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Brasil Voto para a platéia
Câmara acaba com o anonimato em todas as votações. Agora,
caberá aos senadores corrigir o devaneio
 Otávio
Cabral Jose
Cruz/ABR
 | | Festa
na Câmara pela aprovação do fim do voto secreto: busca pela
sobrevivência política |
Até na hora em que tudo se encaminha para fazer o certo a Câmara
dos Deputados consegue errar. Na semana passada, com um placar de maioria arrebatadora
383 votos a favor, nenhum voto contra e 4 abstenções ,
os deputados aprovaram o fim do voto secreto para qualquer votação.
A idéia inicial, acertada entre os líderes de todos os partidos,
era acabar com o anonimato apenas em cassações de parlamentares,
pois há um consenso de que o sigilo do voto ajudou enormemente a produzir
a escandalosa safra de absolvições de mensaleiros. Seria uma medida
saneadora. Talvez dificultasse o festival de impunidade e teria ainda a vantagem
de o eleitor ficar conhecendo o voto de seu deputado. Na última hora, porém,
a bancada governista entrou em ação e conseguiu fechar um acordo
para acabar com o voto secreto para toda e qualquer votação. Assim,
na eleição da direção da Câmara, na apreciação
de um veto presidencial, na indicação de um embaixador ou ministro
do Supremo Tribunal Federal, as votações seriam abertas.
Na aparência, é uma iniciativa positiva, que radicaliza a democracia
no Parlamento e atende aos anseios da opinião pública, que repudia
as absolvições em série. No fundo, é uma armadilha.
Estabelecido na Constituição de 1824 para a análise das nomeações
do imperador aos tribunais e ampliado mais tarde para uma vasta gama de matérias,
o voto secreto não é um mal em si. Há situações
em que está a serviço da independência e da liberdade do parlamentar.
"O voto secreto é uma garantia histórica do Parlamento ante o poder
central", diz o cientista político e historiador Octaciano Nogueira, da
Universidade de Brasília (UnB). Não é por acaso que os governistas
ficaram empolgados com o fim do sigilo do voto. Com todos votando tudo abertamente,
o governo ganha um poderoso instrumento para montar o mapa das lealdades e traições,
ampliando o poder de impor suas vontades ao Parlamento. Isso vale tanto para o
governo federal como para os governos estaduais e municipais, pois o voto secreto
também acabaria nas assembléias legislativas e câmaras de
vereadores. Alastair
Grant/AP
 | | Sessão
do Parlamento inglês: lá, a preocupação é com
a democracia |
"Em uma democracia
frágil como a nossa, cheia de autocratas, isso é um perigo", afirma
Octaciano Nogueira. Mesmo nas democracias mais antigas, o voto anônimo existe.
Nos Estados Unidos, são sigilosas as votações sobre indicações
de embaixadores e membros da Suprema Corte, além dos vetos presidenciais.
Há ainda a possibilidade de transformar em secreta a votação
de um projeto que seja considerado de segurança nacional. Até no
Parlamento inglês, o mais antigo do mundo e onde todas as votações
costumavam ser abertas, hoje existe o voto secreto. Desde 2001, a eleição
da direção da Câmara dos Comuns é sigilosa. Uma comissão
que estudou o assunto chegou à conclusão de que o voto secreto protege
os parlamentares ingleses de pressões de partidos e grupos de interesse
na vitória de determinado candidato, e evita que o eleito possa retaliar
os que votaram contra. O modelo inglês é adotado no Canadá,
na França, na Itália, na Suécia e na Austrália.
Além de inconveniente, a decisão da Câmara de acabar com o
voto secreto teve seu componente de jogo de cena. Os deputados quiseram fazer
um aceno para a opinião pública, dando a aparência de que
radicalizaram na democracia, mas só o fizeram sabendo que a medida, tal
como está, será derrubada mais à frente. No Senado, onde
também terá de ser aprovada em dois turnos, forma-se um consenso
para restituir o voto secreto para todas as votações, exceto para
aquelas referentes a cassação de mandato. "O Senado vai reverter
essa decisão oportunista tomada pela Câmara", anuncia o senador Antonio
Carlos Magalhães, do PFL baiano. Sabendo que os senadores iam alterar a
decisão da Câmara, até os sanguessugas apoiaram o fim do voto
secreto. Dos 39 que estavam em plenário, três se abstiveram e 36
votaram a favor. O cálculo que fizeram é simples: como o Senado
vai alterar a decisão, a matéria terá de voltar à
Câmara para nova votação em dois turnos. É impossível
cumprir esse trâmite até o fim da atual legislatura. E, até
lá, estima-se que pelo menos quinze sanguessugas, entre os mais enrolados
no escândalo, terão sua cassação apreciada. Como a
nova legislação ainda estará sob análise, indo e vindo
entre Câmara e Senado, a votação será feita nos moldes
antigos ou seja: com voto secreto e boas probabilidades de ser reeditada
a ciranda de impunes. |