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Religião
A dieta do Jesus me chama
Programas de emagrecimento agora compõem o menu de igrejas evangélicas
americanas  Anna
Paula Buchalla
A preocupação
com a silhueta nunca esteve na lista das preocupações divinas
pelo menos, de acordo com a hermenêutica tradicional. Mas recentemente um
grande número de pregadores americanos começou a defender a idéia
de que Deus se importa sim e muito com o excesso de peso. Em igrejas
evangélicas americanas, tonitrua-se que a gordura é pecado. "Coisa
do diabo", afirmam seus pastores. O programa alimentar cristão com o maior
contingente de adeptos é o The Weigh Down Diet, criado por Gwen Shamblin.
Conta com cerca de 1 milhão de seguidores, segundo os cálculos
da própria (espera-se que ela não esteja incorrendo em outro pecado,
o da mentira). O lema de Gwen é "Só coma o necessário". Quem
come mais do que o organismo precisa é compulsivo e, para pôr
fim à compulsão alimentar, o remédio é rezar. "Não
corra para a geladeira. Corra para Deus", orienta. Para os que não conseguem,
ela tem uma palavra de conforto: "Não desista. Reze mais um pouco".
Há duas visões na arena das dietas cristãs. A primeira, que
inclui o programa de Gwen, prega que as orações são suficientes.
A outra sustenta que, além de rezar, é preciso que se comam os "alimentos
certos". Por "alimentos certos", entendam-se aqueles citados positivamente na
Bíblia. A Dieta do Criador e A Dieta de Jesus trazem esse cardápio
santificado. Nele, entram peixe, lentilha, vinho, pão e vegetais praticamente
crus. Carne de porco proibidíssima no judaísmo e no islamismo
e frutos do mar estão fora. Comida industrializada, nem pensar.
"Se você realmente segue Jesus, não pode ignorar os hábitos
alimentares dele", diz Don Colbert, o médico e pregador cujo livro O
que Jesus Comeria? lhe rendeu frutos para toda a eternidade.
A relação entre alimentação e religião sempre
foi muito estreita. A gula é um pecado em todas as suas formas monoteístas.
Na vertente mais ortodoxa do judaísmo, até a maneira de preparo
dos alimentos (o modo kosher) é ritualizada. No monoteísmo, os jejuns
periódicos também são recomendados como forma de "limpar"
o corpo e a alma. Na Idade Média, a Igreja tentava normatizar os hábitos
alimentares de seus fiéis, como forma de controlar a moral e o bom comportamento.
Por mais de um século, a Igreja Adventista defende o vegetarianismo. De
acordo com os adventistas, o comer e o beber deveriam ser encarados também
como atos para honrar e glorificar a Deus e preservar a saúde do espírito.
Mas as dietas americanas não encontram eco na teologia tradicional. "Elas
não têm nenhum fundamento teológico", diz Rafael Rodrigues
da Silva, especialista da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. O que está por trás
da crescente indústria cristã de emagrecimento é um filão
gordo a multidão de obesos e de rechonchudos que hoje compõem
a maioria silenciosa e mastigadora da população americana (64% do
total). A incidência da obesidade aumenta sobretudo entre os pobres, mais
expostos ao problema por falta de informação e de dinheiro. São
os pobres os maiores consumidores de alimentos calóricos, visto que hambúrgueres,
frituras, refrigerantes e biscoitos compõem o menu mais barato nos Estados
Unidos. "As igrejas encontraram aí o cenário perfeito para o lançamento
das dietas religiosas", escreveu a pesquisadora Marie Griffith, professora de
religião da Universidade Princeton.
Os programas de emagrecimento cristãos já somam duas dezenas nos
Estados Unidos. Agora, eles começam a chegar ao Canadá e à
Europa. No Brasil, algumas igrejas evangélicas emitem os primeiros sinais
de que captaram a, digamos, mensagem. O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa
Terra, lançou há pouco o livro Vencendo a Obesidade. Na introdução,
ele enfatiza que "o diabo não quer que tenhamos vida ou saúde, ele
tenta roubar essas coisas de todas as formas possíveis". Se, para emagrecer,
o único jeito é segurar na mão de Deus, então que
assim seja. "Olhe para dentro e diga ao seu estômago: 'Você não
é meu Deus. Meu Deus é Jesus Cristo'", afirma Gwen Shamblin. Ou
seja, não é o diabo que veste Prada. Para caber nos modelos bacanas,
é preciso seguir Nosso Senhor. |