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Especial
A nova era da televisão
O YouTube, o site de vídeos mais popular da internet, está transformando
a relação do espectador com o mundo da imagem. É
uma revolução que marca o fim da TV como se conhecia até
hoje  Marcelo
Marthe
Montagem
com foto de Tony Avelar/AP
 | | Cenas
do acervo inesgotável do YouTube, e os inventores do site: revolução
da imagem |
Às
vezes as pessoas não percebem imediatamente que uma revolução
está em andamento. É o que acontece agora em torno do site YouTube,
que se tornou um dos mais populares. De 2,5 milhões de visitantes mensais
há cerca de um ano, sua audiência pulou para quase 50 milhões
em julho passado. O que ele oferece? Clipes de no máximo doze minutos,
que os próprios usuários acrescentam ao acervo, a respeito de quaisquer
assuntos. Lá estão filmagens históricas, trechos de seriados
ou novelas, vídeos independentes, cenas caseiras de um bebê sorrindo
ou de bichinhos de estimação. Qual a graça? A primeira é
a de que 100 milhões desses clipes são baixados diariamente por
usuários de todas as partes do mundo. A segunda é a de que o YouTube
significa que embrionariamente o YouTube e seus concorrentes estão reinventado
a maneira como as pessoas vêem televisão.
Não é pouca coisa. A internet tem uma capacidade quase infinita
de armazenar dados, e seus servidores são enriquecidos segundo a segundo
de maneira voluntária por milhões de fornecedores de conteúdo
os próprios usuários. Nenhuma rede de televisão pode
concorrer em ineditismo e variedade com o YouTube. O mundo inteiro assistiu, por
exemplo, às imagens de Fidel Castro num leito de hospital recebendo a visita
do colega venezuelano Hugo Chávez. As televisões mostraram o encontro
em um pequeno flash de alguns segundos. Pois no YouTube tem-se imagens, com sons,
de quase dez minutos da visita. Quem se interessa por tanta intimidade com dois
dos mais detestáveis tiranos da atualidade? Pouca gente. Mas quem quiser
ver está lá. Ao alcance de um clique de um computador ligado à
internet por banda larga. Quem se interessaria por ver clipes do show-cult inédito
de Bob Dylan The Rolling Thunder Review nos anos 70? O filme é ruim,
mas as músicas são ótimas. Estão quase todas lá.
Não apenas Fidel e Dylan. Pense ao acaso em qualquer político, compositor,
cantor, ator, poeta, escritor, uma celebridade qualquer e a chance de encontrar
um clipe inédito do sujeito no YouTube é maior do que garimpar a
mesma raridade em qualquer outra fonte do universo. Imagine que o YouTube é
apenas o começo, um negócio ainda deficitário que consome
mensalmente cerca de 500.000 dólares dos 11,5 milhões de dólares
que recebeu de um VC, a sigla de "venture capitalist", ou investidor aventureiro
pronto a apostar em qualquer coisa que faça marola no infinito mar da internet.
Imagine que a banda larga vai chegar a mais e mais casas pelo mundo. Imagine que
mais pessoas terão suas próprias câmeras de vídeo e
seus próprios aparelhos de capturar e digitalizar imagens sejam
as de televisão, as dos velhos filmes super-8 guardados no porão,
sejam as capturadas em arquivos de museus nos cantos mais recônditos do
mundo. Imagine tudo isso, e a realidade do que representa a oferta de vídeos
pela internet vai superar tudo. Já
faz algum tempo que a experiência de ver TV se modifica. Assistir a uma
novela das 8 ou a um programa de domingo é coisa que as pessoas ainda querem,
e provavelmente continuarão querendo. É algo que se faz com a família,
e que se pode comentar com os amigos no dia seguinte. Mas, ao lado dessa experiência
coletiva e compartilhada, o público também deseja ter maior autonomia
e possibilidade de escolha daquilo a que vai assistir. A popularização
dos canais pagos, no início dos anos 80, foi um primeiro passo para satisfazer
esse desejo. O processo continua se aprofundando, com a chegada de tecnologias
que dão ao espectador a oportunidade de ver TV quando e onde ele quiser.
Hoje, 14 milhões de americanos dispõem de sistemas digitais como
o TiVo, que permite gravar e recuperar programas a qualquer hora. A oferta de
programação para aparelhos portáteis também já
é uma realidade. Grandes empresas investem pesado para disponibilizar conteúdo
de vídeo em computadores, iPods ou celulares. Steve Jobs, o visionário
executivo da Apple, foi pioneiro ao fazer uma parceria com a Disney e colocar
à venda no iTunes, a loja virtual de sua empresa, filmes, videoclipes e
episódios de seriados. Outras redes de televisão e estúdios
de cinema se apressam em explorar essa seara. Nélio
Rodrigues/1º Plano
 | O
GARIMPADOR DO PASSADO Adriano Silva Desde
os anos 80, o auxiliar contábil mineiro Adriano Silva devota-se ao hobby
de gravar os melhores momentos de suas atrações preferidas na televisão.
De novelas antigas como Tieta ao Show de Calouros de Silvio Santos,
ele acumula uma coleção de 200 fitas VHS. Nos últimos anos,
passou a digitalizar todo o material. E agora faz questão de compartilhar
trechos de seu acervo no YouTube. Silva tornou-se, de fato, um dos principais
alimentadores da nostalgia pela TV brasileira no site. "Muita gente também
gosta, mas era carente dessas informações. Hoje, ficou bem mais
fácil", diz. |
Mas sites como o YouTube representam um passo além na direção
da "TV personalizada". Eles são comunidades para quem gosta de ver, comentar
e fazer vídeos. Quando alguém acessa o site, encontra um
catálogo de milhões de clipes, que pode explorar por meio de um
sistema de busca com alto grau de precisão. Se ele procura por vídeos
sobre o presidente Lula, por exemplo, achará registros de suas aparições
recentes em telejornais, ou na propaganda eleitoral na TV. Pode também
recuperar imagens do passado, como as de Lula nos debates das eleições
de 1989. Ou ainda conferir uma enxurrada de críticas e sátiras ao
candidato. O usuário pode opinar sobre tudo isso por escrito e também
acrescentar um vídeo próprio ao conjunto. "Ao transportar a lógica
de um site de relacionamentos à experiência de assistir a vídeos,
o YouTube rompeu de vez com os paradigmas da TV tradicional", diz o executivo
Marcello Póvoa, especialista no mercado de internet. "O espectador agora
interage com aquilo a que assiste e se torna senhor da própria transmissão
da TV." A história de sucesso
do YouTube soa como várias outras que se conhecem no mundo da internet:
numa garagem no Vale do Silício, região que concentra a indústria
de alta tecnologia nos Estados Unidos, dois engenheiros de 20 e poucos anos, Chad
Hurley e Steve Chen, desenvolveram uma nova ferramenta com o intuito de facilitar
a troca de vídeos de uma festa de sua turma sem entupir a caixa de e-mails
ou travar o computador dos amigos. O boca-a-boca fez com que o número de
usuários explodisse. Hoje, vêem-se mais de 100 milhões de
vídeos por dia no site. E ele cresce como um organismo vivo: todos os dias,
35.000 novas "atrações" são acrescentadas a seu acervo pelos
usuários. Dave
Hogan/Getty Images
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MARQUETEIRA VIRAL Paris Hilton
A patricinha e dublê de cantora Paris Hilton está servindo de cobaia
para uma experiência que pode definir o futuro do YouTube. Com a campanha
de lançamento de seu novo disco, o site pela primeira vez aceita a divulgação
comercial de vídeos. A gravadora de Paris pagou para ter uma página
em que há clipes e cenas de bastidores da gravação do CD.
A publicidade de Paris é apresentada de forma sutil, como se fosse mais
um dos vídeos amadores do acervo. Isso
porque se teme que a propaganda escancarada afaste os usuários
da comunidade daí a dificuldade do YouTube de encontrar formas de
faturar comercialmente. |
Embora o YouTube seja responsável por boa parte do tráfego de vídeos
na internet atualmente, todo um mercado fervilha a seu redor. De fato, sua explosão
coincide com (e ajudou a desencadear) uma verdadeira corrida ao vídeo na
rede. De olho em previsões como a de que a veiculação de
imagens na internet deve aumentar dez vezes no mundo até 2010, potências
do ramo como a Microsoft de Bill Gates, o Google e o Yahoo! também vêm
investindo pesado em serviços similares cada qual com seus atrativos
e suas deficiências. No ano passado, o magnata Rupert Murdoch desembolsou
580 milhões de dólares para comprar o site MySpace, a maior comunidade
virtual do planeta. Pretende valer-se dele como canal de distribuição
do conteúdo produzido por seu conglomerado, que inclui companhias como
a Fox. Recentemente, a Sony adquiriu o Grouper, um concorrente menor do YouTube,
por 65 milhões de dólares. A escala dos investimentos leva especialistas
a apontar que, se fosse vendido hoje, o YouTube não custaria menos de 1
bilhão de dólares. A
onda é engrossada ainda pelas maiores interessadas no negócio: as
redes de televisão. No Brasil, emissoras como a Globo e a Record já
transmitem vídeos de suas atrações em seus respectivos sites.
E a MTV acaba de lançar no país o Overdrive, uma versão do
canal para a internet. Sucesso nos Estados Unidos, onde registrou mais de 400
milhões de acessos em pouco mais de um ano de funcionamento, o site é
uma amostra de como o casamento com a internet está transmutando a TV.
O usuário pode acessar os clipes do acervo da emissora e freqüentar
canais exclusivos para seu gosto musical, seja ele metaleiro, seja ele fã
de pagode. Pode ainda criar os próprios vídeos, recuperar cenas
de programas e ver extras que vão desde os bastidores de um programa até
ensaios de bandas de rock. Ou seja: pode tudo e muito mais do que encontra na
MTV convencional. Otavio
Dias De Oliveira
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CINEASTAS VIRTUAIS Os criadores
de Tapa na Pantera O
curta Tapa na Pantera é um exemplo de como se faz um hit no YouTube.
Os cineastas paulistanos Rafael Gomes,
Esmir Filho e Mariana Bastos produziram o filme como uma brincadeira, há
três anos, quando ainda eram estudantes da área. Meses atrás,
o vídeo em que a atriz Maria Alice Vergueiro finge ser uma velhinha
viciada em maconha foi parar no YouTube, depois de cair em mãos
alheias. Embora se destaquem em festivais de cinema, seus criadores nunca chegaram
perto desse sucesso houve mais de 1 milhão de acessos. "Pensamos
até em processar quem veiculou o vídeo. Mas hoje queremos mais é
brindar com eles", diz Gomes. |
O sucesso em vídeo na internet já se tornou um atalho para a presença
em grandes redes de televisão. No ano passado, o produtor americano Bill
Lawrence apresentou o piloto de uma série cômica sobre os bastidores
da TV à rede Warner. Nobody's Watching (Ninguém Está
Assistindo) foi considerada um mau negócio e rejeitada. Em junho passado,
no entanto, trechos do piloto foram postados no YouTube. Em um mês, o programa
foi acessado por mais de 600.000 pessoas, o que levou a NBC, concorrente da Warner,
a comprar seus direitos. Seis episódios para veiculação na
internet estão em produção, e Lawrence trabalha numa versão
da série para a TV. Há ainda outro exemplo emblemático. Em
2001, três amigos que tentavam em vão ser atores e diretores lançaram
um site chamado The Lonely Island para divulgar impagáveis vídeos
musicais e uma paródia de seriados juvenis. O grupo ganhou tal celebridade
na internet que acabou chamando a atenção do Saturday Night Live,
o mais antigo humorístico americano. Eles foram contratados, e logo passaram
a produzir no programa o mesmo tipo de material. "A internet é o maior
amplificador do boca-a-boca que já se viu", diz o jornalista americano
Chris Anderson, autor do livro A Cauda Longa (Editora Campus), uma visão
inovadora sobre por que a internet alterou para sempre a lógica do mundo
do entretenimento. Anderson chama
a atenção para um fato-chave: o espaço quase inesgotável
de que a internet dispõe para armazenar informações. "Isso
é de extrema importância quando se pensa em vídeo, pois a
televisão tem sido, até hoje, o meio de comunicação
que mais desperdiça seu conteúdo, já que não consegue
reexibir sua produção acumulada", disse o autor a VEJA. (Essa riqueza
já começa a ser explorada no Brasil por garimpadores como o auxiliar
contábil mineiro Adriano Silva, que desde os anos 80 vem colecionando imagens
dos programas dos quais é fã, de folhetins da Globo ao Show de
Calouros de Silvio Santos, e hoje as compartilha no YouTube.) Anderson vai
além ao extrair as conseqüências lógicas desse espaço
ilimitado de armazenamento: a internet favorece o surgimento de nichos. Coisas
que parecem ter pouca chance de atrair atenção, e portanto nunca
encontrariam espaço em meios de comunicação tradicionais,
ficam em exibição na internet e eventualmente conquistam seu público.
A "cauda longa" de que fala o livro é a curva de audiência de um
site como o YouTube. Seu pico ainda é representado pelos grandes sucessos.
Atrás deles vem uma infinidade de vídeos que hoje podem interessar
a uma única pessoa, mas amanhã... bem, amanhã nunca se sabe.
A internet tem capacidade de amplificar
a um nível surpreendente fatos que de outra forma teriam tudo para passar
despercebidos. Qualquer gafe cometida no ar é disseminada graças
a ela em questão de horas (ou minutos). Quando o apresentador esportivo
Fernando Vanucci surgiu no vídeo meio grogue, durante a Copa do Mundo,
o vexame foi visto na rede por mais de 1 milhão de pessoas, audiência
seis vezes superior à de seu programa na Rede TV!. A gafe do cantor sertanejo
Daniel, que elogiou por engano o Teleton, campanha beneficente do SBT, num show
do Criança Esperança, da concorrente Globo, também passaria
batida não fosse sua divulgação no YouTube para azar
de Daniel, as imagens entraram até no ranking semanal das mais vistas no
mundo. Esse fato aponta para aquilo que outro teórico Richard Lanham,
professor de inglês da Universidade da Califórnia e presidente de
uma empresa de consultoria chama de "a economia da atenção".
No livro que leva esse título, Lanham argumenta que, ao contrário
do que já se propagou, a informação não é a
principal moeda da economia virtual. Na internet, a informação é
abundante, virtualmente ilimitada e, portanto, muito barata. Outro elemento
passa a valer ouro: a capacidade de despertar a atenção das pessoas.
Ernani
d`Almeida
 | O
AGITADOR DA REDE Antônio
Tabet, o Kibe Loco O publicitário
carioca Antonio Tabet pertence a uma nova categoria de comunicador: o blogueiro.
Há quatro anos, ele criou o Kibe Loco, blog de humor com mais de 50 milhões
de acessos. A especialidade de Tabet também roteirista do programa
de Luciano Huck na Globo é garimpar cenas engraçadas da TV,
enriquecendo-as com comentários
e montagens. Fez um remix da declaração de Lula no Jornal
Nacional de que "a única coisa que cai no país é
o salário". Veiculou também as imagens do apresentador Fernando
Vanucci meio grogue no vídeo. "O que me fascina é poder expor o
que desejo sem passar por nenhum filtro editorial", diz. |
Tome-se o caso de um dos maiores fenômenos brasileiros no YouTube, o curta-metragem
Tapa na Pantera. O filme de pouco mais de três minutos, no qual a
atriz Maria Alice Vergueiro interpreta uma patética velhinha viciada em
maconha, foi uma produção feita de improviso e sem nenhuma pretensão
por um trio de jovens cineastas paulistanos. Veiculado no site à revelia
de seus criadores, o curta virou um hit com mais de 1 milhão de acessos.
Nessa nova ordem do vídeo, ganharam expressão figuras como o publicitário
carioca Antonio Tabet. À frente do blog Kibe Loco visitado mais
de 50 milhões de vezes desde que entrou no ar, há quatro anos ,
ele é um dos grandes agitadores da internet brasileira e ajudou a produzir
alguns dos principais fenômenos nacionais dos chamados "vídeos virais"
clipes que viram mania ao ser propagados por correntes de e-mail. A página
de Tabet no YouTube já contabiliza mais de 6 milhões de acessos
e chegou a ocupar o primeiro lugar no ranking mundial de canais do site na semana
passada. Ainda há um longo
caminho para sites como o YouTube rivalizarem com a TV tradicional, é claro.
Nos Estados Unidos, onde essas mudanças se encontram em estágio
mais avançado, o cidadão médio assiste a quase cinco horas
de TV por dia, de acordo com a Nielsen, empresa que monitora a audiência
no país. Na outra ponta, o visitante típico do YouTube não
gasta mais que dezesseis minutos diários no site. Mas há sinais
claros de que essa realidade está mudando. A tendência óbvia
é que a internet também tire um naco cada vez maior disso. Como
sempre, os jovens estão na vanguarda das mudanças nos Estados
Unidos, a faixa etária dos 18 aos 26 anos já dedica mais tempo à
internet do que à TV e é a maior consumidora de vídeos na
rede. No Brasil, de acordo com a pesquisa Target Group Index, do Ibope, o pessoal
na faixa dos 12 aos 24 anos gasta mais tempo navegando na internet que a média
do universo analisado o público AB das principais regiões
metropolitanas do Brasil. Entre 1999 e o ano passado, o tempo devotado por eles
à internet passou de três para dezesseis minutos diários.
Seguindo a tendência da segmentação, a TV paga cresceu em
popularidade junto aos jovens, enquanto a televisão aberta perdeu espaço
em sua rotina. Apesar de evidenciar
toda a sua força com os jovens, a explosão do vídeo na internet
é um fenômeno de efeitos globais. A semana do último 4 de
julho, data em que os americanos comemoram o Dia da Independência, foi a
de menor audiência em toda a história da TV no país. É
verdade que tradicionalmente se registram recordes negativos no feriado
mas o fato é que a cada ano os números pioram. Nos Estados Unidos
dos anos 50, um hit da televisão aberta como I Love Lucy monopolizava
em média 68% dos espectadores no horário nobre. Já o maior
sucesso das redes americanas no ano passado, American Idol, não
atraiu mais que 27% deles. Embora seja impossível estabelecer uma relação
direta, os especialistas não têm dúvidas de que a internet
está tirando público da TV. Os homens entre 18 e 34 anos
um dos segmentos mais desejados pelo mercado publicitário hoje gastam
menos tempo com ela. Não por acaso, empresas como o McDonald's vêm
deslocando seus investimentos em propaganda das redes de TV para a internet. Já
foi dito que a Coca-Cola e a Pepsi não disputam apenas entre si
tudo o que o consumidor encontra ao abrir seu refrigerador é competição
potencial para um refrigerante. Pode-se aplicar a mesma lógica ao mundo
da imagem. Tudo o que prende a atenção numa tela um monitor
de computador, de videogame ou de televisão sendo usado para algum outro
fim é competição para as grandes redes.
O surgimento de sites como o YouTube só foi possível graças
aos avanços recentes nas tecnologias do vídeo. Com a chegada ao
mercado de câmeras digitais mais potentes e baratas, além dos celulares
dotados de câmeras, nunca foi tão simples dar uma de cineasta amador.
Mais que qualquer coisa, contudo, o que contribuiu para a popularização
do vídeo na internet foi a evolução das tecnologias de transmissão
e compressão de dados e o que se vê hoje é só
o começo. Mas ainda há gargalos dramáticos a vencer. A pergunta
que os analistas se fazem é como o YouTube passará de uma comunidade
cultuada a um negócio lucrativo. Os custos de manutenção
do site, como já dito, são estratosféricos. De acordo com
um concorrente ouvido pela revista inglesa The Economist, os gastos do
site para manter uma conexão de banda larga que dê conta de sua demanda
e servidores com capacidade para armazenar seu acervo ficam na casa dos 500.000
dólares mensais. Seus fundadores ainda buscam um jeito de ganhar dinheiro
com ele. Há duas semanas, foi veiculada sua primeira campanha oficial de
propaganda: uma página com conteúdo pago pela gravadora da patricinha
e dublê de cantora Paris Hilton para divulgar o novo disco da moça.
A questão que se impõe é como faturar sem afugentar um usuário
que toma parte sem pudor nas correntes de "marketing viral", mas é avesso
ao assédio da publicidade convencional.
Outra dúvida que paira sobre o YouTube diz respeito aos direitos autorais.
O site tem como conduta retirar do ar os vídeos que geram reclamações
de empresas e artistas, mas parece uma missão impossível filtrar
tudo o que é postado nele. Os mais céticos apostam que ele poderá
tornar-se para o mercado de vídeo na internet aquilo que o Napster representou
para a troca de música na rede: uma iniciativa pioneira que se afundou
numa enxurrada de processos. Pode até ser. Mas, assim como o Napster mudou
a indústria da música, a revolução do YouTube já
estará consumada. Com
reportagem de Anna Carolina Mello, Carlos
Rydlewski e Jerônimo Teixeira |