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Viagem Haja
paciência O sumiço
dos vôos da Varig instala o caos nos aeroportos e atormenta os passageiros
 Rosana
Zakabi Roberto
Setton
 | | Aeroporto
de Cumbica, em São Paulo, na semana passada: atrasos, vôos lotados e filas intermináveis
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Embarcar num vôo
doméstico ou internacional tornou-se um verdadeiro inferno para os brasileiros.
Até chegar à porta do avião e receber o sorriso cordial da
aeromoça, a maioria dos passageiros tem amargado nos últimos três
meses uma rotina de vôos lotados ou cancelados, listas de espera que não
resultam em embarque e filas intermináveis nos balcões de aeroportos.
Os atrasos nos vôos levam horas, fazendo com que muitos passageiros percam
conexões para outras cidades e para o exterior. A prática do overbooking,
em que as companhias aéreas, para se prevenir de desistências, aceitam
mais reservas do que comporta o avião, tornou-se abusiva. Todos esses transtornos
são causados pela crise da Varig, cuja maioria das aeronaves sumiu do ar.
Até o início de junho, a companhia fazia 200 vôos diários
hoje faz apenas noventa, sendo 36 deles na ponte aérea RioSão
Paulo. Antes, a empresa detinha 75% dos vôos internacionais e voava para
26 cidades no exterior atualmente, só voa fora do Brasil para Frankfurt,
Buenos Aires e Caracas. O sumiço dos vôos da Varig provoca um déficit
diário de 7.000 assentos em rotas domésticas e internacionais. As
outras companhias aéreas que operam no país conseguem absorver apenas
metade desse contingente de passageiros, criando uma demanda por bilhetes muito
maior que a oferta. O resultado é o caos.
Viajar também ficou mais caro. As companhias aéreas reduziram drasticamente
a oferta de passagens promocionais. Para pagar menos do que a tarifa cheia, é
preciso comprar o bilhete com vários meses de antecedência. Até
quatro meses atrás, era fácil conseguir uma passagem para Miami
por 780 dólares, mesmo adquirindo o bilhete em cima da hora. Hoje, o mesmo
trajeto não sai por menos de 1 000 dólares. O preço das passagens
para a Europa quase dobrou. Para cidades como Londres ou Paris, é necessário
desembolsar no mínimo 2 500 dólares num bilhete que, havia meses,
custava 1 400 dólares. Assim mesmo, é preciso planejar a viagem
com antecedência na semana passada, as empresas só tinham
lugares disponíveis em vôos para as cidades européias a partir
de outubro. Não é só: agora, mesmo ao fazer reserva para
um vôo planejado para um mês depois, é necessário pagar
pelo bilhete em no máximo três dias. Antes da redução
de vôos da Varig, era possível pedir à companhia aérea
que emitisse a passagem com um dia de antecedência. "Hoje, se o passageiro
não comprar o bilhete em 72 horas, no máximo, a reserva é
cancelada", reclama Claudio Candiota, presidente da Andep, entidade que defende
os direitos dos passageiros de companhias aéreas.
Roberto
Setton
 | | O
engenheiro carioca Rômulo Dias: conexão perdida e lista de espera
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Atrasos e cancelamentos
de vôos sempre fizeram parte da rotina dos aeroportos e são causados
principalmente pela manutenção dos aviões, que às
vezes têm de ficar no solo mais que o previsto. Normalmente, o problema
é contornado encaixando-se os passageiros em outros vôos, e ninguém
chega ao destino muito depois do previsto. Com a redução dos vôos
da Varig, o horário de partida dos aviões se tornou imprevisível.
Há uma semana, a estudante gaúcha Greta Hoffmann perdeu a conexão
que faria para Frankfurt pela Swissair por causa do atraso de mais de uma hora
no vôo da TAM que a levou de Porto Alegre a São Paulo. "Cheguei mais
cedo ao aeroporto por precaução, mas não adiantou nada",
ela diz. Para compensar a passageira, a TAM a encaixou num vôo da própria
companhia para Paris, no mesmo dia. Greta achou que estava tudo resolvido. Ocorre
que o vôo para Paris teve overbooking e ela não conseguiu embarcar.
Dormiu num hotel próximo ao aeroporto e só seguiu para Paris no
dia seguinte. O engenheiro carioca Rômulo Dias teve um pouco mais de sorte.
Na semana passada, ele saiu de Porto Alegre rumo a São Paulo, onde tomaria
outro avião para Belo Horizonte, cidade em que mora. Esperava chegar em
casa às 6 da tarde, mas chegou à 1 da manhã. Seu vôo
atrasou uma hora e meia, e ele perdeu a conexão. "O avião já
chegou atrasado em Porto Alegre e estava superlotado. Teve gente que não
conseguiu embarcar", diz Dias, que precisou encarar uma fila de espera em São
Paulo. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou
no primeiro semestre deste ano 3.000 reclamações contra companhias
aéreas, uma média de 500 queixas por mês. Desse total, 736
foram por overbooking, 431 por cancelamento de vôos e 381 por atraso na
partida. As companhias aéreas
brasileiras, aproveitando o vácuo deixado pela Varig, passaram a investir
pesado na compra de mais aviões, na criação de novas linhas
e no aumento do número de vôos. A TAM pretende fechar o ano com 96
aeronaves, sete a mais do que tem a frota atual. Nos últimos meses, a companhia
também passou a operar outros 79 vôos domésticos e seis internacionais.
A Gol deve incluir mais dez aeronaves Boeing 737 à sua frota atual, de
52 aviões. A BRA, empresa paulista que até o fim de 2005 só
fazia vôos fretados, vem aproveitando para disputar sua fatia entre as grandes
do mercado: aumentou o número de vôos semanais de 42 para 166. "Nesse
ritmo de expansão das companhias, a tendência é que os vôos
domésticos se normalizem a partir de dezembro", prevê o especialista
em transporte aéreo Paulo Roberto Bittencourt Sampaio, do Rio de Janeiro,
que presta consultoria para o setor.
Roberto
Setton
 | | A
estudante gaúcha Greta Hoffmann: ela perdeu a conexão para Frankfurt
devido ao atraso no vôo que a levou de Porto Alegre a São Paulo.
Foi encaixada em outro que sairia cinco horas depois, mas o vôo teve overbooking.
Sem conseguir embarcar, foi para um hotel e só viajou no dia seguinte |
Mesmo
que os vôos domésticos se normalizem em dezembro, é provável
que o gargalo nas viagens internacionais continue. Tanto as companhias nacionais
quanto as estrangeiras, como Air France, British Airways e TAP, criaram mais vôos
ligando o Brasil ao exterior, mas não em número suficiente para
tapar o buraco deixado pela Varig. As três maiores empresas aéreas
brasileiras, juntas, voam em dezenove rotas internacionais contra as 26
em que voava a Varig. Há duas semanas, a Agência Nacional de Aviação
Civil elaborou um plano para redistribuir algumas linhas internacionais da Varig
a outras companhias, mas até a sexta-feira passada a decisão permanecia
pendente na Justiça. Enquanto a situação não se resolve,
o tormento para os passageiros continua.


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