobre foto Pedro Rubens
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Durante séculos,
o sono foi considerado uma espécie de tempo morto. Serviria apenas para
repor as energias gastas durante o dia. Essa concepção começou
a ser desmontada na primeira metade do século XX, mas foi somente nos últimos
dez anos, com os avanços nos estudos da genética, da biologia molecular
e da neuroquímica, que a maioria dos médicos teve a atenção
despertada (com o perdão do trocadilho) para a fisiologia e o real papel
do repouso noturno na preservação da saúde. "As descobertas
recentes inauguraram uma nova ciência do sono", diz o neurofisiologista
Flávio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas,
de São Paulo. Ao contrário do que se supunha, durante o sono, o
cérebro mantém-se em intensa atividade. Ela obedece a um ritmo próprio,
abrange etapas bem definidas e é produto de um equilíbrio especial
entre substâncias químicas e impulsos elétricos. Quando todos
esses sistemas trabalham em harmonia, conserva-se a boa saúde. Quando,
no entanto, eles entram em descompasso, por menor que seja o desajuste, o corpo
padece. Sabe-se, hoje, que uma boa noite de sono ajuda a manter a silhueta alinhada,
fortalece as defesas do organismo, protege o coração, facilita o
aprendizado e a criatividade, aguça o raciocínio e até remoça.
Em contrapartida, uma sucessão de noites em claro aumenta a incidência
de diabetes tipo 2, depressão, problemas de memória, distúrbios
cardiovasculares e até câncer.
Uma das pesquisas mais reveladoras é a que estabelece uma relação
direta entre privação de sono e ganho de peso. Durante o repouso
ideal, aumenta a síntese do hormônio leptina, responsável
pela sensação de saciedade. Ao mesmo tempo, baixa a produção
de grelina, o hormônio do apetite. Pois bem, a falta de sono pode levar
a um desarranjo na liberação dessas substâncias e, assim,
ao acúmulo de tecido adiposo. O maior estudo sobre o assunto foi realizado
por médicos da Universidade Care Western Reserve, nos Estados Unidos. Eles
acompanharam cerca de 70.000 mulheres ao longo de dezesseis anos. Metade delas
dormia mal e não conseguia ultrapassar cinco horas de sono por noite. A
outra metade dormia bem e por sete horas, em média. Ao término da
investigação, os pesquisadores constataram que as voluntárias
do primeiro grupo haviam engordado 15 quilos no período um ganho
de peso 30% maior do que o registrado entre as mulheres do segundo grupo. Mas
as insones não comiam mais do que as não-insones. Comiam menos.
A explicação para esse aparente paradoxo está no fato de
que noites maldormidas, ao desregularem a fabricação de leptina
e grelina, causam uma queda no ritmo do metabolismo. Ou seja, a queima calórica
diminui e a armazenagem de gordura cresce. "Ao que tudo indica, a falta de sono
é um fator de risco para a obesidade tão grande quanto os hábitos
alimentares", diz o médico Sanjay Patel, coordenador do estudo.
A evolução no entendimento do sono teve como ponto de partida as
pesquisas do fisiologista americano Alfred Loomis, da Universidade Princeton,
feitas em 1937. Graças a um exame inventado pouco antes, o eletroencefalograma,
Loomis foi o primeiro a mostrar que, mesmo no descanso noturno, o cérebro
registrava atividade elétrica. O padrão das ondas cerebrais, no
entanto, era diferente do verificado na vigília, com um nível de
consciência menor. Além disso, Loomis notou que as oscilações
na atividade elétrica do cérebro obedeciam a etapas bem definidas,
que se repetiam em ciclos de, em média, noventa minutos cada um. Com isso,
ele dividiu o sono em quatro estágios. O primeiro é o da sonolência,
a transição da vigília para o sono, em que "a pessoa está
como que à deriva, boiando, entrando e saindo da percepção
consciente", escreve o psicólogo americano Santley Coren, no livro Ladrões
de Sono. O estágio dois é o do sono intermediário, também
conhecido como "o primeiro sono verdadeiro", do qual se desperta com facilidade.
As etapas três e quatro compreendem o sono profundo, aquele que mais descansa.
Em 1953, foi constatada a existência de uma quinta etapa do sono, chamada
REM, sigla em inglês para movimentos oculares rápidos. No sono REM
é que ocorrem os sonhos. Um de seus descobridores, o médico William
Dement, da Universidade de Chicago, defende que o movimento dos olhos ocorre porque
assistimos aos sonhos como se fossem filmes projetados numa tela à nossa
frente. Do tempo total de repouso noturno, o ser humano passa 5% em sono leve,
45% em sono intermediário, 25% em sono profundo e 25% sonhando.
O número de horas, por si só, tem pouca importância. Propalou-se,
durante anos, que um sono verdadeiramente reparador tinha de durar oito horas.
Bobagem, atestam as novas pesquisas, já que se trata de um aspecto influenciado
por uma série de variantes, como idade, genética e hábitos
de vida. Está certo que nove de cada dez pessoas foram programadas geneticamente
para acordar por volta das 7 da manhã e ir para a cama ao redor das 11
da noite. Mas há aquelas, por exemplo, que foram "desenhadas" por seus
genes para funcionar melhor no período noturno e têm, por isso, extrema
dificuldade para dormir e acordar cedo. Não é uma questão
de indolência, e sim de natureza (boa desculpa para você, preguiçoso...).
Ir contra essas características é, geralmente, tarefa das mais penosas,
como ilustra, com bom humor, o dramaturgo italiano Ennio Flaiano, no livro Diario
Notturno, de 1956. Nele, Flaiano narra o esforço de um homem para tornar-se
uma pessoa de hábitos matutinos: "Decidiu mudar de vida, aproveitar as
horas matinais. Levantou-se às 6, tomou banho, fez a barba, vestiu-se...
e acordou ao meio-dia". A verdade,
porém, é que a maioria das pessoas, ao menosprezar o sono noturno,
seja por necessidade de trabalho, seja por farra, termina por comprometer a sua
saúde. A insônia voluntária, por assim dizer, quase sempre
resulta na involuntária. Metade de toda a população adulta
brasileira experimenta, pelo menos uma vez por semana, uma noite maldormida. Cerca
de 30% dela tem insônia crônica, o que representa 40 milhões
de zumbis. O que a nova ciência do sono também ensina é que
é preciso aprender a dormir. Isso mesmo. Boa parte dos insones não
prega os olhos porque simplesmente não sabe dormir. O que você faz
quando chega o fim de semana? Desliga o alarme do despertador e, no sábado
e no domingo, dorme até o sono acabar. É uma delícia. Então
vem a segunda-feira e, com ela, já logo ao acordar, uma sensação
de cansaço. A impressão que se tem é que não se descansou
nada. Se não bastasse, a fadiga se estende pela terça e,
se bobear, pela quarta, quinta e sexta. Aí chega o fim de semana e a certeza
de que dessa vez a canseira será compensada. Mas na semana seguinte a história
se repete e assim por diante, num exaustivo círculo vicioso. Isso ocorre
porque o suposto remédio para o cansaço cumulativo é justamente
seu agente deflagrador: dormir até tarde no sábado e no domingo.
A descoberta coube a pesquisadores
da Universidade Flinders, na Austrália. Depois de medirem a concentração
de melatonina, o hormônio do sono, no sangue de dezesseis jovens saudáveis,
de segunda a domingo, eles concluíram que dormir duas horas e meia além
do habitual, por dois dias seguidos, provoca um atraso de 42 minutos no relógio
biológico. Pode parecer pouco, mas é o bastante para criar uma legião
de zumbis. O ideal é que não se durma mais de uma hora e meia além
do habitual. Se, mesmo assim, o sono persistir, deve-se ficar acordado por, no
mínimo, três horas antes de voltar para a cama. Ou esperar até
depois do almoço, entre 1 e 3 horas da tarde, e fazer uma sesta de, no
máximo, trinta minutos. Ajustes como esses mantêm a pontualidade
do relógio biológico e ajudam a preservar a qualidade do sono.
Se aprender a dormir é difícil, tomar remédio para desmaiar
na cama é facílimo e os avanços nos estudos da fisiologia
do sono vêm impulsionando a produção de medicamentos mais
seguros. Uma das substâncias em que a indústria farmacêutica
mais aposta é o gaboxadol. "Ao que tudo indica, o sono à base de
gaboxadol é o que mais se aproxima do natural, sem os riscos de efeitos
colaterais dos remédios tradicionais", diz a médica Dalva Poyares,
da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica. Certa vez o escritor
inglês Aldous Huxley (1894-1963) observou: "Se não somos mais loucos
e mais doentes, devemos isso exclusivamente ao sono, o mais abençoado de
todos os atributos naturais". A cada descoberta, a ciência atesta que o
autor de Admirável Mundo Novo estava coberto de razão.
A LOUCURA DA SONOREXIA
Enquanto
a maioria da humanidade sonha com uma boa noite de sono, algumas pessoas fazem
de tudo para se manter acordadas. Sempre foi assim. O novelista francês
Honoré de Balzac (1799-1850) trabalhava normalmente durante quinze horas
por dia. Para evitar que o sono embotasse sua mente, Balzac tomava café
de hora em hora. "O café põe o sangue em movimento, faz brotar os
espíritos motores; excitação que precipita a digestão,
tira o sono e permite manter durante um pouco mais de tempo o exercício
das faculdades mentais", escreveu em Tratado dos Excitantes Modernos, de
1838. Quase dois séculos depois, o afã de não dormir tornou-se
tão freqüente que a comunidade científica batizou-o de "sonorexia"
numa analogia ao termo anorexia, distúrbio psiquiátrico em
que o doente se recusa a comer ou come muito pouco porque se acha gordo. Pois
bem, o sonoréxico é aquele que se priva conscientemente do sono
(por vontade ou necessidade), porque, para ele, dormir é sinônimo
de desperdício de tempo. Entre
os compostos sintéticos mais usados pelos sonoréxicos estão
as anfetaminas, as famosas "bolinhas", utilizadas no combate à obesidade.
Estimulantes do sistema nervoso central, elas levam a uma agitação
semelhante à provocada pela cocaína. Recentemente, esse pessoal
passou a recorrer a outro tipo de substância: o modafinil, vendido sob o
nome comercial de Provigil. Lançado no fim da década de 90 nos Estados
Unidos e na Europa, o remédio destina-se originalmente ao tratamento da
narcolepsia, distúrbio caracterizado por crises breves e incontroláveis
de sonolência excessiva. Os comprimidos de modafinil agem diretamente nos
circuitos cerebrais da vigília, produzindo uma descarga de dopamina, substância
responsável, entre outras funções, pelo estado de alerta.
Isso pode fazer com que a pessoa fique acordada por até cinqüenta
horas seguidas. Uma loucura. | | |