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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Brasil
Só falta no bolso

O país nada em dólares e engorda
suas reservas, mas esse dinheiro
não pode ser gasto. Ele funciona
de colchão para amortecer choques


Giuliano Guandalini

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Reservas gordas

O governo brasileiro possui uma pequena fortuna de mais de 70 bilhões de dólares, ou 150 bilhões de reais, guardada no exterior. São as reservas internacionais, poupança em dólares e outras moedas fortes que fica armazenada em bancos estrangeiros. É uma montanha de dinheiro que teoricamente seria bastante para, numa só tacada, solucionar todos os gargalos na infra-estrutura do país e acabar com as favelas, além de ampliar drasticamente o acesso ao saneamento básico. E ainda sobrariam alguns trocados. Os recursos equivalem a quinze vezes o orçamento anual do Bolsa Família e, se injetados na economia, dariam um tremendo impulso ao PIB – que, no segundo trimestre, cresceu num ritmo raquítico de 0,5%.

Por que então o país não investe esses recursos para sanar suas mazelas e estimular a economia? Porque não pode. É a resposta simples e clara.

Quanto mais robusta a poupança, maior a credibilidade do país. São esses dólares que asseguram o pagamento dos débitos externos e, dessa maneira, protegem o Brasil contra crises. Afinal, os credores estrangeiros não aceitam pagamento em reais – para quitar os compromissos, só com moedas fortes e aceitas internacionalmente, como dólar e euro. Foi graças ao aumento dessas reservas e à redução da dívida externa que o Brasil pôde atingir uma inédita confiabilidade. Torrar esses recursos colocaria em risco a estabilidade, ao trazer de volta a inflação e elevar a taxa de juros.

Antigamente os países mantinham suas reservas guardadas dentro do próprio território, armazenadas na forma de barras de ouro. Agora esses recursos ficam, em geral, depositados em bancos estrangeiros, sobretudo na forma de títulos denominados em moeda forte – em 1980, 60% das reservas mundiais eram em ouro, mas hoje o porcentual não chega a 10%. Quando um país precisa, vende esses papéis e quita seus débitos. A não ser por um breve período em 1998, o Brasil nunca havia tido reservas tão gordas. Mas o fenômeno não é uma exclusividade brasileira. Quase todos os países em desenvolvimento estão tirando proveito do bom momento internacional para obter polpudos saldos na balança comercial e acumular dólares. Em 1996, a China possuía 100 bilhões de dólares em reservas e, no fim deste ano, deverá superar a marca de 1 trilhão. A Rússia, grande exportadora de gás e petróleo, multiplicou suas reservas por dez. "O conjunto das reservas internacionais era de 2 trilhões de dólares em 2000. Em 2006, deve chegar a 4,8 trilhões, uma soma sem precedentes", afirma o economista Brad Setser, ex-consultor do Tesouro americano. "Praticamente todo esse aumento vem dos emergentes." As reservas equivalem a 30% do PIB dos países em desenvolvimento, o triplo do porcentual registrado em 1990. "Esses recursos ajudam a evitar crises ou, quando elas ocorrem, minoram seus efeitos", diz o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central.

Depois da quebradeira da década passada, hoje os emergentes nadam em dinheiro. Além da conjuntura positiva, boa parte deles aprendeu a lição e ajustou suas contas. Até 1998, eles acumulavam sucessivos saldos negativos em suas transações com o exterior – foram 100 bilhões de dólares só em 1995. A partir de 1999, esses países começaram a registrar superávits. Em 2006, o saldo deverá ficar positivo em 570 bilhões de dólares, um recorde. As empresas também estão afogadas em dólares. Faz dezessete trimestres consecutivos que os lucros das 500 maiores empresas listadas na Bolsa de Nova York avançam a taxas de dois dígitos. Esse excedente de recursos, tanto no setor público como no privado, tornou a economia mundial mais sólida. Contribui ainda o fato de a inflação, em todo o globo, ter se mantido em níveis baixos, o que permitiu que os juros ficassem baixos e a economia não perdesse fôlego.

Economistas já estimam que as reservas do país atingirão 100 bilhões de dólares em 2007. Mas essa poupança tem um custo. O país precisa avaliar se os benefícios são superiores ao preço pago por esse seguro. Para alguns analistas, o atual nível já é mais do que suficiente para cobrir os compromissos externos, e o aumento das reservas significaria um custo desnecessário. Segundo o economista Márcio Garcia, da PUC-Rio, manter os 70 bilhões de dólares custa 4,3 bilhões de dólares ao ano – ou quase 10 bilhões de reais, uma conta salgada para um país tão carente de investimentos públicos. Ampliar a poupança implicaria aumentar a dívida interna. No nível pessoal, seria como manter dinheiro aplicado a taxas menores do que as pagas pelo estouro no cheque especial. Um contra-senso.

Pode até ser que o Brasil já não precise engordar ainda mais suas reservas. Mas um bom argumento para deixar os 70 bilhões de dólares lá fora, bem guardados nos bancos estrangeiros, é o fato de que assim essa valiosa poupança ficará bem longe de vampiros, sanguessugas e mensaleiros de toda sorte.

 

COMO ENCHER O COFRE

Cenário externo favorável estimula
o
acúmulo de reservas  

1 Quando uma empresa brasileira exporta seus produtos, ela recebe dólares pela venda. Esses recursos precisam ser trazidos para o país e convertidos em reais. Nas importações é o inverso: os importadores convertem seus reais em dólares e assim pagam os fornecedores externos. Além do comércio, há outras transações externas – turismo, investimentos (em fábricas e na bolsa de valores) e empréstimos.  

2 Quando o ingresso de dólares no país supera a saída, o país tem um superávit nas contas externas. O governo, por meio do Banco Central e do Tesouro Nacional, compra parte desses dólares e os mantém guardados no exterior, em contas bancárias especiais – são as reservas internacionais. Normalmente esses recursos são armazenados na forma de títulos do governo dos Estados Unidos, de países europeus ou do Japão.  

3 O forte crescimento mundial impulsionou as exportações brasileiras, o que permite um saldo comercial de 40 bilhões de dólares ao ano. Esse dinheiro é suficiente para pagar todos os débitos externos, e ainda sobram alguns bilhões de dólares – que ficam guardados lá fora, nas reservas internacionais. Quanto maior essa poupança, menor o risco de um país sofrer uma crise financeira.

 
 
 
 
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