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Comportamento Anatomia
da personalidade A ciência descobre
que a herança genética influi mais do que se pensava na
formação das características e no comportamento das pessoas
 Gabriela
Carelli Paulo
Vitale
 | HUMOR
E ESPIRROS EM COMUM As gêmeas univitelinas
Bruna (à dir.) e Renata Alves de Souza, de 20 anos, provam que às
vezes a genética influi mais do que a criação no comportamento.
Desde que nasceram, sua mãe, Etienne, fez questão de criá-las
para ser diferentes. "Evitava vesti-las com roupas iguais e cortar seus cabelos
da mesma forma. Dava um jeito para que tivessem amigos diferentes", ela conta.
Apesar dos esforços para diferenciá-las, as meninas cresceram e
continuaram parecidas em muitos aspectos. Pesquisas com gêmeos univitelinos
mostram que eles apresentam várias características em comum. Bruna
e Renata têm facilidade para idiomas, o mesmo temperamento e a mesma turma
de amigos. "Espirramos igual, comemos da mesma maneira e temos o mesmo senso de
humor", diz Bruna. Na hora de dormir, ficam na mesma posição. "Quando
uma está com a perna cruzada, a outra também está", espanta-se
a mãe. |
O que faz alguém
de índole calma ter uma explosão de violência? Como surge
a homossexualidade? Por que algumas pessoas se tornam líderes enquanto
outras, igualmente inteligentes, têm um destino medíocre? Explicar
o comportamento humano em seus diversos aspectos no círculo de amizades,
no trabalho, no amor, na fé religiosa sempre foi um desafio para
psicólogos e cientistas. Até hoje, as pesquisas sobre o tema produziram
duas correntes antagônicas, que contrapõem a natureza e o ambiente
social. De um lado estão os defensores da tese de que todos nascem iguais
e a personalidade é formada pelo aprendizado e pelas experiências
pessoais. Do outro lado, acredita-se que os traços da personalidade são
definidos pela herança genética, assim como a cor dos olhos. Uma
série de descobertas recentes enterra essa discussão. A idéia
de que só o ambiente ou só o DNA forma a personalidade foi substituída
por outra mais flexível. Todo comportamento tem um componente genético,
mas sua manifestação depende de fatores ambientais. Sob essa visão,
genética e sociedade interagem para moldar o jeito de ser de cada pessoa.
"O gene carrega a arma e o ambiente puxa o gatilho", disse a VEJA o geneticista
Matt Ridley, da Universidade de Oxford e autor do livro O que Nos Faz Humanos:
Genes, Natureza e Experiência.
A revolução nos conceitos da chamada genética do comportamento,
nome dado à ciência que estuda a influência dos genes na personalidade,
ocorreu por causa dos avanços na engenharia genética e na biologia
molecular. Os cientistas são capazes de fazer uma busca minuciosa em todo
o genoma e encontrar regiões com genes capazes de influenciar o comportamento
humano. Essas regiões podem ser identificadas em análises de amostras
de sangue de irmãos ou familiares com os mesmos traços psicológicos.
Já foram encontrados genes e regiões genômicas que tornam
as pessoas mais vulneráveis a adotar comportamentos agressivos ou a sofrer
transtornos psíquicos. Também já foram detectados genes relacionados
à orientação sexual e a vícios como alcoolismo e tabagismo.
Os pesquisadores advertem que portar
esses genes não significa que a pessoa necessariamente desenvolva o comportamento
ligado a ele. Não existe determinismo genético, apenas predisposição.
Diz Ridley: "Os genes podem se expressar ou não. Alguns são ligados
ou desligados pela própria dinâmica do genoma. Outros, pelas experiências
pessoais, familiares e pelo ambiente em que a pessoa vive". Um estudo do Instituto
de Psiquiatria do King's College de Londres, divulgado no ano passado, encontrou
dois genes que atuam na liberação de neurotransmissores no cérebro.
Esses genes são responsáveis pela depressão e pelas atitudes
anti-sociais, mas só se manifestam em pessoas expostas a situações
de grande stress, como perda de emprego ou morte de familiares. Conclusão:
ter predisposição genética à depressão não
leva ninguém a ficar deprimido. O mesmo acontece com os distúrbios
alimentares. Cientistas da Universidade da Carolina do Norte identificaram regiões
genéticas similares em amostras de sangue de mais de 400 pacientes com
anorexia ou bulimia. "Os mesmos marcadores apareceram em pessoas sem os distúrbios,
o que comprova a ação do ambiente", diz a autora do estudo, a geneticista
Cynthia Bulik. Recentemente, pesquisadores
do Instituto de Psiquiatria de Londres encontraram regiões do genoma que
podem influenciar a inteligência. Um gene chamado LIMK1 produz uma proteína
que ajuda a desenvolver a cognição espacial. As pessoas que têm
esses genes levemente alterados também são inteligentes, mas não
têm habilidades para desenho, por exemplo. Outro gene, o IGF2R, está
associado à alta inteligência sua existência acarreta
4 pontos a mais no QI do portador. A tendência ao suicídio também
já foi identificada no genoma. Cientistas da Universidade de Ottawa, no
Canadá, descobriram que pacientes portadores de uma mutação
no gene responsável por codificar um dos receptores da serotonina, o neurotransmissor
que causa sensação de bem-estar, apresentavam duas vezes mais risco
de cometer suicídio. A descoberta
de genes que influenciam aspectos específicos da vida é o que há
de mais novo na genética do comportamento. Grande parte das características
humanas, porém, é produto de muitos genes e não de
apenas um, como ocorre com a maioria dos traços físicos e doenças.
"Por causa dessa complexidade, o estudo com gêmeos é o que revela
com maior precisão a natureza hereditária do perfil social dos indivíduos",
diz o geneticista Renato Zamora Flores, da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. "Além disso, pela observação de gêmeos em suas
rotinas por longos períodos, esses estudos conseguem estimar quanto da
personalidade de cada um é herança genética e quanto se deve
ao ambiente familiar ou às experiências pessoais", ele completa.
Drawlio
Joca
 | SURPRESA
NO REENCONTRO Terezinha Oliveira de Souza (na
foto acima), agricultora, e Maria do Socorro da Costa, dona-de-casa, têm
59 anos e são gêmeas univitelinas. Nasceram em Tauá, no interior
do Ceará. Tinham 1 ano quando a mãe morreu. Cada uma foi criada
por um casal de tios. Terezinha continuou em Tauá. Maria do Socorro foi
morar com a nova família em Parambu, no mesmo estado. As gêmeas se
avistaram algumas vezes na infância, por poucas horas. Aos 19 anos, estiveram
juntas num casamento, mas mal conversaram. Há dez anos, casada e morando
no Tocantins, Maria do Socorro decidiu retomar o contato com a irmã. Reencontraram-se
na cidade natal e, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de se conhecer a
fundo. Foi uma surpresa. As duas vestiam-se da mesma forma, tomavam os mesmos
remédios e sabiam costurar bem. Casaram-se na mesma época e ambas
têm sete filhos. Estudos com gêmeos separados no nascimento mostram
que eles têm mais em comum do que os criados na mesma família
nesse caso, eles se esforçam para se diferenciar. | Fabiano
Accorsi
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Os estudos com gêmeos e famílias que incluem filhos biológicos
e adotivos começaram na década de 70. Por meio deles, descobriu-se
que as crianças adotadas têm traços de personalidade mais
parecidos com os de seus pais biológicos do que com os dos pais adotivos.
Se os pais verdadeiros têm histórico criminal, por exemplo, as crianças
entregues para adoção tendem a apresentar desvios de conduta graves.
O mesmo ocorre com o QI. As pesquisas com gêmeos univitelinos são
ainda mais representativas porque eles possuem exatamente o mesmo código
genético, são clones um do outro. Estudos revelam que gêmeos
idênticos exibem aspectos da personalidade semelhantes. São muito
parecidos no que diz respeito a inteligência e habilidades, comportam-se
da mesma forma nos relacionamentos, têm a mesma predisposição
ao stress e até o mesmo gosto musical ainda que tenham sido criados
em famílias diferentes desde muito cedo. "Os experimentos com gêmeos
permitiram concluir que as principais características da personalidade
como introversão ou extroversão, neurose ou estabilidade,
abertura ou não a experiências, atenção ou dispersão
são em média 50% herdadas", disse a VEJA o psiquiatra Robert
Plomin, do Instituto de Psiquiatria de Londres.
Pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, há vinte
anos acompanham 8.000 gêmeos, três centenas deles gêmeos idênticos
e separados da família no nascimento. Os resultados dos mais de 129 estudos
publicados pela equipe surpreendem ao mostrar que certos comportamentos avaliados
como fruto do aprendizado ao longo da vida são fortemente influenciados
pela genética. O conservadorismo político, por exemplo, é
um traço que, segundo o estudo, tem 60% de influência genética.
A herança genética da religiosidade gira em torno de 57%. "O grupo
de Minnesota não tenta provar que há um gene para Deus e um gene
conservador. Nem afirma que o ambiente não tem importância na religiosidade.
Os cientistas apenas afirmam que, mesmo em características 'culturais'
como a religião, o impacto dos genes não deve ser ignorado e pode
ser medido", diz o geneticista Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira
de Genética Clínica. Fabiano
Accorsi
 | QUINZE
VEZES SEMELHANTES Os quinze filhos de Apparecida
Dall'Ovo têm muito em comum. Todos nadam muito bem. A maioria surfa
só três não enfrentam as ondas. Na escola, tiravam notas altas
em matérias ligadas às ciências exatas e abominavam história.
Todos desenham ou trabalham em áreas que exigem inteligência espacial,
como paisagismo. Alguns tocam violão sem nunca ter feito curso de música.
O pai, Marcello, já falecido, também aprendeu a tocar o instrumento
sozinho. Estudos mostram que habilidades atléticas e cognitivas têm
forte influência da genética. O temperamento também. "Todos
os meus filhos são teimosos e não aceitam ser contrariados. Como
eu", diz Apparecida. |
A busca por explicações para o comportamento humano mobiliza filósofos,
sociólogos, médicos e cientistas desde a Antiguidade. Na Grécia,
Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina, classificava
a personalidade em quatro tipos, de acordo com a presença de determinadas
substâncias no organismo. No século XVII, o filósofo John
Locke foi um dos primeiros a teorizar que a mente humana nasce vazia, como um
papel em branco, e que a personalidade é fruto das experiências.
Logo depois, o francês Jean Jacques Rousseau criou o conceito do bom selvagem
inspirado nas descobertas de povos indígenas nas Américas. Para
ele, os humanos nasceriam inocentes e pacíficos. Males como ganância
e violência seriam produto da civilização. O primeiro cientista
da era moderna a estudar seriamente a questão da natureza versus criação
foi o inglês Francis Galton, no fim do século XIX. Pioneiro no estudo
de irmãos gêmeos, ele pretendia mostrar que a inteligência
e os talentos da elite intelectual inglesa eram passados de pai para filho. Fabiano
Accorsi
 | ÁLCOOL
DE PAI PARA FILHO A contribuição
da genética para o desenvolvimento do alcoolismo é alta. A família
de Luís Fernando, de 48 anos, vive esse drama há três gerações.
Luís cresceu vendo o pai, já falecido, embriagar-se. Jurou que não
faria o mesmo. Aos 13 anos, porém, começou a beber. Parou os estudos
no ensino médio, quando a bebida passou a dominar seu dia-a-dia. Há
dois anos em tratamento no Alcoólicos Anônimos (AA), Luís
sofre duplamente. Em janeiro, descobriu que o filho Lucas, de 19 anos, bebia desde
os 9. "Antes de beber, eu tinha certeza de que não seria como meu pai e
meu avô", diz Lucas. O rapaz freqüenta o AA há cinco meses.
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Por todo o século
XX, muitos intelectuais tentaram impor a tese de que os seres humanos são
produto apenas do ambiente. Em parte, esse posicionamento foi uma reação
à série de atrocidades cometidas na década de 20, nos Estados
Unidos, na Áustria, na Suíça e nos países nórdicos,
com o intuito de promover limpezas étnicas. Em episódios cuja extensão
só foi revelada há uma década, judeus, ciganos, deficientes
físicos e homossexuais foram esterilizados ou mortos para evitar que transmitissem
seus genes à posteridade. O apogeu trágico e brutal dessas experiências
ocorreu na Alemanha nazista. É notório que o médico alemão
Josef Mengele se utilizou das idéias de Francis Galton para torturar e
matar inúmeros gêmeos em experimentos sobre hereditariedade de traços
sociais. "A maior justificativa para os pensadores negarem a influência
genética do comportamento é o medo do preconceito e da eugenia",
diz o cientista Steven Pinker, da Universidade Harvard, autor do livro Tábula
Rasa, a Negação Contemporânea da Natureza Humana. A
descoberta da estrutura do DNA por James Watson e Francis Crick, em 1953, e a
divulgação do Projeto Genoma Humano, em 2000, abriram as portas
para uma compreensão sem precedentes das raízes biológicas
da personalidade. As revelações de que a genética pode influenciar
comportamentos mudam a visão das pessoas sobre questões filosóficas
e do cotidiano. "A idéia de que os bebês vêm ao mundo sem características
inatas multiplica a angústia dos pais que dão aos filhos uma educação
adequada e eles não correspondem às suas expectativas. Na verdade,
muitas coisas não dependem dos pais, e sim da natureza", diz Steven Pinker.
O biólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, e autor de O Gene
Egoísta, vai além. "A genética do comportamento mudará
muita coisa. Se partirmos do pressuposto de que nossa mente é regida por
algo além dos conceitos éticos e morais aprendidos, como punir um
assassino?", ele questiona. "Quando um computador não funciona, em vez
de puni-lo, nós o consertamos." Lailson
San tos
 | MÚSICA
E NEGÓCIOS NO SANGUE "A genética
aqui corre solta", diz o cantor Jair Rodrigues, de 67 anos, com seu eterno jeito
brincalhão. Jair é pai do músico Jair Oliveira, 31 anos,
e da cantora Luciana Mello, 27. "Todos na família cantam bem, mas só
Jairzinho tem talento para tocar instrumentos", diz o pai. De Jair, os filhos
herdaram a musicalidade. Da mãe, Claudine, o tino para os negócios
Jairzinho é dono do selo S de Samba e Luciana administra sua própria
carreira. "Sempre fui organizada e tenho facilidade para lidar com finanças",
diz Claudine. |
A
psicóloga americana Judith Rich Harris foi uma das primeiras pesquisadoras
a tentar mensurar a importância da genética, da família, do
círculo de amizades e das experiências pessoais na formação
da personalidade. Em seu livro No Two Alike (Não Há Dois
Iguais), lançado neste ano, Judith diz que a genética é responsável
por no mínimo 40% do que somos. Em segundo lugar vêm os amigos, a
maior influência que recebemos. Por último, a família. A maneira
como somos vistos por nossos amigos faz com que passemos a investir em determinados
comportamentos. Se o grupo costuma rir das brincadeiras de uma criança,
ela se percebe como uma pessoa divertida e tenta repetir esse jeito de ser, incorporando-o
para o resto da vida. "Se um menino for desde pequeno visto como líder
pelos colegas, no futuro pode vir a ser um líder de verdade se tiver as
características genéticas propícias", escreve Judith. Nem
todos os traços de personalidade, porém, sofrem influência
tão marcante das experiências pessoais. Já se comprovou que
o desenvolvimento da inteligência depende em grande parte de um ambiente
familiar que a estimule. Os geneticistas estimam que, em duas décadas,
será possível rastrear regiões genômicas em quantidade
suficiente para conseguir mais do que pistas sobre a influência dos genes
no comportamento. Graças à associação da psicologia
e da genética, está aberto o caminho para elucidar a anatomia da
personalidade. Com
reportagem de Érica Chaves |