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Brasil Só
falta no bolso O país nada em
dólares e engorda suas reservas, mas esse dinheiro não pode
ser gasto. Ele funciona de colchão para amortecer choques
 Giuliano
Guandalini
O
governo brasileiro possui uma pequena fortuna de mais de 70 bilhões de
dólares, ou 150 bilhões de reais, guardada no exterior. São
as reservas internacionais, poupança em dólares e outras moedas
fortes que fica armazenada em bancos estrangeiros. É uma montanha de dinheiro
que teoricamente seria bastante para, numa só tacada, solucionar todos
os gargalos na infra-estrutura do país e acabar com as favelas, além
de ampliar drasticamente o acesso ao saneamento básico. E ainda sobrariam
alguns trocados. Os recursos equivalem a quinze vezes o orçamento anual
do Bolsa Família e, se injetados na economia, dariam um tremendo impulso
ao PIB que, no segundo trimestre, cresceu num ritmo raquítico de
0,5%. Por que então o país
não investe esses recursos para sanar suas mazelas e estimular a economia?
Porque não pode. É a resposta simples e clara.
Quanto mais robusta a poupança, maior a credibilidade do país. São
esses dólares que asseguram o pagamento dos débitos externos e,
dessa maneira, protegem o Brasil contra crises. Afinal, os credores estrangeiros
não aceitam pagamento em reais para quitar os compromissos, só
com moedas fortes e aceitas internacionalmente, como dólar e euro. Foi
graças ao aumento dessas reservas e à redução da dívida
externa que o Brasil pôde atingir uma inédita confiabilidade. Torrar
esses recursos colocaria em risco a estabilidade, ao trazer de volta a inflação
e elevar a taxa de juros. Antigamente
os países mantinham suas reservas guardadas dentro do próprio território,
armazenadas na forma de barras de ouro. Agora esses recursos ficam, em geral,
depositados em bancos estrangeiros, sobretudo na forma de títulos denominados
em moeda forte em 1980, 60% das reservas mundiais eram em ouro, mas hoje
o porcentual não chega a 10%. Quando um país precisa, vende esses
papéis e quita seus débitos. A não ser por um breve período
em 1998, o Brasil nunca havia tido reservas tão gordas. Mas o fenômeno
não é uma exclusividade brasileira. Quase todos os países
em desenvolvimento estão tirando proveito do bom momento internacional
para obter polpudos saldos na balança comercial e acumular dólares.
Em 1996, a China possuía 100 bilhões de dólares em reservas
e, no fim deste ano, deverá superar a marca de 1 trilhão. A Rússia,
grande exportadora de gás e petróleo, multiplicou suas reservas
por dez. "O conjunto das reservas internacionais era de 2 trilhões de dólares
em 2000. Em 2006, deve chegar a 4,8 trilhões, uma soma sem precedentes",
afirma o economista Brad Setser, ex-consultor do Tesouro americano. "Praticamente
todo esse aumento vem dos emergentes." As reservas equivalem a 30% do PIB dos
países em desenvolvimento, o triplo do porcentual registrado em 1990. "Esses
recursos ajudam a evitar crises ou, quando elas ocorrem, minoram seus efeitos",
diz o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central.
Depois da quebradeira da década passada, hoje os emergentes nadam em dinheiro.
Além da conjuntura positiva, boa parte deles aprendeu a lição
e ajustou suas contas. Até 1998, eles acumulavam sucessivos saldos negativos
em suas transações com o exterior foram 100 bilhões
de dólares só em 1995. A partir de 1999, esses países começaram
a registrar superávits. Em 2006, o saldo deverá ficar positivo em
570 bilhões de dólares, um recorde. As empresas também estão
afogadas em dólares. Faz dezessete trimestres consecutivos que os lucros
das 500 maiores empresas listadas na Bolsa de Nova York avançam a taxas
de dois dígitos. Esse excedente de recursos, tanto no setor público
como no privado, tornou a economia mundial mais sólida. Contribui ainda
o fato de a inflação, em todo o globo, ter se mantido em níveis
baixos, o que permitiu que os juros ficassem baixos e a economia não perdesse
fôlego. Economistas já
estimam que as reservas do país atingirão 100 bilhões de
dólares em 2007. Mas essa poupança tem um custo. O país precisa
avaliar se os benefícios são superiores ao preço pago por
esse seguro. Para alguns analistas, o atual nível já é mais
do que suficiente para cobrir os compromissos externos, e o aumento das reservas
significaria um custo desnecessário. Segundo o economista Márcio
Garcia, da PUC-Rio, manter os 70 bilhões de dólares custa 4,3 bilhões
de dólares ao ano ou quase 10 bilhões de reais, uma conta
salgada para um país tão carente de investimentos públicos.
Ampliar a poupança implicaria aumentar a dívida interna. No nível
pessoal, seria como manter dinheiro aplicado a taxas menores do que as pagas pelo
estouro no cheque especial. Um contra-senso.
Pode até ser que o Brasil já não precise engordar ainda mais
suas reservas. Mas um bom argumento para deixar os 70 bilhões de dólares
lá fora, bem guardados nos bancos estrangeiros, é o fato de que
assim essa valiosa poupança ficará bem longe de vampiros, sanguessugas
e mensaleiros de toda sorte.
COMO ENCHER O COFRE
Cenário externo favorável estimula
o acúmulo de reservas
1 Quando uma empresa brasileira exporta seus produtos,
ela recebe dólares pela venda. Esses recursos precisam ser trazidos para
o país e convertidos em reais. Nas importações é o
inverso: os importadores convertem seus reais em dólares e assim pagam
os fornecedores externos. Além do comércio, há outras transações
externas turismo, investimentos (em fábricas e na bolsa de valores)
e empréstimos. 2
Quando o ingresso de dólares no país supera a saída,
o país tem um superávit nas contas externas. O governo, por meio
do Banco Central e do Tesouro Nacional, compra parte desses dólares e os
mantém guardados no exterior, em contas bancárias especiais
são as reservas internacionais. Normalmente esses recursos são armazenados
na forma de títulos do governo dos Estados Unidos, de países europeus
ou do Japão. 3 O
forte crescimento mundial impulsionou as exportações brasileiras,
o que permite um saldo comercial de 40 bilhões de dólares ao ano.
Esse dinheiro é suficiente para pagar todos os débitos externos,
e ainda sobram alguns bilhões de dólares que ficam guardados
lá fora, nas reservas internacionais. Quanto maior essa poupança,
menor o risco de um país sofrer uma crise financeira. |
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