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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Religião
A dieta do Jesus me chama

Programas de emagrecimento
agora compõem o menu de
igrejas evangélicas americanas


Anna Paula Buchalla

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O que pregam as principais dietas religiosas

A preocupação com a silhueta nunca esteve na lista das preocupações divinas – pelo menos, de acordo com a hermenêutica tradicional. Mas recentemente um grande número de pregadores americanos começou a defender a idéia de que Deus se importa sim – e muito – com o excesso de peso. Em igrejas evangélicas americanas, tonitrua-se que a gordura é pecado. "Coisa do diabo", afirmam seus pastores. O programa alimentar cristão com o maior contingente de adeptos é o The Weigh Down Diet, criado por Gwen Shamblin. Conta com cerca de 1 milhão de seguidores, segundo os cálculos da própria (espera-se que ela não esteja incorrendo em outro pecado, o da mentira). O lema de Gwen é "Só coma o necessário". Quem come mais do que o organismo precisa é compulsivo – e, para pôr fim à compulsão alimentar, o remédio é rezar. "Não corra para a geladeira. Corra para Deus", orienta. Para os que não conseguem, ela tem uma palavra de conforto: "Não desista. Reze mais um pouco".

Há duas visões na arena das dietas cristãs. A primeira, que inclui o programa de Gwen, prega que as orações são suficientes. A outra sustenta que, além de rezar, é preciso que se comam os "alimentos certos". Por "alimentos certos", entendam-se aqueles citados positivamente na Bíblia. A Dieta do Criador e A Dieta de Jesus trazem esse cardápio santificado. Nele, entram peixe, lentilha, vinho, pão e vegetais praticamente crus. Carne de porco – proibidíssima no judaísmo e no islamismo – e frutos do mar estão fora. Comida industrializada, nem pensar. "Se você realmente segue Jesus, não pode ignorar os hábitos alimentares dele", diz Don Colbert, o médico e pregador cujo livro O que Jesus Comeria? lhe rendeu frutos para toda a eternidade.

A relação entre alimentação e religião sempre foi muito estreita. A gula é um pecado em todas as suas formas monoteístas. Na vertente mais ortodoxa do judaísmo, até a maneira de preparo dos alimentos (o modo kosher) é ritualizada. No monoteísmo, os jejuns periódicos também são recomendados como forma de "limpar" o corpo e a alma. Na Idade Média, a Igreja tentava normatizar os hábitos alimentares de seus fiéis, como forma de controlar a moral e o bom comportamento. Por mais de um século, a Igreja Adventista defende o vegetarianismo. De acordo com os adventistas, o comer e o beber deveriam ser encarados também como atos para honrar e glorificar a Deus e preservar a saúde do espírito. Mas as dietas americanas não encontram eco na teologia tradicional. "Elas não têm nenhum fundamento teológico", diz Rafael Rodrigues da Silva, especialista da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

O que está por trás da crescente indústria cristã de emagrecimento é um filão gordo – a multidão de obesos e de rechonchudos que hoje compõem a maioria silenciosa e mastigadora da população americana (64% do total). A incidência da obesidade aumenta sobretudo entre os pobres, mais expostos ao problema por falta de informação e de dinheiro. São os pobres os maiores consumidores de alimentos calóricos, visto que hambúrgueres, frituras, refrigerantes e biscoitos compõem o menu mais barato nos Estados Unidos. "As igrejas encontraram aí o cenário perfeito para o lançamento das dietas religiosas", escreveu a pesquisadora Marie Griffith, professora de religião da Universidade Princeton.

Os programas de emagrecimento cristãos já somam duas dezenas nos Estados Unidos. Agora, eles começam a chegar ao Canadá e à Europa. No Brasil, algumas igrejas evangélicas emitem os primeiros sinais de que captaram a, digamos, mensagem. O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, lançou há pouco o livro Vencendo a Obesidade. Na introdução, ele enfatiza que "o diabo não quer que tenhamos vida ou saúde, ele tenta roubar essas coisas de todas as formas possíveis". Se, para emagrecer, o único jeito é segurar na mão de Deus, então que assim seja. "Olhe para dentro e diga ao seu estômago: 'Você não é meu Deus. Meu Deus é Jesus Cristo'", afirma Gwen Shamblin. Ou seja, não é o diabo que veste Prada. Para caber nos modelos bacanas, é preciso seguir Nosso Senhor.

 
 
 
 
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