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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Viagem
Haja paciência

O sumiço dos vôos da Varig
instala o caos nos aeroportos
e atormenta os passageiros


Rosana Zakabi

 

Roberto Setton
Aeroporto de Cumbica, em São Paulo, na semana passada: atrasos, vôos lotados e filas intermináveis

Embarcar num vôo doméstico ou internacional tornou-se um verdadeiro inferno para os brasileiros. Até chegar à porta do avião e receber o sorriso cordial da aeromoça, a maioria dos passageiros tem amargado nos últimos três meses uma rotina de vôos lotados ou cancelados, listas de espera que não resultam em embarque e filas intermináveis nos balcões de aeroportos. Os atrasos nos vôos levam horas, fazendo com que muitos passageiros percam conexões para outras cidades e para o exterior. A prática do overbooking, em que as companhias aéreas, para se prevenir de desistências, aceitam mais reservas do que comporta o avião, tornou-se abusiva. Todos esses transtornos são causados pela crise da Varig, cuja maioria das aeronaves sumiu do ar. Até o início de junho, a companhia fazia 200 vôos diários – hoje faz apenas noventa, sendo 36 deles na ponte aérea Rio–São Paulo. Antes, a empresa detinha 75% dos vôos internacionais e voava para 26 cidades no exterior – atualmente, só voa fora do Brasil para Frankfurt, Buenos Aires e Caracas. O sumiço dos vôos da Varig provoca um déficit diário de 7.000 assentos em rotas domésticas e internacionais. As outras companhias aéreas que operam no país conseguem absorver apenas metade desse contingente de passageiros, criando uma demanda por bilhetes muito maior que a oferta. O resultado é o caos.

Viajar também ficou mais caro. As companhias aéreas reduziram drasticamente a oferta de passagens promocionais. Para pagar menos do que a tarifa cheia, é preciso comprar o bilhete com vários meses de antecedência. Até quatro meses atrás, era fácil conseguir uma passagem para Miami por 780 dólares, mesmo adquirindo o bilhete em cima da hora. Hoje, o mesmo trajeto não sai por menos de 1 000 dólares. O preço das passagens para a Europa quase dobrou. Para cidades como Londres ou Paris, é necessário desembolsar no mínimo 2 500 dólares num bilhete que, havia meses, custava 1 400 dólares. Assim mesmo, é preciso planejar a viagem com antecedência – na semana passada, as empresas só tinham lugares disponíveis em vôos para as cidades européias a partir de outubro. Não é só: agora, mesmo ao fazer reserva para um vôo planejado para um mês depois, é necessário pagar pelo bilhete em no máximo três dias. Antes da redução de vôos da Varig, era possível pedir à companhia aérea que emitisse a passagem com um dia de antecedência. "Hoje, se o passageiro não comprar o bilhete em 72 horas, no máximo, a reserva é cancelada", reclama Claudio Candiota, presidente da Andep, entidade que defende os direitos dos passageiros de companhias aéreas.

Roberto Setton
O engenheiro carioca Rômulo Dias: conexão perdida e lista de espera


Atrasos e cancelamentos de vôos sempre fizeram parte da rotina dos aeroportos e são causados principalmente pela manutenção dos aviões, que às vezes têm de ficar no solo mais que o previsto. Normalmente, o problema é contornado encaixando-se os passageiros em outros vôos, e ninguém chega ao destino muito depois do previsto. Com a redução dos vôos da Varig, o horário de partida dos aviões se tornou imprevisível. Há uma semana, a estudante gaúcha Greta Hoffmann perdeu a conexão que faria para Frankfurt pela Swissair por causa do atraso de mais de uma hora no vôo da TAM que a levou de Porto Alegre a São Paulo. "Cheguei mais cedo ao aeroporto por precaução, mas não adiantou nada", ela diz. Para compensar a passageira, a TAM a encaixou num vôo da própria companhia para Paris, no mesmo dia. Greta achou que estava tudo resolvido. Ocorre que o vôo para Paris teve overbooking e ela não conseguiu embarcar. Dormiu num hotel próximo ao aeroporto e só seguiu para Paris no dia seguinte. O engenheiro carioca Rômulo Dias teve um pouco mais de sorte. Na semana passada, ele saiu de Porto Alegre rumo a São Paulo, onde tomaria outro avião para Belo Horizonte, cidade em que mora. Esperava chegar em casa às 6 da tarde, mas chegou à 1 da manhã. Seu vôo atrasou uma hora e meia, e ele perdeu a conexão. "O avião já chegou atrasado em Porto Alegre e estava superlotado. Teve gente que não conseguiu embarcar", diz Dias, que precisou encarar uma fila de espera em São Paulo. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou no primeiro semestre deste ano 3.000 reclamações contra companhias aéreas, uma média de 500 queixas por mês. Desse total, 736 foram por overbooking, 431 por cancelamento de vôos e 381 por atraso na partida.

As companhias aéreas brasileiras, aproveitando o vácuo deixado pela Varig, passaram a investir pesado na compra de mais aviões, na criação de novas linhas e no aumento do número de vôos. A TAM pretende fechar o ano com 96 aeronaves, sete a mais do que tem a frota atual. Nos últimos meses, a companhia também passou a operar outros 79 vôos domésticos e seis internacionais. A Gol deve incluir mais dez aeronaves Boeing 737 à sua frota atual, de 52 aviões. A BRA, empresa paulista que até o fim de 2005 só fazia vôos fretados, vem aproveitando para disputar sua fatia entre as grandes do mercado: aumentou o número de vôos semanais de 42 para 166. "Nesse ritmo de expansão das companhias, a tendência é que os vôos domésticos se normalizem a partir de dezembro", prevê o especialista em transporte aéreo Paulo Roberto Bittencourt Sampaio, do Rio de Janeiro, que presta consultoria para o setor.

Roberto Setton
A estudante gaúcha Greta Hoffmann: ela perdeu a conexão para Frankfurt devido ao atraso no vôo que a levou de Porto Alegre a São Paulo. Foi encaixada em outro que sairia cinco horas depois, mas o vôo teve overbooking. Sem conseguir embarcar, foi para um hotel e só viajou no dia seguinte


Mesmo que os vôos domésticos se normalizem em dezembro, é provável que o gargalo nas viagens internacionais continue. Tanto as companhias nacionais quanto as estrangeiras, como Air France, British Airways e TAP, criaram mais vôos ligando o Brasil ao exterior, mas não em número suficiente para tapar o buraco deixado pela Varig. As três maiores empresas aéreas brasileiras, juntas, voam em dezenove rotas internacionais – contra as 26 em que voava a Varig. Há duas semanas, a Agência Nacional de Aviação Civil elaborou um plano para redistribuir algumas linhas internacionais da Varig a outras companhias, mas até a sexta-feira passada a decisão permanecia pendente na Justiça. Enquanto a situação não se resolve, o tormento para os passageiros continua.

 

 

 
 
 
 
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